{"id":1163,"date":"2023-08-17T08:00:00","date_gmt":"2023-08-17T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/profanum.com.br\/?p=1163"},"modified":"2023-08-17T08:00:00","modified_gmt":"2023-08-17T11:00:00","slug":"uma-apresentacao-ou-minha-declaracao-de-amor-por-jorge-pinheiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/2023\/08\/17\/uma-apresentacao-ou-minha-declaracao-de-amor-por-jorge-pinheiro\/","title":{"rendered":"&#8220;Uma apresenta\u00e7\u00e3o: Ou, minha declara\u00e7\u00e3o de amor&#8221;, por Jorge Pinheiro"},"content":{"rendered":"\n<!--more-->\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O humano \u00e9 respons\u00e1vel pelo ontem, pelo hoje e pelo amanh\u00e3. \u00c9 na constru\u00e7\u00e3o escolhida ou imposta, e na sequ\u00eancia dela, que cada um, que cada uma constr\u00f3i a comunidade humana. As realidades imanentes e transcendentes s\u00e3o vaidades e correr atr\u00e1s do vento quando \u00e9 descartado o papel humano de cada dia. Por isso, a teologia exorta \u00e0 cr\u00edtica o esp\u00edrito de religiosidade e chama \u00e0 liberdade do livre esp\u00edrito: pensar a imposi\u00e7\u00e3o para construir al\u00e9m dela.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:17px\"><blockquote><p><\/p><cite>\u201cHamlet observa a Hor\u00e1cio que h\u00e1 mais cousas no c\u00e9u e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explica\u00e7\u00e3o que dava a bela Rita ao mo\u00e7o Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na v\u00e9spera consultar uma cartomante; a diferen\u00e7a \u00e9 que o fazia por outras palavras\u201d. (Machado de Assis, A Cartomante).<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Palavras. Os crist\u00e3os acreditam que o universo foi feito pela palavra, o logos joanino. Acreditam que a palavra tem poder, da\u00ed que seja o seu sim, sim, e o seu n\u00e3o, n\u00e3o. Mas Machado de Assis nos diz que se faz tamb\u00e9m por outras palavras. Dessa maneira, o criar e o fazer n\u00e3o s\u00e3o iguais porque as palavras s\u00e3o diferentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Ah! Mas s\u00e3o sempre os mesmos temas: o amor e o desamor, a dist\u00e2ncia e a saudade, o tino e o desatino, por exemplo. Talvez, mas a diferen\u00e7a \u00e9 que se faz por outras palavras. E tudo muda&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Grato, n\u00e3o piegueiro. A dizer obrigado porque as conting\u00eancias n\u00e3o fumegaram o pavio. L\u00e1 atr\u00e1s, o garoto anda pela cal\u00e7ada sem saber que a vida vai al\u00e9m do meio fio, que h\u00e1 lados. E ao atravessar a Rua do Catete as ladeiras sobem em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 graciosa Teresa. Mas sabe que de carrinho de rolim\u00e3 se desce mais r\u00e1pido, da Gl\u00f3ria em dire\u00e7\u00e3o ao Lartigau, cheio de geometrias art-d\u00e9co, ali, quase na taverna, embora os pneus fiquem \u00e0 altura da cara.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">E l\u00e1 na frente o mar. O veleiro. A liberdade, aprendida com Walter, \u00e9 negociar com os elementos. Ventos e mar\u00e9s. Diante das marea\u00e7\u00f5es, a marinharia aqui faz, junto do tio, o menino livre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Apresento a teologia humana. E o fa\u00e7o a partir de Machado de Assis, porque fazer teologia \u00e9 degustar prazeres. N\u00e3o se faz \u00e0s correrias, com sofreguid\u00e3o. \u00c9 ato delicado, caminhar por palavras, dan\u00e7ando com elas pelo universo em constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">\u00c9 interessante que Paulo, o ap\u00f3stolo, diz que somos poiema do Eterno. Poiema, do verbo grego poieo, que deu em portugu\u00eas poema e poesia, significa aquilo que \u00e9 fabricado, produto, projeto de um artes\u00e3o. Assim, na teologia, logos e poieo andam juntos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Por isso, na teologia, a paix\u00e3o aproxima, porque \u00e9 sempre logos e poieo nos diferentes momentos. Que voc\u00ea possa curtir prazerosamente no humano as palavras, as outras palavras, que nos trazem diferentes constru\u00e7\u00f5es e universos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Agradecido porque fazer teologia virou sina. O menino l\u00e1 de tr\u00e1s atravessou o tempo, os jeans, camisetas, cabelos arrepiados, e caiu aqui, do outro lado da vida, em Montpellier. Tempo de logos e poieo, o garoto de antes v\u00ea a plenitude, os sorrisos e os parab\u00e9ns que a transcend\u00eancia montou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Voltando a Machado: ele fala de palavras mal compostas, palavras decoradas, palavras sussurradas, palavras que se bebem, palavras que reboam, palavras secas, palavras afirmativas, palavras vulgares&#8230;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:17px\"><blockquote><p><\/p><cite>\u201cComo da\u00ed chegaram ao amor, n\u00e3o o soube ele nunca. A verdade \u00e9 que gostava de passar as horas ao lado dela; era a sua enfermeira moral, quase uma irm\u00e3, mas principalmente era mulher e bonita. Odor di femina: eis o que ele aspirava nela, e em volta dela, para incorpor\u00e1-lo em si pr\u00f3prio. Liam os mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios. Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam \u00e0s noites; \u2014 ela mal, \u2014 ele, para lhe ser agrad\u00e1vel, pouco menos mal. At\u00e9 a\u00ed as cousas. Agora a a\u00e7\u00e3o da pessoa, os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele, que os consultavam antes de o fazer ao marido, as m\u00e3os frias, as atitudes ins\u00f3litas. Um dia, fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma rica bengala de presente, e de Rita apenas um cart\u00e3o com um vulgar comprimento a l\u00e1pis, e foi ent\u00e3o que ele p\u00f4de ler no pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o; n\u00e3o conseguia arrancar os olhos do bilhetinho. Palavras vulgares; mas h\u00e1 vulgaridades sublimes, ou, pelo menos, deleitosas. A velha cale\u00e7a de pra\u00e7a, em que pela primeira vez passeaste com a mulher amada, fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo. Assim \u00e9 o homem, assim s\u00e3o as cousas que o cercam\u201d.<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">A aparente simplicidade de <em>A Cartomante<\/em>, publicado originalmente na Gazeta de Not\u00edcias, no Rio de Janeiro, em 1884, \u00e9 t\u00edpica de Machado. Talvez essa seja a grande li\u00e7\u00e3o do mestre: traduzir o humano com aparente simplicidade. \u00c9, digo aparente simplicidade, porque o simples d\u00e1 trabalho e, ao contr\u00e1rio do que se pensa, nunca \u00e9 primeiro, mas processo. E esse \u00e9 o recado. Fazer teologia \u00e9 descobrir o prazer da palavra curta, na constru\u00e7\u00e3o muitas vezes trabalhosa que produz aquilo que \u00e9 poieo. Ou seja, fazer teologia \u00e9 desconstruir, e na imagina\u00e7\u00e3o construir de novo, percorrendo se for poss\u00edvel o caminho de todos, de cada humano. E \u00e9 assim que, sem estardalha\u00e7o, a produ\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica ocupa lugar nos cora\u00e7\u00f5es, cheia de imagens e significados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Obrigado pelo agrad\u00e1vel, bom e doce que expressa em letras a liberdade do marujo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O sondar daquele menino l\u00e1 atr\u00e1s ajuda. O olhar deslumbrado porque a vida \u00e9 a pra\u00e7a, os jardins do Flamengo, os repuxos brancos no entardecer, as pessoas que comp\u00f5em o cen\u00e1rio como se tivessem sido colocadas l\u00e1 pelo arquiteto. E o mar&#8230; Assim \u00e9! A humanidade coroa a Gl\u00f3ria. Aceito o prescrito e reconhe\u00e7o.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[21,35,39,47],"tags":[59,69,197,239,283,286,298],"class_list":["post-1163","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cultura","category-jorge-pinheiro","category-linguagem","category-teologia","tag-amor","tag-biblia","tag-literatura","tag-poesia","tag-tempo","tag-teologia","tag-vida"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1163"}],"collection":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1163"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1163\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1163"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1163"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1163"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}