{"id":1173,"date":"2023-08-25T03:01:05","date_gmt":"2023-08-25T06:01:05","guid":{"rendered":"https:\/\/profanum.com.br\/?p=1173"},"modified":"2023-08-25T03:01:05","modified_gmt":"2023-08-25T06:01:05","slug":"se-eu-quiser-falar-com-deus-por-delcides-marques","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/2023\/08\/25\/se-eu-quiser-falar-com-deus-por-delcides-marques\/","title":{"rendered":"\u201cSe eu quiser falar com Deus\u201d, por Delcides Marques"},"content":{"rendered":"\n<!--more-->\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">A experi\u00eancia, quando \u00e9 profunda, se torna inesquec\u00edvel. Por isso mesmo, tenho muito v\u00edvida a mem\u00f3ria de uma prega\u00e7\u00e3o que realizei h\u00e1 mais de vinte anos. Talvez a mais marcante que tenha feito, menos por orat\u00f3ria, obviamente, e mais pelos reptos implicados. E mesmo hoje, depois de anos agn\u00f3sticos, n\u00e3o consigo me desvencilhar da pot\u00eancia daquela reflex\u00e3o matinal. Eu era um jovem seminarista de vinte anos de idade. Estava ali, em Pindamonhangaba, no interior paulista, numa capela do mais tradicional semin\u00e1rio teol\u00f3gico das assembleias de Deus, onde os serm\u00f5es geralmente tinham como t\u00f4nica central os textos b\u00edblicos. E como eu n\u00e3o poderia fazer diferente, utilizei um texto que tratava do mist\u00e9rio da divindade. Mas, ele foi s\u00f3 um mote.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Eu queria era mesmo falar de uma m\u00fasica que havia me tocada incomensuravelmente. De todo modo, naquela conservadora institui\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica n\u00e3o seria admitido, ao menos de forma expl\u00edcita, admitir que uma \u201cm\u00fasica do mundo\u201d falasse de Deus com a verdade que eu percebia na can\u00e7\u00e3o escolhida. Naquele local se trabalhava a forma\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7as pentecostais marcadas por uma teologia fundamentalista e, \u00e0 revelia dos interesses da dire\u00e7\u00e3o e de alguns professores e colegas, eu havia rec\u00e9m-descoberto, depois de anos e anos absorto no repert\u00f3rio musical evang\u00e9lico, que existia um g\u00eanero chamado \u201cm\u00fasica popular brasileira\u201d. Foi paix\u00e3o \u00e0 primeira vista. Fiquei extremamente impactado com Chico Buarque.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Contudo, na manh\u00e3 daquele dia foi Gilberto Gil a minha inspira\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Eram tempos em que eu havia descoberto tamb\u00e9m Rubem Alves. Eu lia e falava dele a todo instante. Havia tamb\u00e9m me encantado com as prega\u00e7\u00f5es de Ricardo Gondim, um pastor que at\u00e9 hoje (e talvez mais agora) me impressiona com sua poesia, profundidade, humanidade e grandeza. E um livro de Gondim fazia a cabe\u00e7a dos rebeldes no semin\u00e1rio em fins da d\u00e9cada de 1990: <em>\u00c9 proibido: o que a B\u00edblia permite e a igreja pro\u00edbe <\/em>[1998]<em>.<\/em> Al\u00e9m de contestar os velhos problemas dos chamados \u201cusos e costumes\u201d em igrejas r\u00edgidas e disciplinadoras, Gondim tamb\u00e9m mostrava como o culto poderia ser um momento de celebra\u00e7\u00e3o da beleza da f\u00e9. Entre outras coisas, com uma valoriza\u00e7\u00e3o do cancioneiro popular brasileiro, para al\u00e9m dos corriqueiros louvores. A teologia da cultura de Paul Tillich depois se somou a essas inspira\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Com essas influ\u00eancias her\u00e9ticas me sustentando, eu decidi pregar fundamentado numa m\u00fasica que n\u00e3o estava no sum\u00e1rio dos hin\u00e1rios evang\u00e9licos. A can\u00e7\u00e3o selecionada foi <em>Se eu quiser falar com Deus <\/em>[1981]. Nela, Gilberto Gil conseguiu uma proeza digna dos m\u00edsticos. Trata-se de uma concep\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia com o divino e transcendente em termos que n\u00e3o cabem na rigidez dogm\u00e1tica da eclesiologia tradicional. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O primeiro dilema da composi\u00e7\u00e3o trata do interesse ou n\u00e3o do piedoso de fazer a ora\u00e7\u00e3o: \u201cSe eu quiser falar com Deus\u201d. A m\u00fasica ir\u00e1, portanto, enumerar a\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias, caso seja essa a decis\u00e3o. Afinal de contas, pode-se n\u00e3o querer \u201cfalar com Deus\u201d, mas apenas \u201cfalar\u201d. Os fariseus, por exemplos, eram h\u00e1beis em parecer \u201cfalar com Deus\u201d, mas na verdade s\u00f3 falavam para serem vistos pelos homens. Se a ideia \u00e9 menos destacar a apar\u00eancia, e mais \u201cfalar com Deus\u201d, diz o poeta baiano: \u201cTenho&#8230;\u201d, como tamb\u00e9m diz o evangelho, \u201cque ficar a s\u00f3s\u201d (entrar no quarto e fechar a porta). Mas tamb\u00e9m, \u201capagar a luz\u201d (ningu\u00e9m precisa ver e ser visto, parecer e aparecer nesse momento \u00edntimo), \u201ccalar a voz\u201d (solid\u00e3o e sil\u00eancio para \u201cencontrar a paz\u201d). \u00c9 preciso \u201cfolgar os n\u00f3s\u201d tanto \u201cdos sapatos\u201d e \u201cda gravata\u201d (das formalidades e exterioridades do corpo) como \u201cdos desejos\u201d e \u201cdos receios\u201d (dos pedidos e ansiedades da alma).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">E prossegue o compositor: \u201cTenho&#8230;\u201d tamb\u00e9m \u201cque esquecer a data\u201d (supress\u00e3o do tempo e do calend\u00e1rio), \u201cque perder a conta\u201d (nada de calcular e fixar, medir e avaliar), \u201cque ter m\u00e3os vazias\u201d (esse esvaziamento \u00e9 metaforizado na teologia pela encarna\u00e7\u00e3o do Cristo), bem como \u201cter a alma e o corpo nus\u201d. A ora\u00e7\u00e3o se torna um desafio humano diante das quest\u00f5es cotidianas, temporais, habituais. Essa nudez da alma e do corpo implicam justamente num esvaziamento. E \u00e9 o tema da pureza e da simplicidade que est\u00e1 em jogo, por meio de um confronto do sujeito consigo mesmo, sem maquiagem ou m\u00e1scara. Esse esvaziamento de si \u00e9 fundamental, nos termos da m\u00fasica, para a ora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">E prossegue a prece-can\u00e7\u00e3o: \u201cSe eu quiser falar com Deus\u201d, ou seja, caso ainda insista na ora\u00e7\u00e3o, mais algumas atitudes s\u00e3o necess\u00e1rias. \u201cTenho\u201d, diz ela, \u201cque aceitar a dor\u201d, \u201cque comer o p\u00e3o que o diabo amassou\u201d, \u201cque virar um c\u00e3o\u201d, \u201cque lamber o ch\u00e3o dos pal\u00e1cios, dos castelos suntuosos do meu sonho\u201d, que me ver tristonho\u201d, \u201cque me achar medonho\u201d. Os sofrimentos da vida evidenciam a finitude e a impot\u00eancia humana. Reconhecer a condi\u00e7\u00e3o deplor\u00e1vel, fr\u00e1gil e \u00ednfima dos homens permite justamente se colocar numa dire\u00e7\u00e3o oposta aos que se pautam em prepot\u00eancia e arrog\u00e2ncia. O orgulho e a soberba n\u00e3o valem nesses momentos de prece, caso se queria \u201cfalar com Deus\u201d. &nbsp;\u201cE apesar de um mal tamanho\u201d, ele arremata, \u00e9 poss\u00edvel \u201calegrar meu cora\u00e7\u00e3o\u201d. O orgulho precede a ru\u00edna, mas o choro que pode durar uma noite \u00e9 seguido por um dia de alegria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">A terceira estrofe da can\u00e7\u00e3o retoma o desafio: \u201cSe eu quiser falar com Deus\u201d, ainda diz: \u201cTenho\u201d, segue ele, \u201cque me aventurar\u201d (como o salto kierkegaardiano?!), \u201cque subir aos c\u00e9us sem cordas pra segurar\u201d (uma entrega confiante e misteriosa) e \u201cque dizer adeus\u201d (seguir o caminho proposto). E com isso, \u201cdar as costas, caminhar decidido, pela estrada que ao findar vai dar em nada\u201d. Essa esperan\u00e7a de trilhar um caminho imprevisto, improv\u00e1vel, surpreendente, \u201cvai dar em nada, nada, nada, nada&#8230;\u201d, \u201cdo que eu pensava encontrar\u201d. O esvaziamento leva ao nada em seu duplo sentido: o vazio e a coisa nenhuma que n\u00e3o se esperava achar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Nem \u00e9 preciso ter f\u00e9 ou ser religioso para perceber a grandeza dessa poesia-ora\u00e7\u00e3o. Mas para quem tem f\u00e9 ou quer \u201cfalar com Deus\u201d, a m\u00fasica pode propor algo mais: a honestidade de uma ora\u00e7\u00e3o que est\u00e1 pautada nas inquieta\u00e7\u00f5es da f\u00e9 e n\u00e3o nas certezas soberbas. N\u00e3o \u00e9 uma ora\u00e7\u00e3o onde s\u00e3o enaltecidos os feitos do devoto em rela\u00e7\u00e3o a si mesmo. A ora\u00e7\u00e3o \u00e9 aqui um drama complexo de sentimentos e contradi\u00e7\u00f5es do encontro humano-divino e do humano consigo mesmo nesse encontro com o divino; mas apenas \u201cse eu quiser\u201d.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[48,21,24,47],"tags":[69,134,163,223,253,286,295],"class_list":["post-1173","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cultura-cultura","category-cultura","category-delcides-marques","category-teologia","tag-biblia","tag-espiritualidade","tag-gilberto-gil","tag-oracao","tag-religiao","tag-teologia","tag-valores-cristaos"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1173"}],"collection":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1173"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1173\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1173"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1173"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1173"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}