{"id":1147,"date":"2023-08-01T16:19:58","date_gmt":"2023-08-01T19:19:58","guid":{"rendered":"https:\/\/profanum.com.br\/?p=1147"},"modified":"2023-08-01T16:19:58","modified_gmt":"2023-08-01T19:19:58","slug":"ando-devagar-porque-ja-tive-pressa-por-claudio-de-oliveira-ribeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/2023\/08\/01\/ando-devagar-porque-ja-tive-pressa-por-claudio-de-oliveira-ribeiro\/","title":{"rendered":"\u201cAndo devagar porque j\u00e1 tive pressa&#8230;\u201d, por Claudio de Oliveira Ribeiro"},"content":{"rendered":"\n<!--more-->\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:17px\"><blockquote><p><\/p><cite>Ando devagar<br>Porque j\u00e1 tive pressa<br>E levo esse sorriso<br>Porque j\u00e1 chorei demais. <br>(\u201cTocando em frente\u201d, Almir Sater e Renato Teixeira)<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Por mais de trinta anos eu observo uma frondosa figueira, que \u2018mora\u2019 perto de um lugar onde costumo passar as minhas f\u00e9rias. Ela tinha sido dada como morta, depois de muito desgaste, e teve os troncos curvados, quase tocando o ch\u00e3o. Eles se renovaram, desenvolveram novas curvas, algumas ascendentes, como que procurando o seu pr\u00f3prio topo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">J\u00e1 me sentei aos seus p\u00e9s por numerosas vezes. J\u00e1 vi o meu filho Guilherme, quando crian\u00e7a, subir naqueles tortuosos troncos, dando oportunidade, inclusive, para uma das mais lindas fotos que j\u00e1 registramos dele.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Na companhia daquela \u00e1rvore, por diversos momentos, j\u00e1 me encantei com pequenos barcos que por ali atracam. Muitas vezes, sob o reflexo da lua e dos rastros dela nas \u00e1guas da lagoa que circunda a frondosa \u00e1rvore, troquei ardorosos beijos e excitantes abra\u00e7os. Esta \u00e1rvore nos revela a grandeza e a profundidade da vida e os instigantes mist\u00e9rios da f\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais uma vez, a linda can\u00e7\u00e3o nos fala bem de perto:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:17px\"><blockquote><p><\/p><cite>Conhecer as manhas e as manh\u00e3s<br>O sabor das massas e das ma\u00e7\u00e3s<br>\u00c9 preciso amor pra poder pulsar<br>\u00c9 preciso paz pra poder sorrir<br>\u00c9 preciso a chuva para florir.<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Quando olho para os troncos, arcados e cansados, desta quase invenc\u00edvel figueira, lembro-me do meu pr\u00f3prio corpo. De dores que tive, de tristezas que vieram, de l\u00e1grimas que correram no rosto e de perdas que me fizeram curvar e quase cair. O meu pr\u00f3prio tronco sustenta um cora\u00e7\u00e3o j\u00e1 cortado e aberto para que a vida fosse renovada e garantida. Sim! As minhas safenas n\u00e3o me deixaram cair, assim como a for\u00e7a misteriosa e divina da vida n\u00e3o permite que esta \u00e1rvore tenha vindo a sucumbir. Ela se mant\u00e9m firme. \u00c9 como se fosse uma atualiza\u00e7\u00e3o ecoteol\u00f3gica da profecia b\u00edblica messi\u00e2nica que afirmara que \u201cele se manter\u00e1 firme, e apascentar\u00e1 os povos na for\u00e7a e majestade do Senhor\u201d (Miqu\u00e9ias 5.4).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Rubem Alves, em <em>Varia\u00e7\u00f5es entre a Vida e a Morte,<\/em> j\u00e1 nos lembrara, com o veio po\u00e9tico que lhe \u00e9 peculiar, que:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:17px\"><blockquote><p><\/p><cite>Teologia \u00e9 um jeito de falar sobre o corpo.<br>O corpo dos sacrificados.<br>S\u00e3o corpos que pronunciam o nome sagrado:<br>Deus&#8230;<br>A teologia \u00e9 um poema do corpo,<br>o corpo orando,<br>o corpo dizendo as suas esperan\u00e7as,<br>falando sobre o seu medo de morrer,<br>sua \u00e2nsia de imortalidade,<br>apontando para utopias,<br>espadas transformadas em arados,<br>lan\u00e7as fundidas em podadeiras &#8230;<br>Por meio desta fala,<br>Os corpos se d\u00e3o as m\u00e3os,<br>se fundem num abra\u00e7o de amor,<br>e se sustentam para resistir e para caminhar<em> <\/em>(1982, p. 9)<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">E o olhar, ainda voltado para a firmeza e a beleza dos encurvados troncos, v\u00e3o, generosamente, fitando a for\u00e7a das pessoas mais pobres e sofridas que lutam para sobreviver, para ter um trabalho, um alimento, os direitos respeitados, e ter um sopro de esperan\u00e7a. Sim! Gosto de contemplar aquela \u00e1rvore. Ela me faz recordar das adversidades que cada um de n\u00f3s tem enfrentado ao longo dos anos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">\u00c9 tanta gente que conhe\u00e7o, cujos nomes balbucio diariamente em ora\u00e7\u00f5es e preces, que se sente curvada diante da dureza da vida, da insensibilidade de ex-governantes do nosso pa\u00eds e suas necropol\u00edticas, das diversas dores e sofrimentos, mas \u201cn\u00e3o se cansa e n\u00e3o se fatiga\u201d. Ao contr\u00e1rio, com for\u00e7a, f\u00e9 e coragem, sem medo de ser feliz, \u201ccorre com asas como \u00e1guias\u201d, como expresso na bel\u00edssima profecia b\u00edblica (Isa\u00edas 40.31).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">As pessoas que n\u00e3o se dobram diante dos arroubos dos autoritarismos, ou n\u00e3o se deixam se levar pela desesperan\u00e7a, que se sentem empoderadas para alterar os rumos de suas vidas, as que lutam contra o c\u00e2ncer, contra a depress\u00e3o, contra os progn\u00f3sticos m\u00e9dicos, as que enfrentam os maridos, confrontam os seus pastores, as que lutam pela paz e pela justi\u00e7a, as que seguem \u201ccom a mania de ter f\u00e9 na vida\u201d, como diz a can\u00e7\u00e3o \u201cMaria, Maria\u201d, de Milton Nascimento, s\u00e3o concretos fragmentos semelhantes a esta teimosa \u00e1rvore. Ra\u00edzes profundas, escondidas \u201cem tr\u00eas medidas de farinha\u201d, como diz o Evangelho (Mateus 13.33)<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:17px\"><blockquote><p><\/p><cite>Hoje me sinto mais forte<br>Mais feliz, quem sabe<br>S\u00f3 levo a certeza<br>De que muito pouco sei<br>Ou nada sei<br><br>Penso que cumprir a vida<br>Seja simplesmente<br>Compreender a marcha<br>E ir tocando em frente<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Ao olhar o vigor daquela \u00e1rvore, devidamente acompanhado do clamor das pessoas que com ela se assemelham, vamos por a\u00ed esperan\u00e7ando. Com o cora\u00e7\u00e3o ardente e com os p\u00e9s firmados no ch\u00e3o da vida, seguimos entoando outra can\u00e7\u00e3o, com a voz de Ivan Lins no cora\u00e7\u00e3o: \u201cCom for\u00e7a e com vontade, a felicidade h\u00e1 de espalhar com toda a intensidade\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">A imagem desta \u00e1rvore nos revela que \u00e9 preciso seguir firmes na louca tarefa de acreditar na vida; na busca permanente e incans\u00e1vel de ra\u00edzes profundas da f\u00e9 que nos fazem \u201ctransportar montanhas\u201d. Como na linda can\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso lembrar que<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:17px\"><blockquote><p><\/p><cite>Todo mundo ama um dia<br>Todo mundo chora<br>Um dia a gente chega<br>E no outro vai embora<br><br>Cada um de n\u00f3s comp\u00f5e a sua hist\u00f3ria<br>Cada ser em si<br>Carrega o dom de ser capaz<br>E ser feliz.\u00a0<br><\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p>A insensibilidade humana, a diminui\u00e7\u00e3o da for\u00e7a das vis\u00f5es ut\u00f3picas e as culturas de morte e de viol\u00eancia, refor\u00e7adas, lamentavelmente, por grupos e pessoas que governaram o nosso querido Brasil e que ainda est\u00e3o soltos por a\u00ed, n\u00e3o ter\u00e3o a \u00faltima palavra. A paz e a justi\u00e7a se beijar\u00e3o mais uma vez (Salmo 85.10). E \u201cpermanecer\u00e3o a f\u00e9, a esperan\u00e7a e o amor\u201d (I Cor\u00edntios 13.13). A\u00ed, seguimos cantando e sonhando&#8230;\u00a0<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:17px\"><blockquote><p><\/p><cite>Como um velho boiadeiro<br>Levando a boiada<br>Eu vou tocando os dias<br>Pela longa estrada, eu vou<br>Estrada eu sou<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">A tranquilidade e a sabedoria expressas nesta can\u00e7\u00e3o n\u00e3o omitem a for\u00e7a e a coragem que brota l\u00e1 de dentro do nosso peito. Um desejo profundo, um movimento, uma \u201cfor\u00e7a estranha no ar\u201d, como nos en-canta Caetano Veloso&#8230; \u00c9 o \u00e2nimo que sustenta a vida, quebra a petul\u00e2ncia dos que se acham fortes e s\u00e1bios, coloca limites aos violentos, renova o nosso ser e toda a cria\u00e7\u00e3o.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[19,48,21],"tags":[99,152,216,286,298],"class_list":["post-1147","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-claudio-de-oliveira-ribeiro","category-cultura-cultura","category-cultura","tag-cultura","tag-fe","tag-natureza","tag-teologia","tag-vida"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1147"}],"collection":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1147"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1147\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1147"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1147"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1147"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}