{"id":1018,"date":"2023-02-25T12:55:42","date_gmt":"2023-02-25T15:55:42","guid":{"rendered":"https:\/\/profanum.com.br\/?p=1018"},"modified":"2023-02-25T12:55:42","modified_gmt":"2023-02-25T15:55:42","slug":"o-provisorio-e-o-eterno-por-claudio-de-oliveira-ribeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/2023\/02\/25\/o-provisorio-e-o-eterno-por-claudio-de-oliveira-ribeiro\/","title":{"rendered":"&#8220;O provis\u00f3rio e o eterno&#8221; , por Claudio de Oliveira Ribeiro"},"content":{"rendered":"\n<!--more-->\n\n\n\n<h4 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\">(\u201cTr\u00eas an\u00fancios para um crime\u201d)<\/h4>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-small-font-size\"><blockquote><p><\/p><cite>O olhar de quem sabe amar<br>Se umedece quando v\u00ea a dor<br>Fruto da ternura de quem tem do\u00e7ura <br>\u00c9 Sim\u00e3o com a cruz do sofredor.<br> (<span style=\"color: inherit; font-size: 0.8125em;\">\u201cO olhar de quem sabe amar\u201d, de Xico Esvael)<\/span><\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Depois de assistir ao premiado <em>Tr\u00eas an\u00fancios para um crime<\/em> (2017), de Martin Mc Donagh, fiquei pensando como \u00e9 a vida, em que devemos apostar e quais os valores que podem nos abrir o futuro. O filme \u00e9 um drama inquietante que revela \u201ca vida como ela \u00e9\u201d, como nos indicava Nelson Rodrigues, com os seus micropoderes, preconceitos e sentimentos diversos. Ele mostra as ambiguidades humanas, os riscos e as possibilidades da determina\u00e7\u00e3o pela justi\u00e7a que tanto desejamos e quase sempre, na sociedade excludente que temos, est\u00e1 distante de n\u00f3s. Tamb\u00e9m sugere que viver a vida em suas adversidades n\u00e3o \u00e9 tarefa de f\u00e1cil empreendimento e que discernir nem sempre \u00e9 a \u201cnossa praia\u201d, o nosso mais costumeiro procedimento.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">No enredo, Mildred Hayes, representada brilhantemente por Frances McDormand, inconformada e revoltada pela inefic\u00e1cia e descaso das autoridades policiais na investiga\u00e7\u00e3o do brutal assassinato antecedido de estupro de sua filha adolescente, Pen\u00e9lope (Samara Weaving), n\u00e3o mede esfor\u00e7os nem consequ\u00eancias para fazer justi\u00e7a. Ela decide chamar aten\u00e7\u00e3o para o caso n\u00e3o solucionado e cujo processo est\u00e1 parado por sete meses, alugando tr\u00eas <em>outdoors<\/em> em uma velha estrada na cidade de Ebbing, no interior de Missouri, Estados Unidos. Mesmo localizados em um caminho raramente utilizado e com an\u00fancios sem palavras ofensivas, a inesperada atitude produziu forte repercuss\u00e3o em toda a cidade e trouxe muitas e dr\u00e1sticas consequ\u00eancias que afetaram v\u00e1rias pessoas, especialmente o respeitado delegado Bill Willoughby (Woody Harrelson), respons\u00e1vel pela investiga\u00e7\u00e3o, Jason Dixon (Sam Rockwell), um policial de prec\u00e1ria intelig\u00eancia e agu\u00e7adas ferocidade e intoler\u00e2ncia, e a pr\u00f3pria Mildred. O filme tamb\u00e9m aborda, de forma magistral e inquietante, temas como luto, racismo, abuso dom\u00e9stico e machismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Eu assisti ao filme no per\u00edodo lit\u00fargico da Quaresma. Como sabemos, esse \u00e9 um tempo de renova\u00e7\u00e3o, de revis\u00e3o e de mudan\u00e7a de vida, e n\u00e3o de tristeza, lam\u00faria e lamento sem fim. \u00c9 certo que nessas ocasi\u00f5es em breve chega a P\u00e1scoa, tempo da alegria e do testemunho da ressurrei\u00e7\u00e3o. Mas aquela \u201cparada\u201d quaresmal inquietante, reflexiva e inquisidora \u00e9 como uma faca brilhante e aguda no peito. Essa vis\u00e3o quase sempre me aparece quando vivo esse per\u00edodo lit\u00fargico. E, ao ver o filme, tudo se tornou mais \u00e1cido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">\u00c9 fato que todos os caminhos e processos de reflex\u00e3o, de revis\u00e3o e de an\u00e1lise pessoal t\u00eam uma pontinha de tristeza. Eles nos mostram como em um espelho que nunca somos o que desejamos ser. Vivemos em meio a ambiguidades, conflitos, dramas e ansiedades. \u00c9 como sussurrarmos a antiga can\u00e7\u00e3o: \u201cEu hoje estou t\u00e3o triste, eu precisava tanto conversar com Deus, falar dos meus problemas, tamb\u00e9m lhe confessar tantos segredos meus&#8230;\u201d. Por vezes nos sentimos assim, \u201cpra baixo\u201d, <em>down<\/em>, amuados ou azedos. No entanto, as possibilidades de mudan\u00e7a, embora nos assustem, nos animam e nos encorajam. Ou isso seria falsa esperan\u00e7a e engano?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Ser de \u201ccarne e osso\u201d, com sangue fervendo nas veias e o sentimento \u00e0 flor da pele, \u00e9 o dado mais real da vida. Poucos conhecem uma can\u00e7\u00e3o interpretada por Z\u00e9lia Duncan, que \u00e9 uma verdadeira aula de antropologia teol\u00f3gica:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-small-font-size\"><blockquote><p><\/p><cite>A alegria do pecado \u00e0s vezes toma conta de mim<br>E \u00e9 t\u00e3o bom n\u00e3o ser divina<br>Me cobrir de humanidade me fascina<br>E me aproxima do c\u00e9u<br>E eu gosto de estar na terra cada vez mais<br>Minha boca se abre e espera<br>O direito ainda que profano<br>Do mundo ser sempre mais humano<br>Perfei\u00e7\u00e3o demais me agita os instintos<br>Quem se diz muito perfeito<br>Na certa encontrou um jeito insosso<br>Pra n\u00e3o ser de carne e osso, pra n\u00e3o ser<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">\u00c9 a tenta\u00e7\u00e3o de n\u00e3o ser humano! Certa vez, com um grupo de estudos, ao lado de gente muito querida, cr\u00edtica e aberta ao novo, revisitamos o conhecido texto b\u00edblico das tenta\u00e7\u00f5es de Jesus no deserto (Lucas 4). Diferentes das formas de intimismo e de moralismo religioso, tais palavras questionam os m\u00e9todos de assistencialismo, de dom\u00ednio e de exibicionismo poss\u00edveis, tanto na religi\u00e3o como na vida em geral. Transformar pedras em p\u00e3o, ter o dom\u00ednio dos reinos e poderes, saltar com seguran\u00e7a do ponto mais alto&#8230; N\u00e3o! Esse drama simb\u00f3lico\/espiritual, assim como o filme, nos leva a pensarmos para fora de n\u00f3s mesmos e termos, a partir de processos profundos, pessoais e coletivos, a consci\u00eancia, ainda que prec\u00e1ria e provis\u00f3ria, do que \u00e9 a vida e do que nela h\u00e1 para ser revisto.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Assim, vislumbramos valores cruciais da vida: a coer\u00eancia \u00e9tica, a humildade sincera, o despojamento, o reconhecimento de nossas limita\u00e7\u00f5es e erros&#8230; E mais do que isso, o esp\u00edrito quaresmal nos move a discernir os caminhos a serem trilhados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">No filme, Mildred Hayes \u00e9 concebida como uma mulher durona, implac\u00e1vel, ora vulgar e, n\u00e3o obstante a isso, justa. Al\u00e9m do mais, por vezes \u00e9 rude, por vezes amorosa, expressa a dor da perda, mas tamb\u00e9m da culpa, assume sua raiva e ang\u00fastia e v\u00ea sua fraqueza e seu empoderamento se entrela\u00e7arem. Todo esse quadro confere \u00e0 personagem uma densidade e complexidade singulares, nada que seja \u00f3bvio ou simples, como \u00e9 a vida de qualquer pessoa sofrida e que precisa se deparar com tens\u00f5es, decis\u00f5es e adversidades.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Mildred \u00e9 estranhamente cativante. Mesmo que n\u00e3o os expresse verbalmente, \u00e9 poss\u00edvel, por interm\u00e9dio de suas rugas e olhares, compreender seus sentimentos. E mais: mistur\u00e1-los com os nossos e com a dor e a luta de milhares de injusti\u00e7ados neste mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Esse quadro nos faz lembrar as palavras de Rubem Alves:\u00a0<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-small-font-size\"><blockquote><p><\/p><cite>A teologia fala sobre o sentido da vida. E quem n\u00e3o ser\u00e1 ent\u00e3o que, de vez em quando, provavelmente no sil\u00eancio das ins\u00f4nias ou naqueles momentos em que a vida de um ente querido se dependura sobre o abismo, que n\u00e3o ser\u00e1, que n\u00e3o ter\u00e1 sido, meio te\u00f3logo, invocador de coisas divinas, m\u00e1gico?&#8230; (1982, p. 194).<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Mais uma vez ou\u00e7o ecoar em mim a voz do psicanalista Helio Pellegrino, que tanto marcou minha juventude com seu esp\u00edrito humanista, cr\u00edtico e esperan\u00e7oso:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-small-font-size\"><blockquote><p><\/p><cite>A cada passo nos defrontamos com o mundo, que nos compete decifrar. Somos nomeadores de mundo, seus int\u00e9rpretes, aqueles para quem a verdade das coisas se estende como fruto que pesa no ramo que o sustenta. Mas, ao mesmo tempo, somos distra\u00eddos e avaros com as coisas. Elas quase s\u00f3 nos interessam na medida de sua possibilidade de matar, em n\u00f3s, a fome utilit\u00e1ria. (1989, p. 190).<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Ah&#8230; olhar para dentro de n\u00f3s mesmos, reconhecer quando estamos no fundo do po\u00e7o, ver a mis\u00e9ria e a inveja, as rugas da amargura, do rancor e da vingan\u00e7a. Olhar para dentro de n\u00f3s mesmos e, ao lado, ver as centelhas de paix\u00e3o, os bons desejos para o outro e para n\u00f3s mesmos, as possibilidades de luz, um raiozinho talvez, tentar descobrir a imagem de Deus em n\u00f3s no dia a dia de nossos passos. Ou, como nos disse o te\u00f3logo J\u00fcrgen Moltmann, em sua <em>Teologia da esperan\u00e7a<\/em>: perceber \u201ca eternidade imanente do tempo&#8230; reconhecer no brilho do temporal e do passageiro, a subst\u00e2ncia nele imanente, \u2018o eterno que est\u00e1 presente\u2019\u201d (2003, p. 35). Esse \u00e9 o meu desejo.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[19,48,21,47],"tags":[83,132,249,253,286,295],"class_list":["post-1018","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-claudio-de-oliveira-ribeiro","category-cultura-cultura","category-cultura","category-teologia","tag-cinema","tag-esperanca","tag-quaresma","tag-religiao","tag-teologia","tag-valores-cristaos"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1018"}],"collection":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1018"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1018\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1018"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1018"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1018"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}