{"id":1129,"date":"2023-07-04T09:52:33","date_gmt":"2023-07-04T12:52:33","guid":{"rendered":"https:\/\/profanum.com.br\/?p=1129"},"modified":"2023-07-04T09:52:33","modified_gmt":"2023-07-04T12:52:33","slug":"como-uma-onda-no-mar-por-claudio-de-oliveira-ribeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/2023\/07\/04\/como-uma-onda-no-mar-por-claudio-de-oliveira-ribeiro\/","title":{"rendered":"\u201cComo uma onda no mar&#8230;\u201d, por Claudio de Oliveira Ribeiro"},"content":{"rendered":"\n<!--more-->\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:17px\"><blockquote><p><\/p><cite>Nada do que foi ser\u00e1<br>De novo do jeito que j\u00e1 foi um dia<br>Tudo passa, tudo sempre passar\u00e1<br>A vida vem em ondas como um mar<br>Num indo e vindo infinito<br>(\u201cComo uma onda\u201d,&nbsp;<br>Lulu Santos e Nelson Motta)<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Eu recitei os versos dessa can\u00e7\u00e3o dias atr\u00e1s quando tive a oportunidade de celebrar o casamento de pessoas queridas. Ao compartilharem aspectos do conjunto de suas vidas, elas ofereceram um rico e denso buqu\u00ea de experi\u00eancias de constru\u00e7\u00e3o e reconstru\u00e7\u00e3o de suas trajet\u00f3rias pessoais. Por essa raz\u00e3o, me lembrei dessa poesia, sempre m\u00e1gica, comovente e inquietante. E ela, que me acompanha desde os tempos de juventude, emoldurou as preces, os textos b\u00edblicos e os ritos sagrados, a inef\u00e1vel troca das alian\u00e7as e as palavras amorosas compartilhadas em compromissos m\u00fatuos de comunh\u00e3o e afeto. Afinal, \u201cainda que eu fale a l\u00edngua dos homens e dos anjos, se n\u00e3o tiver amor [&#8230;], nada serei\u201d (I Cor\u00edntios 13.1-2).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">N\u00f3s, como express\u00e3o majest\u00e1tica de uma bel\u00edssima comunidade de amigos, amigas e familiares, est\u00e1vamos em frente ao mar. Ali, celebramos livremente, intercruzando f\u00e9s, afirmando a beleza e a sacralidade da vida, ao mesmo tempo que sent\u00edamos o sabor do vento em nossas faces, o calor do sol em nossos ombros, e a areia da praia sob nossos p\u00e9s.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O \u201cindo e vindo infinito\u201d expresso na can\u00e7\u00e3o me fez recordar das palavras do te\u00f3logo alem\u00e3o Paul Tillich, que, em sua autobiografia, real\u00e7ou o impacto que as primeiras vistas do mar, e das ondas que o envolvem, causaram em sua vida. \u00c9 como se os mist\u00e9rios e a profundidade da exist\u00eancia e do cosmo viessem inteira e corajosamente nas ondas do mar e fossem penetrando ardorosamente o nosso lado mais \u00edntimo e visceral.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">E l\u00e1 dentro, \u201cno interior do meu interior\u201d, como diz outra can\u00e7\u00e3o \u2013 a de Vander Lee \u2013, as ondas da profundidade da vida se misturam com as de minha interioridade. L\u00e1, no mais \u00edntimo de cada ser, tudo \u00e9 recriado, revisto, redimensionado. E as ondas que existem dentro de n\u00f3s, e que ora nos causam enjoo e tontura, ora nos jogam para a frente, saem robustas para o mar e se reencontram com a fundura do universo e dos destinos. Foi assim que eu me senti. Em um movimento inebriante. Que alumia, recria, refaz, traduz.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Pois&#8230;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:17px\"><blockquote><p><\/p><cite>Tudo que se v\u00ea n\u00e3o \u00e9<br>Igual ao que a gente<br>Viu h\u00e1 um segundo<br>Tudo muda o tempo todo<br>No mundo<br>N\u00e3o adianta fugir<br>Nem mentir<br>Pra si mesmo agora<br>H\u00e1 tanta vida l\u00e1 fora<br>Aqui dentro sempre<br>Como uma onda no mar<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">E esse vai-e-vem da vida nos revela tantas possibilidades&#8230; Com ele, \u00e9 poss\u00edvel perceber o mundo natural, material e humano como fontes vivas de energia e caminhar em dire\u00e7\u00e3o da comunh\u00e3o entre eles. E tamb\u00e9m abranger os horizontes, as utopias, a transcend\u00eancia, \u201ca justi\u00e7a, a paz e a integridade da Cria\u00e7\u00e3o\u201d, que o movimento ecum\u00eanico nos ensinou, e o \u201coutro mundo poss\u00edvel\u201d, como os F\u00f3runs Sociais Mundiais nos ajudaram a vislumbrar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">A areia daquela praia \u00e9 como o ch\u00e3o de nossas vidas. Ela demarca as inquieta\u00e7\u00f5es, baliza o compasso do que sai do peito, do que grita a alma, do que faz revirar os desejos. Nela, como espa\u00e7o simb\u00f3lico interpelador de nossas vidas, tra\u00e7amo ses os caminhos. Tomamos decis\u00f5es. Optamos, n\u00e3o sem contradi\u00e7\u00f5es e ambiguidades, pelas rotas do bem, da verdade, do amor despojado e gratuito. Buscamos esses rumos, na cren\u00e7a de que \u201c\u00e9 preciso amar as pessoas como se n\u00e3o houvesse amanh\u00e3\u201d, como na conhecida can\u00e7\u00e3o da Legi\u00e3o Urbana. No ch\u00e3o da vida, vivemos potencialidades e limites, frustra\u00e7\u00f5es e realiza\u00e7\u00f5es, desprendimentos e despeitos, passos de liberdade e controles, embora a mesma palavra b\u00edblica nos d\u00ea a inspira\u00e7\u00e3o de que o \u201camor n\u00e3o arde em ci\u00fames\u201d (v. 4). \u00c9 nesse solo que tentamos decifrar os des\u00edgnios que nos incomodam ou nos prendem.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 preciso lembrar as palavras de Rubem Alves:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:17px\"><blockquote><p><\/p><cite>A teologia fala sobre o sentido da vida.<br>Afirma\u00e7\u00e3o que pode ser invertida: sempre que os homens estiverem falando sobre o sentido da vida, ainda que para isso n\u00e3o usem aquelas contas de vidro que trazem as cores tradicionais do sagrado, estar\u00e3o construindo teologias: mundos de amor, em que faz sentido viver e morrer.<br>E quem n\u00e3o ser\u00e1 ent\u00e3o que, de vez em quando, provavelmente no sil\u00eancio das ins\u00f4nias ou naqueles momentos em que a vida de um ente querido se dependura sobre o abismo, que n\u00e3o ser\u00e1, que n\u00e3o ter\u00e1 sido, meio te\u00f3logo, invocador de coisas divinas, m\u00e1gico?&#8230; (<em>Varia\u00e7\u00f5es sobre a vida e a morte, <\/em>1982, p. 194).<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">E tudo isso nos faz tamb\u00e9m lembrar a magia de \u201cImagine\u201d, de John Lennon \u2013 uma das mais marcantes can\u00e7\u00f5es que tamb\u00e9m ressoa l\u00e1 dentro do peito&#8230;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:17px\"><blockquote><p><\/p><cite>Imagine all the people<br>Living life in Peace<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">\u00c9&#8230; \u201cVoc\u00ea pode dizer que eu sou um sonhador. Mas, n\u00e3o sou o \u00fanico\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">E na alian\u00e7a de gente cheia de ideais, de pessoas que mant\u00eam o compromisso com a verdade e a justi\u00e7a \u2013 ainda que a cultura do \u00f3dio e da viol\u00eancia continue rangendo os dentes em nosso pa\u00eds \u2013, e na companhia sempre terna de amigos e amigas que prezam a solidariedade, a compaix\u00e3o, a inclus\u00e3o e o respeito, vamos construindo pontes&#8230; reunindo afetos&#8230; criando la\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O c\u00e9u, o mar e a terra naquela tarde, na intera\u00e7\u00e3o m\u00e1gica e sublime com os que ali estavam, testemunharam a inspira\u00e7\u00e3o da Palavra que nos leva ao \u201cbem-viver\u201d, \u00e0 cumplicidade do amor, \u00e0 doa\u00e7\u00e3o sem medida. N\u00e3o se trata de indica\u00e7\u00f5es meramente \u00e9ticas, mesmo porque ningu\u00e9m se alimenta de regras morais, mas, sim, de uma luz, uma inspira\u00e7\u00e3o, uma placa luminosa: \u201cO amor, paciente e benigno, n\u00e3o se ufana, n\u00e3o se ensoberbece, n\u00e3o se conduz inconvenientemente, n\u00e3o procura os seus pr\u00f3prios interesses, n\u00e3o se exaspera, n\u00e3o se ressente do mal, n\u00e3o se alegra com a injusti\u00e7a\u201d (v. 4-6).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Tais caminhos s\u00e3o misteriosos e altivos. S\u00e3o tra\u00e7ados com a mente borbulhando e as pernas bambeando, e certa secura na garganta, t\u00edpicas dos rompantes de paix\u00e3o. Neles aparece a voz que vem ao peito com a bel\u00edssima can\u00e7\u00e3o \u201c\u00c2nima\u201d, de Milton Nascimento:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"border-style:none;border-width:0px;font-size:17px\"><blockquote><p><\/p><cite>Recriar cada momento belo j\u00e1 vivido<br>e ir mais atravessar fronteiras do amanhecer<br>e ao entardecer olhar com calma, ent\u00e3o<br>Alma, vai al\u00e9m de tudo<br>o que o nosso mundo ousa perceber<br>casa cheia de coragem, vida<br>tira a mancha que h\u00e1 no meu ser<br>te quero ver, te quero ser, alma.<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Tais can\u00e7\u00f5es, imagens e mem\u00f3rias nos fazem vislumbrar muitas ondas e passagens. Elas nos revelam uma espiritualidade que valorize a vida e as pessoas deste mundo sofrido, que seja sens\u00edvel ao cuidado com a natureza e perceba nela tamb\u00e9m o lugar de salva\u00e7\u00e3o da mesma forma que olhamos para o humano.<strong> <\/strong>Esse caminho nos leva a uma aventura ecum\u00eanica que, por ser libertadora, defende os pobres e desvalidos e aprende com eles; que, por ser amorosa, inclui todo mundo; que, por ser aberta aos mist\u00e9rios do universo e dos amores concretamente vividos entre n\u00f3s, abre os olhos para o tempo, com o mar de desafios sociais e pol\u00edticos que a vida nos apresenta, com os caminhos de amor a serem trilhados e com as ondas do mar que nos levam a eles.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[19,48,21,39,1],"tags":[99,152,213,298],"class_list":["post-1129","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-claudio-de-oliveira-ribeiro","category-cultura-cultura","category-cultura","category-linguagem","category-sem-categoria","tag-cultura","tag-fe","tag-musica","tag-vida"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1129"}],"collection":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1129"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1129\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1129"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1129"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1129"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}