{"id":1176,"date":"2023-08-27T08:00:00","date_gmt":"2023-08-27T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/profanum.com.br\/?p=1176"},"modified":"2023-08-27T08:00:00","modified_gmt":"2023-08-27T11:00:00","slug":"tristeza-por-favor-va-embora-por-claudio-de-oliveira-ribeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/2023\/08\/27\/tristeza-por-favor-va-embora-por-claudio-de-oliveira-ribeiro\/","title":{"rendered":"\u201cTristeza, por favor v\u00e1 embora&#8230;\u201d, por Cl\u00e1udio de Oliveira Ribeiro"},"content":{"rendered":"\n<!--more-->\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O dif\u00edcil e tenebroso tempo da recente pandemia, que, por raz\u00f5es objetivas e subjetivas, nem conseguimos identificar muito bem quando foi, deixou marcas profundas em nossas vidas. A morte chegou pertinho de n\u00f3s&#8230; Amigos e amigas se foram, gente conhecida querida sofreu muito. S\u00e3o muitas as faces e os nomes que nos v\u00eam \u00e0 mente, algumas com as quais convivemos, outras de pessoas famosas, hospitais cheios, tristeza, incertezas, medo! Assim, ecoa a bel\u00edssima e comovente can\u00e7\u00e3o \u201cSentinela\u201d, de Milton Nascimento:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:17px\"><blockquote><p><\/p><cite>Longe, longe, ou\u00e7o essa voz<br>Que o tempo n\u00e3o vai levar<br>Morte vela sentinela sou do corpo desse meu irm\u00e3o que j\u00e1 se vai<br>Revejo nessa hora tudo que ocorreu, mem\u00f3ria n\u00e3o morrer\u00e1.<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Todo este drama se deu, n\u00e3o somente no campo pessoal e familiar, mas, tamb\u00e9m na organiza\u00e7\u00e3o social da vida, nos esquemas de trabalho, na motiva\u00e7\u00e3o para os estudos, no vai-e-vem cotidiano entre as fronteiras da casa e da rua. Tamb\u00e9m se deu na forma como os corpos se encontram, se abra\u00e7am e se beijam, ou, como \u00e9 poss\u00edvel perceber, hoje deixam, consciente ou inconscientemente, de fazer tudo isto ou n\u00e3o o fazem intensamente como antes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Naquela \u00e9poca, tudo parecia ainda mais desconcertante: desmontes na \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o, na defesa e preserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente, deboche e descaso da morte de tantas pessoas pela covid-19, aumento dos conflitos nas fam\u00edlias, devido ao incentivo do \u00f3dio pol\u00edtico, discrimina\u00e7\u00f5es e preconceitos. Muita gente triste, desolada e desencantada! Nem dava tempo e nem condi\u00e7\u00e3o emocional havia de nos lembrarmos que \u201cs\u00e3o felizes os que sofrem porque ser\u00e3o consolados\u201d (Evangelho de Mateus, 5.4). A revolta e a indigna\u00e7\u00e3o batiam mais forte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">E a vida seguiu com o seu ritmo inebriante. Novos tempos, aprendizados, express\u00f5es distintas de cotidiano e uma reorganiza\u00e7\u00e3o dos horizontes ut\u00f3picos, com a doce e \u201cestranha mania de ter f\u00e9 na vida\u201d, como na can\u00e7\u00e3o \u201cMaria, Maria\u201d, eternizada pelo Milton. S\u00e3o passagens, disrup\u00e7\u00f5es, ressignifica\u00e7\u00f5es, buscas de sentido, caminhos&#8230;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O psicanalista H\u00e9lio Pellegrino, cujos escritos marcaram a minha juventude, nos disse com maestria:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:17px\"><blockquote><p><\/p><cite>Viver \u00e9, em \u00faltima an\u00e1lise, lutar contra a morte. A luta contra a morte, por sua vez, significa integr\u00e1-la, segundo por segundo, ao movimento \u2013 \u00e0 corrente \u2013 da vida. Come\u00e7amos a morrer quando nascemos e, para muita gente, a morte marca o in\u00edcio de um novo nascimento. Seja como for, a morte nos trabalha, na mais \u00edntima espessura do nosso ser, l\u00e2mina \u2013 ou semente \u2013 de sil\u00eancio absoluto, a pulsar dia e noite sua aus\u00eancia infinita. (<em>A burrice do dem\u00f4nio, <\/em>1989, p. 22).\u00a0<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Em certo sentido, tamb\u00e9m aferimos essa delicada equa\u00e7\u00e3o ao som de \u201cAzul da cor do mar\u201d, a inesquec\u00edvel can\u00e7\u00e3o de Tim Maia:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:17px\"><blockquote><p><\/p><cite>Mas quem sofre sempre tem que procurar<br>Pelo menos vir a achar raz\u00e3o para viver<br>Ver na vida algum motivo pra sonhar<br>Ter um sonho todo azul, azul da cor do mar.<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Creio ser oportuno ouvir esta voz, esta melodia, esta promessa porque tantas outras dores e l\u00e1grimas ainda v\u00e3o se juntando no dia a dia de tanta gente: mulheres que n\u00e3o suportam mais o casamento, instabilidades no trabalho, mem\u00f3rias amargas de injusti\u00e7as sofridas, limita\u00e7\u00f5es do corpo, amores n\u00e3o correspondidos, desilus\u00f5es, solid\u00e3o, desejos reprimidos, cargas pesadas que quase n\u00e3o se consegue levar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">E a f\u00e9, que \u00e9 amiga da vida, e se junta \u00e0 mesa da amizade, vai brilhando, alumiando, mostrando, com tons dissonantes, o que somos e o que podemos ser nas curvas sinuosas de nossa exist\u00eancia. Em um de seus serm\u00f5es, o te\u00f3logo Paul Tillich nos alertara que \u201ca salva\u00e7\u00e3o \u00e9 uma crian\u00e7a que ser\u00e1 crucificada quando crescer. S\u00f3 os que conseguem ver poder na fraqueza, a totalidade nos fragmentos, a vit\u00f3ria no fracasso, a gl\u00f3ria no sofrimento, a inoc\u00eancia na culpa, a santidade no pecado e a vida na morte poder\u00e3o dizer: meus olhos viram a tua salva\u00e7\u00e3o\u201d. Paradoxal! Deslumbrante! Fascinante! Inspirador!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Se reunirmos todas as experi\u00eancias de empoderamento, mesmo as pequenas e engendradas no cotidiano, de luta pol\u00edtica pela vida, de realiza\u00e7\u00f5es pessoais no \u00e2mbito do trabalho, ou no campo das rela\u00e7\u00f5es pessoais \u2013 novos amores, novas amizades, novas conquistas &#8211; no tom e no compasso da sensibilidade de Milton Nascimento, saberemos que s\u00e3o muitos os percal\u00e7os, \u00e9 verdade&#8230;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:17px\"><blockquote><p><\/p><cite>Mas \u00e9 preciso ter manha, \u00e9 preciso ter gra\u00e7a<br>\u00c9 preciso ter sonho sempre<br>Quem traz na pele essa marca<br>Possui a estranha mania de ter f\u00e9 na vida<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Assim, vamos misturando nossos desejos com aqueles que lampejam da vontade transcendente e divina, que segundo a f\u00e9 crist\u00e3 s\u00e3o semelhantes \u201ca um tesouro oculto no campo, o qual certa pessoa, tendo-o achado, escondeu. E, transbordante de alegria, vai, vende tudo o que tem e compra aquele campo\u201d (Evangelho de Mateus, 13.44).&nbsp; E se, decididamente, arrisc\u00e1ssemos a fazer isto? Buscando for\u00e7as \u201csei l\u00e1 de onde\u201d, sendo dados aos sinais, aos avisos do tempo, \u00e0 intui\u00e7\u00e3o que brota do peito, do fundo da alma, do mar de incompletude e desejos. Seria talvez como o \u2018salto no escuro\u2019, de Kierkegaard, a \u2018raz\u00e3o desconhecida\u2019, de Pascal, o \u2018saber que se pode ir\u201d, de Clarice Lispector, a \u2018aposta apaixonada\u2019, de Rubem Alves, a \u2018caminhada para o alvo\u2019, do ap\u00f3stolo Paulo,<em> <\/em>a \u2018for\u00e7a estranha\u2019, de Caetano Veloso. Ah&#8230; Como \u00e9 inquietante esta can\u00e7\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:17px\"><blockquote><p><\/p><cite>Por isso uma for\u00e7a me leva a cantar<br>Por isso essa for\u00e7a estranha (no ar)<br>Por isso \u00e9 que eu canto, n\u00e3o posso parar<br>Por isso essa voz tamanha.<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Passados esses tempos, estamos agora em outros. S\u00e3o distintos, fronteiri\u00e7os, amargos e doces. N\u00e3o se trata de enganarmos a n\u00f3s mesmos com alegrias artificiais, esperan\u00e7as v\u00e3s, promessas ilus\u00f3rias. Trata-se de uma confiss\u00e3o e pedido sinceros, como as que fizeram morada no cora\u00e7\u00e3o de Niltinho, autor da can\u00e7\u00e3o \u201ctristeza\u201d, que todos n\u00f3s sabemos cantar e podemos tamb\u00e9m aprender a viver:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:17px\"><blockquote><p><\/p><cite>Tristeza, por favor v\u00e1 embora<br>Minha alma que chora,<br>est\u00e1 vendo o seu fim.<br><br>Fez do meu cora\u00e7\u00e3o a sua moradia<br>J\u00e1 \u00e9 demais o meu penar<br>Quero voltar \u00e0quela vida de alegria<br>Quero de novo cantar<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[19,21,47],"tags":[55,99,152,213,239,279,286,293,298],"class_list":["post-1176","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-claudio-de-oliveira-ribeiro","category-cultura","category-teologia","tag-alegria","tag-cultura","tag-fe","tag-musica","tag-poesia","tag-sofrimento","tag-teologia","tag-tristeza","tag-vida"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1176"}],"collection":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1176"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1176\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1176"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1176"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1176"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}