{"id":1166,"date":"2023-08-13T20:01:13","date_gmt":"2023-08-13T23:01:13","guid":{"rendered":"https:\/\/profanum.com.br\/?p=1166"},"modified":"2023-08-13T20:01:13","modified_gmt":"2023-08-13T23:01:13","slug":"deixa-a-vida-me-levar-por-claudio-de-oliveira-ribeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/2023\/08\/13\/deixa-a-vida-me-levar-por-claudio-de-oliveira-ribeiro\/","title":{"rendered":"\u201cDeixa a vida me levar&#8230;\u201d, por Claudio de Oliveira Ribeiro"},"content":{"rendered":"\n<!--more-->\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:17px\"><blockquote><p><\/p><cite>E aos trancos e barrancos<br>L\u00e1 vou eu.<br>E sou feliz e agrade\u00e7o<br>Por tudo que Deus me deu<br>Deixa a vida me levar<br>Vida leva eu.<br>\u00a0(Eri do Cais &amp; Serginho Meriti)<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil para quem tem a rigorosa forma\u00e7\u00e3o protestante crer na salva\u00e7\u00e3o pela gra\u00e7a. Parece contradit\u00f3rio, mas \u00e9 assim mesmo. O te\u00f3logo Rubem Alves, entre outros vision\u00e1rios, j\u00e1 havia nos dito esta p\u00e9rola repetidas vezes. A Palavra \u201cpela gra\u00e7a sois salvos, e isto n\u00e3o vem de ti, \u00e9 dom divino\u201d (Ef\u00e9sios 2.8-9) \u00e9 inquietante, disruptiva e, at\u00e9 mesmo, dilacerante. Ela joga por terra as r\u00edgidas regras, os moralismos falsos e verdadeiros e a viv\u00eancia religiosa ensimesmada e legalista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">E quando tamb\u00e9m passamos pelo rigor dos referenciais \u00e9ticos e do imediatismo das vis\u00f5es pol\u00edticas da esquerda, como \u00e9 o meu caso, \u00e9 mais dif\u00edcil ainda se jogar nas redes da gra\u00e7a. Afinal, repetimos tantas vezes a conhecida can\u00e7\u00e3o \u201cQuem sabe faz a hora, n\u00e3o espera acontecer\u201d, que quase sempre n\u00e3o deixamos \u201ca vida nos levar\u201d. Ali\u00e1s, enquanto escrevo estas palavras, por coincid\u00eancia ou por converg\u00eancia de sentidos, ou\u00e7o o alt\u00edssimo r\u00e1dio do vizinho com esta can\u00e7\u00e3o, \u201cDeixa a vida me levar\u201d, muito popular e expressiva. Se me dissessem que ela foi retirada da B\u00edblia, eu acreditaria. Escutem:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:17px\"><blockquote><p><\/p><cite>S\u00f3 posso levantar as m\u00e3os para o c\u00e9u<br>Agradecer e ser fiel ao destino que Deus me deu.<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Olhem a\u00ed a salva\u00e7\u00e3o pela gra\u00e7a! O olhar gratuito, a entrega, o congra\u00e7amento. Ela mesma, que \u201cexcede toda a nossa compreens\u00e3o\u201d (Filipenses 4.7)! E percebam na mesma can\u00e7\u00e3o o dado testemunhal, marcante, significativo para tanta gente neste mundo de Deus:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:17px\"><blockquote><p><\/p><cite>Eu j\u00e1 passei<br>Por quase tudo nessa vida<br>Em mat\u00e9ria de guarida<br>Espero ainda a minha vez<br>Confesso que sou<br>De origem pobre<br>Mas meu cora\u00e7\u00e3o \u00e9 nobre<br>Foi assim que Deus me fez.<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Ter\u00e1 sido eu o autor desta can\u00e7\u00e3o? Ter\u00e1 sido voc\u00ea? Ou tantos caminhantes das veredas tortuosas que est\u00e3o por a\u00ed? Ou ainda os que sofreram a dor das desilus\u00f5es, das viol\u00eancias dom\u00e9sticas, dos arroubos autorit\u00e1rios, das discrimina\u00e7\u00f5es, da fome?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Esperar a \u201cguarida\u201d, sob os fios t\u00eanues da gra\u00e7a, n\u00e3o \u00e9 individualismo ou aburguesamento dos valores. Tamb\u00e9m n\u00e3o se trata de in\u00e9rcia insens\u00edvel ou de n\u00e3o se sentir tocado pelo sofrimento alheio e pelas responsabilidades decorrentes disto. Trata-se de viver na corda bamba da f\u00e9, desfrutar da vida imerecidamente, juntar despojamento e alegria, acolhimento dos des\u00edgnios divinos e a\u00e7\u00e3o proativa e solid\u00e1ria em favor da conflu\u00eancia da gra\u00e7a e da verdade e tamb\u00e9m da paz e da justi\u00e7a, esperando o dia em que elas se beijar\u00e3o (cf. Salmo 85.10).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Movido por esta ideia, eu escrevi, logo depois de ouvir a referida can\u00e7\u00e3o, um pequeno texto, em m\u00eddia social, inspirado na imagem de uma crian\u00e7a ind\u00edgena deitada com tranquilidade e seguran\u00e7a numa rede. Ela, com os olhinhos serenos, confiava o seu pequeno e fr\u00e1gil corpo \u00e0quela rede, \u00e0quela trama, \u00e0 graciosidade da vida. Para o referido texto, que real\u00e7ava a indescrit\u00edvel experi\u00eancia diante do dom salv\u00edfico, eu conferi o convidativo t\u00edtulo: \u201cPara quem j\u00e1 se deitou numa rede pelo menos uma vez na vida\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Deitar na redes da gra\u00e7a&#8230; como o velho te\u00f3logo inicialmente referido nos convidava. \u201cChorar com os que choram e se alegrar com os que se alegram\u201d (Romanos 12.15). Sim! A gra\u00e7a! Suficiente para n\u00f3s, e na qual o poder-servi\u00e7o de Deus se aperfei\u00e7oa, na nossa fraqueza (Cf. 2 Cor\u00edntios 12:9), como foi na inquieta\u00e7\u00e3o da pandemia, ainda t\u00e3o presente em nossas mentes, na letargia, na solid\u00e3o, na dor dos desempregados e desamparados deste mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Por\u00e9m, n\u00e3o nos esque\u00e7amos que a gra\u00e7a tamb\u00e9m se aperfei\u00e7oa nos momentos de prazer, de gozo, de \u00eaxtase, de transbordamento de alegrias e satisfa\u00e7\u00e3o, na magia das dan\u00e7as e dos cultos, na graciosidade das crian\u00e7as, nos sonhos da juventude e dos idosos, no empoderamento das mulheres, das Marieles, das Margaridas que florescem em v\u00e1rios cantinhos por a\u00ed.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Recordo-me que, naquele mesmo dia, depois de horas de intenso trabalho, caminhei, no cair da tarde, \u00e0 beira de uma grande lagoa, com barcos, aves e \u00e1rvores ao redor dela. Eu parei para contemplar aquele quadro, criado e recriado por quem me sonda e me ama, gratuita e incondicionalmente. Algu\u00e9m que me deixa livre e as vezes segue meus passos, se revela e se esconde. Um jogo! Um jogo de contas de vidro, como intuiu Rubem Alves, em suas \u2018Varia\u00e7\u00f5es entre a vida e a morte\u2019. Ali\u00e1s, como j\u00e1 mencionei em v\u00e1rios outros escritos, eu j\u00e1 estive certa vez entre elas, e j\u00e1 vi muita gente nesta corda bamba da exist\u00eancia humana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Naquele momento, ao olhar um pequeno barco, me veio \u00e0 mente a antiga can\u00e7\u00e3o do grupo Vencedores por Cristo, que tantas vezes sussurrei desde a adolesc\u00eancia, agradecido e deslumbrado com o dom da vida:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:17px\"><blockquote><p><\/p><cite>Porto firme e seguro,<br>me reserva um lugar <br>Cristo \u00e9 a for\u00e7a que me leva <br>Certamente vou chegar.<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">\u00c9 fato que n\u00e3o sabemos exatamente onde. Ainda mais em tempos de incertezas e de vulnerabilidade da vida&#8230; No entanto, o sentimento\/intui\u00e7\u00e3o\/desejo \u00e9 o de debru\u00e7ar na louca vis\u00e3o daqueles que \u201cconfiam no Senhor e renovam as suas for\u00e7as\u201d (Isaias 40.31), pois, como cantamos com Gilberto Gil: \u201candar com f\u00e9 eu vou que a f\u00e9 n\u00e3o costuma \u2018fai\u00e1\u2019\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">As insanidades, a crueldade e a insensibilidade de governos que tivemos, ou a l\u00f3gica de viol\u00eancia dos fortes grupos econ\u00f4micos, n\u00e3o nos roubar\u00e3o a paz. Ela beijar\u00e1 a justi\u00e7a. Ela far\u00e1 correr um rio cristalino de amor e de esperan\u00e7a. Ela dar\u00e1 poder aos pequenos e desvalidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Olhar aquela imagem encantadora, a qual me referi, de barcos, aves e \u00e1rvores, me deu vaz\u00e3o para sentir \u201cuma for\u00e7a estranha no ar\u201d. Sim! Aquela que \u201cme leva a cantar\u201d, como na can\u00e7\u00e3o de Caetano Veloso, \u201cuma voz tamanha\u201d. O quadro \u00e9 da autoria de algu\u00e9m que deixa \u201co dia discursar a outro dia e a noite revelar conhecimento a outra noite\u201d (Salmo 19.2). \u00c9 de algu\u00e9m que dan\u00e7a, que ri, que ironiza as nossas falsas pretens\u00f5es. &#8230; Que \u201cderruba dos tronos os poderosos e despede vazios os ricos\u201d; sonho presente na can\u00e7\u00e3o de Maria, narrada no Evangelho de Lucas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">E a noite foi chegando&#8230; \u201cLeve, como leve pluma, muito leve, leve pousa. Muito leve, leve, pousa\u201d, como expressa a linda can\u00e7\u00e3o \u201cAmor\u201d, de Jo\u00e3o Ricardo e Jo\u00e3o Apolin\u00e1rio. O t\u00edtulo n\u00e3o poderia ser mais bem escolhido! Ela foi magicamente interpretada pelo irreverente conjunto <em>Secos e Molhados<\/em>, que \u201cbailava com as corujas e pirilampos\u201d e embalou a minha adolesc\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">E \u201cdo dia ao fim, ap\u00f3s os seus lidares\u201d, como no tradicional hino religioso, eu fui lembrando das coisas boas da vida, das dores e amarguras tamb\u00e9m, dos \u201cprazeres e pesares\u201d, depondo, nas m\u00e3os de quem criou aquele quadro que eu avistava, a dor que marca as nossas vidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Eu segui aquele caminho, j\u00e1 no escuro da noite, desejando que as pessoas sejam curadas e libertas de seus percal\u00e7os. Segui sonhando que os governantes [<em>daquela \u00e9poca<\/em>], t\u00e3o cru\u00e9is e violentos, fossem afastados, que a trag\u00e9dia e o sofrimento das guerras acabassem e, como na inesquec\u00edvel can\u00e7\u00e3o \u201cBandeira do divino\u201d, de Ivan Lins e Vitor Martins, \u201cque o perd\u00e3o seja sagrado, que a f\u00e9 seja infinita, que o homem (e a mulher) sejam livres e que a justi\u00e7a sobreviva\u201d.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[18,19,48,21,47],"tags":[166,213,265,286,298],"class_list":["post-1166","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cidadania-e-direitos-humanos","category-claudio-de-oliveira-ribeiro","category-cultura-cultura","category-cultura","category-teologia","tag-graca","tag-musica","tag-salvacao","tag-teologia","tag-vida"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1166"}],"collection":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1166"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1166\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1166"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1166"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1166"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}