{"id":1012,"date":"2023-02-25T00:48:59","date_gmt":"2023-02-25T03:48:59","guid":{"rendered":"https:\/\/profanum.com.br\/?p=1012"},"modified":"2023-02-25T00:48:59","modified_gmt":"2023-02-25T03:48:59","slug":"o-jardim-dos-exilados-e-os-delirios-de-um-paraiso-moralista-por-jose-edilson-teles","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/2023\/02\/25\/o-jardim-dos-exilados-e-os-delirios-de-um-paraiso-moralista-por-jose-edilson-teles\/","title":{"rendered":"&#8220;O Jardim dos exilados e os del\u00edrios de um para\u00edso moralista&#8221;, por Jos\u00e9 Edilson Teles"},"content":{"rendered":"\n<!--more-->\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Os ciclos que comp\u00f5em os sentidos que atribu\u00edmos \u00e0 vida \u2013 ou \u00e0 morte \u2013 costumam nos brindar com a <em>repeti\u00e7\u00e3o<\/em> das coisas ao mesmo tempo em que se apresentam como novidade. Tendo passado o ciclo festivo do Carnaval, em uma semana do m\u00eas de fevereiro, retomamos o rumo ordin\u00e1rio dos papeis sociais invertidos: da exuber\u00e2ncia dos corpos festivos \u00e0 modera\u00e7\u00e3o do cotidiano do trabalho. No caso brasileiro, a suspens\u00e3o do ciclo ordin\u00e1rio da vida regida pela l\u00f3gica do trabalho logo dar\u00e1 lugar a outros ciclos festivos marcados pelo calend\u00e1rio da tradi\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3: da paix\u00e3o passaremos ao natal, da culpa passaremos ao consumo e, em seguida, o carnaval novamente. Como disse acima, somos brindados pela repeti\u00e7\u00e3o, uma d\u00e1diva dos ritos. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">A prop\u00f3sito, por falar em \u201crepeti\u00e7\u00e3o\u201d, nada melhor que voltarmos ao horizonte das utopias ocidentais que repetidamente desejamos conquistar: o <em>Para\u00edso<\/em> perdido \u2013 onde jamais estivemos. Do ponto de vista da organiza\u00e7\u00e3o social, pouqu\u00edssimos privilegiados neste mundo reproduzem um <em>Jardim<\/em> privado \u00e0 custa dos exclu\u00eddos e explorados enquanto se gabam do m\u00e9rito pessoal. O medo de perder os privil\u00e9gios os mant\u00e9m em <em>jardins<\/em> particulares. Al\u00e9m disso, os afortunados desse <em>Para\u00edso<\/em> consideram que os que vivem \u00e0 margem desse <em>Jardim<\/em> sitiado n\u00e3o se esfor\u00e7aram o suficiente para conquist\u00e1-lo e, com frequ\u00eancia, criam obst\u00e1culos para manter a espada do anjo do privil\u00e9gio sempre afiada. Habitar o <em>Jardim<\/em> privado tornou-se o mantra das doutrinas neoliberais: o privil\u00e9gio se justifica pela l\u00f3gica meritocr\u00e1tica segundo a qual alguns \u2013 leia-se a maioria \u2013 foram mais \u201cexpulsos\u201d que outros do <em>Jardim<\/em>, agora fechado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">A prop\u00f3sito, novamente, o horizonte de desejo desse <em>Jardim<\/em> sitiado foi tema do enredo \u201cDel\u00edrios de um para\u00edso vermelho\u201d, da escola Acad\u00eamicos do Salgueiro, no Carnaval de 2023, numa bela homenagem ao profeta carnavalesco, Jo\u00e3ozinho Trinta. Um espet\u00e1culo das cores e dos corpos, diga-se (!), na representa\u00e7\u00e3o do embate entre a morte e a vida. O <em>Para\u00edso<\/em> vermelho do samba abriu alas para personagens do <em>Para\u00edso<\/em> ed\u00eanico revisitado: Ad\u00e3o e Eva trouxeram vida junto \u00e0 ma\u00e7\u00e3, \u201cdoce\u201d s\u00edmbolo do prazer, mas tamb\u00e9m da exclus\u00e3o e da morte (N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o de Ad\u00e3o e Eva do ideal branco da pintura \u201cA queda do homem e o lamento\u201d, de Hugo van der Goes); a Serpente destilou \u2013 ou melhor, desfilou \u2013 sua habilidade de encantamento; os quatro cavaleiros do Apocalipse marcharam levando consigo a den\u00fancia da falsa esperan\u00e7a, destrui\u00e7\u00e3o e morte; os sete pecados capitais denunciaram a aus\u00eancia de empatia e solidariedade; anjos e dem\u00f4nios duelaram e dan\u00e7aram na avenida. A alegoria do enredo \u201cDel\u00edrios de um para\u00edso vermelho\u201d mostrou ao mundo, literalmente, a capacidade cr\u00edtica de uma express\u00e3o art\u00edstica. Repetir \u00e9 dizer novamente de modo diferente.         <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O que nos interessa aqui \u00e9 pensar no modo como o <em>Para\u00edso<\/em> ed\u00eanico \u00e9 apropriado criticamente pelo <em>Para\u00edso<\/em> da avenida, ainda que temporariamente. Por que, repetidamente, esse tipo de invers\u00e3o realizado pela express\u00e3o art\u00edstica do carnaval \u201cescandaliza\u201d os idealizadores do <em>Para\u00edso<\/em> ocidental da moralidade perdida, tal como assistimos nas redes sociais? Arrisco uma hip\u00f3tese: a invers\u00e3o dos mitos fundantes da tradi\u00e7\u00e3o ocidental, elevados ao longo de um processo hist\u00f3rico \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de valores eternos e universais, coloca em risco a manuten\u00e7\u00e3o de uma hist\u00f3ria contada (repetidas vezes) por meio de institui\u00e7\u00f5es religiosas, pol\u00edticas e econ\u00f4micas dominantes. Uma vasta literatura cr\u00edtica chama isso de \u201ccoloniza\u00e7\u00e3o\u201d. Essa \u201cnarrativa\u201d dominante, para usar um termo em voga, coloniza o mundo da vida, os corpos e as consci\u00eancias. Os recursos mobilizados pela express\u00e3o art\u00edstica do Carnaval, tal como o enredo \u201cDel\u00edrios de um para\u00edso vermelho\u201d, suspendem a l\u00f3gica do cotidiano ordin\u00e1rio e naturalizado para ascender ao papel cr\u00edtico via entretenimento. A prova de que as estruturas de domina\u00e7\u00e3o insistem em manter-se de p\u00e9 pode ser observada na repeti\u00e7\u00e3o dos falsos dilemas, ano ap\u00f3s ano: o sujeito \u00e9 incapaz de se indignar com a desigualdade e a opress\u00e3o da qual tamb\u00e9m \u00e9 v\u00edtima (ou, no caso concreto do genoc\u00eddio dos Yanomami), mas vocifera com a invers\u00e3o de seus personagens m\u00edticos preferidos: anjos e dem\u00f4nios. Pois, abre alas que queremos passar!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Ao inverter a regra do jogo, at\u00e9 que n\u00e3o sa\u00edmos perdendo: se os mecanismos de domina\u00e7\u00e3o contaram com a pedagogia da repeti\u00e7\u00e3o, n\u00e3o menos proveitoso \u00e9 contar com a l\u00f3gica da invers\u00e3o repetidamente. De tanto repetir, um dia o del\u00edrio do <em>Para\u00edso<\/em> moralista ser\u00e1 implodido e dar\u00e1 lugar aos diversos modos de ser e existir. Trata-se, pois, da constru\u00e7\u00e3o \u201cdel\u00edrios\u201d aut\u00eanticos de um <em>Para\u00edso<\/em> coletivo \u2013 afinal, n\u00e3o custa sonhar e propor a\u00e7\u00f5es coletivas. Como diz o trecho da letra:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-small-font-size\"><blockquote><p><\/p><cite>Bendita reden\u00e7\u00e3o! Os exclu\u00eddos libertando suas dores <br>Embarque, pro renascer dos seus valores<br>Basta! De viol\u00eancia e opress\u00e3o<br>Chega de intoler\u00e2ncia<br>A luz da eternidade acende a chama<br>Festejando a igualdade que a felicidade emana<br>Resplandece a beleza do meu rubro para\u00edso<br>Proibido \u00e9 proibir, aviso!<br>Pelas b\u00ean\u00e7\u00e3os de Jo\u00e3o, nessa noite de magia<br>O meu samba \u00e9 a revolu\u00e7\u00e3o da alegria <\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">A estrutura do mito judaico-crist\u00e3o invertido cede lugar \u00e0 cr\u00edtica social, a cr\u00edtica das estruturas da desigualdade e da intoler\u00e2ncia. O <em>Jardim<\/em> dos exilados inverte o espelho dessas estruturas ao denunciar s\u00e9culos de exclus\u00e3o, de apagamento, de viol\u00eancia, opress\u00e3o e morte. Os exilados do <em>Jardim<\/em> denunciam as estruturas demon\u00edacas que perpetuam os navios transatl\u00e2nticos do inferno escravocrata presentes nas rela\u00e7\u00f5es sociais; os exilados do <em>Jardim<\/em> denunciam os dispositivos da domina\u00e7\u00e3o operada pela ideia de \u201cpecado\u201d na produ\u00e7\u00e3o de corpos d\u00f3ceis e obedientes; os exilados do <em>Jardim<\/em> reivindicam seu quinh\u00e3o no direito \u00e0 exist\u00eancia, no direito ao corpo e a vida. Os exilados do <em>Jardim<\/em> reivindicam a d\u00edvida hist\u00f3rica para com seus ancestrais, o reconhecimento de suas divindades e bens culturais. Os exilados do <em>Jardim<\/em> diasp\u00f3rico n\u00e3o voltar\u00e3o para a senzala e repetir\u00e3o, quantas vezes for preciso, aos insens\u00edveis de cora\u00e7\u00e3o: abre alas que vamos passar!<\/p>\n\n\n\n<p>Cr\u00e9dito: \u201cDel\u00edrios de um para\u00edso vermelho\u201d:<\/p>\n\n\n\n<p>Autores: Mois\u00e9s Santiago, L\u00edbero, Serginho do Porto, Celino Dias, Aldir Senna, Orlando Ambr\u00f3sio, Gilmar L. Silva e Marquinho Bombeiro <\/p>\n\n\n\n<p>Int\u00e9rprete: Emerson Dias<\/p>\n\n\n\n<p>Enredo: Edson Pereira       <\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[21,26,36,47],"tags":[54,69,78,140,183,185,187,229,253,295],"class_list":["post-1012","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cultura","category-moralidade","category-jose-edilson-teles","category-teologia","tag-alegoria","tag-biblia","tag-carnaval","tag-evangelicos","tag-igreja","tag-intolerancia","tag-jardim","tag-paraiso","tag-religiao","tag-valores-cristaos"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1012"}],"collection":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1012"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1012\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1012"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1012"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1012"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}