{"id":2191,"date":"2022-04-19T16:47:15","date_gmt":"2022-04-19T19:47:15","guid":{"rendered":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/?p=2191"},"modified":"2022-04-20T20:09:55","modified_gmt":"2022-04-20T23:09:55","slug":"biblianasescolas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/2022\/04\/19\/biblianasescolas\/","title":{"rendered":"B\u00edblia nas escolas?!"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\" align=\"justify\">Por Delcides Marques*<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<p style=\"padding-left: 40px;\" align=\"justify\"><em>A leitura da B\u00edblia nas escolas foi objeto de um Projeto de lei aprovado na \u00faltima semana pela C\u00e2mara Municipal de Petrolina (PE). Nesse sentido, \u00e9 preciso considerar certos aspectos presentes na elucida\u00e7\u00e3o e justificativa desse texto pol\u00edtico-legal.<\/em><\/p>\n<div class=\"fb-share-button fb_iframe_widget\" data-href=\"http:\/\/pontocritico.org\/03\/04\/2017\/biblia-nas-escolas\/\" data-layout=\"button_count\" data-size=\"small\" data-mobile-iframe=\"true\"><\/div>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">O Projeto de lei sobre a leitura da B\u00edblia nas escolas carece de esclarecimentos. Qual B\u00edblia Sagrada ser\u00e1 lida? A cat\u00f3lica ou a protestante? A autoriza\u00e7\u00e3o n\u00e3o se torna imposi\u00e7\u00e3o assim que os respons\u00e1veis pelos estabelecimentos educacionais acatarem a observ\u00e2ncia da leitura? Mesmo o professor ou aluno sendo ateu ou de outra religi\u00e3o ter\u00e1 que ler a B\u00edblia na escola que autorizar a leitura? O texto dos Projeto diz: \u201cpoder\u00e1 ser escolhido previamente pelo professor ou um aluno aleatoriamente\u201d. Isso n\u00e3o seria repor a doutrina\u00e7\u00e3o usada como acusa\u00e7\u00e3o pelos defensores da escola sem partido? \u00c9 permitido ler qualquer trecho das Escrituras? Quem far\u00e1 a triagem, se necess\u00e1rio? Se vale qualquer texto, o que fazer com aqueles que forem enigm\u00e1ticos e carecerem de explica\u00e7\u00e3o? Como ser\u00e1 a hermen\u00eautica? Lembrando que h\u00e1, como op\u00e7\u00f5es de chave interpretativa, por exemplo: calvinismos, arminianismos, dispensacionalismos, ortodoxias, pentecostalismos, neopentecostalismos, liberalismos, universalismos etc. Ler sem estudar n\u00e3o tornaria a B\u00edblia um objeto de leitura supersticiosa? Como separar leitura, interpreta\u00e7\u00e3o e prega\u00e7\u00e3o? Lembrando a conversa do et\u00edope com Felipe: \u201ccomo posso entender se algu\u00e9m n\u00e3o me explicar?\u201d(Atos 8.31)\u00a0A quem competir\u00e1 julgar sobre o verdadeiro sentido e interpreta\u00e7\u00e3o? O que fazer com os obsoletos trechos carregados de aspectos exclusivamente culturais do juda\u00edsmo antigo? Se a leitura for acompanhada de prega\u00e7\u00e3o e consequente proselitismo (e a f\u00e9 vem pela prega\u00e7\u00e3o \u2013 Romanos 10.17), isso n\u00e3o ofende a L<em>ei de Diretrizes e Bases da Educa\u00e7\u00e3o (LDB)<\/em>\u00a0e a pr\u00f3pria Constitui\u00e7\u00e3o? Dizer que B\u00edblia \u00e9 o \u201cmaior c\u00f3digo de \u00e9tica, moral e religi\u00e3o do mundo\u201d n\u00e3o seria entrar numa seara de discuss\u00f5es que caberia mais a um te\u00f3logo das religi\u00f5es do que a um vereador? Se \u00e9 o caso, n\u00e3o valeria mais investir na voca\u00e7\u00e3o religiosa do pastorado, deixando os vocacionados \u00e0 pol\u00edtica fazerem seu trabalho? N\u00e3o seria essa uma alternativa razo\u00e1vel para n\u00e3o desprezar o bem comum em prol dos interesses particulares dissimulados como coletivos? E como fazer as crian\u00e7as se interessarem pela leitura, se nem o povo das igrejas que, apesar de ouvir prega\u00e7\u00f5es semanais,\u00a0est\u00e1 assim t\u00e3o empolgado com o estudo da B\u00edblia? Basta considerar uma simples propor\u00e7\u00e3o entre a grandeza quantitativa dos evang\u00e9licos e o n\u00famero minguado de seminaristas no Brasil. Se cabe a um vereador\u00a0representar os interesses da popula\u00e7\u00e3o perante o poder p\u00fablico, de onde vem tal demanda? Os educadores foram consultados? E a representatividade das outras religi\u00f5es e suas narrativas nas escolas? Como comprovar a superioridade da moral e valores crist\u00e3os sobre todas as demais religi\u00f5es, afora a mera disputa discursiva? Em vez de pressupor uma moral e \u00e9tica como dados universais, n\u00e3o \u00e9 o caso de indagar primeiramente o que \u00e9 \u00e9tica e moral como conceitos?<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">Tais quest\u00f5es, e diversas outras, apontam para problemas que caberiam aos propositores do Projeto pensar a respeito. O retrocesso \u00e9 uma emblem\u00e1tica bandeira pol\u00edtica defendida sem constrangimento em nossos tempos. Tal Projeto de lei que autoriza \u201ca leitura de um vers\u00edculo da B\u00edblia Sagrada, todos os dias no in\u00edcio das aulas em todas as s\u00e9ries e turnos\u201d nas escolas \u00e9 um desses disparates que evidenciam um recuo tanto para o cristianismo como para a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica. As escolas confessionais podem ser procuradas na pretens\u00e3o de um ensino religioso espec\u00edfico para as crian\u00e7as. No caso das escolas p\u00fablicas, a quest\u00e3o se coloca de outra forma. Sob responsabilidade do Estado, elas devem guardar um car\u00e1ter secular. E, nesse caso, \u00e9 preciso considerar que um estado laico n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de aus\u00eancia de religi\u00e3o, mas tamb\u00e9m n\u00e3o se define pelo a\u00e7ambarcamento e privil\u00e9gio de apenas uma. A exclusividade crist\u00e3 n\u00e3o pode mais ser pol\u00edtica de Estado.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">Ademais, \u00e9 necess\u00e1rio um tanto de bom senso para rejeitar a petul\u00e2ncia de propor uma lei com preju\u00edzos at\u00e9 mesmo ao pr\u00f3prio cristianismo.\u00a0O Projeto fere a laicidade do Estado e da educa\u00e7\u00e3o, mas ofende tamb\u00e9m a pr\u00f3pria B\u00edblia.\u00a0No limite, \u00e9 descabido a um crist\u00e3o e mesmo a um vereador sugerir isso. Fundamentalismo e bibliolatria podem se combinar de forma bastante question\u00e1vel e com tra\u00e7os anticrist\u00e3os. A preocupa\u00e7\u00e3o primeira ou \u00faltima\u00a0pode at\u00e9 estar amparada em boa vontade, mas tem tudo para ser um desservi\u00e7o \u00e0s Escrituras.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">Como livro, a B\u00edblia precisa ser estudada. Ler um vers\u00edculo isolado n\u00e3o diz muita coisa, sem contexto, sem discuss\u00e3o. E o contexto b\u00edblico e as discuss\u00f5es bem conduzidas n\u00e3o podem ser feitas na escola. Quem estuda a B\u00edblia sabe que n\u00e3o se trata de um livro simples. In\u00fameros textos possuem interpreta\u00e7\u00e3o dif\u00edcil e controversa e culminam em concep\u00e7\u00f5es destoantes entre os pr\u00f3prios especialistas. Em suma, a B\u00edblia requer mais do que uma leitura de cinco minutos diariamente. H\u00e1 o perigo de bibliomancia. Uma das bases da Reforma Protestante \u00e9\u00a0<i>Sola Scriptura<\/i>. A primazia das Escrituras sobre a tradi\u00e7\u00e3o e o pr\u00f3prio magist\u00e9rio eclesi\u00e1stico. Isso n\u00e3o acarreta numa adora\u00e7\u00e3o \u00e0 B\u00edblia ou em torn\u00e1-la um material de consulta m\u00e1gica ou da sorte, mas em estudo com dilig\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">Sendo Sagradas as Escrituras, \u00e9 o caso de deix\u00e1-las ser o que s\u00e3o, sem partir para uma posi\u00e7\u00e3o de apologia religiosa mascarada por termos pol\u00edtico-jur\u00eddicos de um projeto de lei. No limite, a autoriza\u00e7\u00e3o se torna obriga\u00e7\u00e3o onde vigorar. E a B\u00edblia n\u00e3o precisa de defesa por meio de imposi\u00e7\u00e3o legal \u00e0s crian\u00e7as. A rejei\u00e7\u00e3o, na pr\u00e1tica, pode ser bem maior do que o previsto. Nesse caso, as Escrituras s\u00e3o postas numa situa\u00e7\u00e3o de tribunal desnecess\u00e1rio e risco irrespons\u00e1vel. E mais: estamos diante de uma postura de sacraliza\u00e7\u00e3o e diviniza\u00e7\u00e3o das Escrituras, adorada e colocada acima de Deus. Isso \u00e9 bibliolatria. Uma bibliolatria, diga-se de passagem, arriscada. Pois, quem preza efetivamente pelo estudo da B\u00edblia sabe que o trato com ela requer muito mais que uma leitura. N\u00e3o basta coloc\u00e1-la no pedestal de livro a ser simplesmente lido como amuleto supersticioso. Nem leitura sem contexto, nem leitura aleat\u00f3ria. Texto sem contexto \u00e9 pretexto, dizem os hermeneutas.\u00a0A\u00a0B\u00edblia, para os que acreditam nela, possui\u00a0a revela\u00e7\u00e3o de\u00a0Deus\u00a0aos homens.\u00a0E a leitura de vers\u00edculos soltos, produz mais confus\u00e3o que entendimento da revela\u00e7\u00e3o progressiva e nada aleat\u00f3ria. Para os crist\u00e3os, a aproxima\u00e7\u00e3o com as Escrituras deve ser acompanhada de ora\u00e7\u00e3o, medita\u00e7\u00e3o e comunh\u00e3o com a Igreja. N\u00e3o basta ler a B\u00edblia para ter uma vida transformada para melhor \u2013 ainda que isso n\u00e3o seja imposs\u00edvel, evidentemente \u2013, \u00e9 preciso estudo, disciplina, aplica\u00e7\u00e3o. Ou seja, escolha.\u00a0E mais: em vez de entrar em disputas pol\u00edticas para \u201cautorizar\u201d que outros leiam a B\u00edblia, quem ama a B\u00edblia faria melhor se fizessem de suas pr\u00f3prias vidas cartas de Cristo para os homens\u00a0(II Cor\u00edntios 3.3), de modo que suas vidas s\u00e3o suas maiores prega\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">Ademais, em defesa da leitura da B\u00edblia nas escolas, o Projeto advoga: \u201csendo inquestion\u00e1vel sua import\u00e2ncia na forma\u00e7\u00e3o de nossos valores\u201d. Mas justamente \u201cnossos valores\u201d \u00e9 que est\u00e3o em crise de credibilidade. Basta lembrar a corrup\u00e7\u00e3o que assola a moralista bancada evang\u00e9lica nacional. Sem falar nos vergonhosos discursos golpistas de\u00a0<i>impeachment<\/i>\u00a0em nome da moral e em nome de Deus, tomado em v\u00e3o.de outra parte, mas ainda em rela\u00e7\u00e3o aos valores que podem implicar num aperfei\u00e7oamento moral humano, h\u00e1 ensinos muito desafiadores, tais como: \u201cNeste mundo o \u00f3dio nunca \u00e9 apaziguado pelo \u00f3dio. O \u00f3dio \u00e9 apaziguado unicamente atrav\u00e9s de n\u00e3o-\u00f3dio. Esta \u00e9 uma lei eterna\u201d; \u201cO homem indiferente (\u00e0s coisas terrenas), puro, correto, desapaixonado, de \u00e2nimo sereno, que renunciou a toda a\u00e7\u00e3o e \u00e9 Meu devoto, \u00e9 amado por Mim\u201d; \u201cN\u00e3o h\u00e1 utilidade alguma na maioria dos seus col\u00f3quios, salvo nos que recomendam a caridade, a benevol\u00eancia e a conc\u00f3rdia entre os homens\u201d; e \u201cO amor \u00e9 de ess\u00eancia divina\u201d. No geral, todas as refer\u00eancias poderiam ser b\u00edblicas, mas n\u00e3o s\u00e3o. O primeiro trecho \u00e9 do texto budista\u00a0<i>Dhammapada<\/i>\u00a0(\u00a7 5), sendo o segundo do livro hindu\u00edsta\u00a0<i>Bhagavad Gita<\/i>\u00a0(Canto II, 16), enquanto o terceiro prov\u00e9m do isl\u00e2mico\u00a0<i>Alcor\u00e3o<\/i>\u00a0(4\u00aa surata, 114), ao passo que o \u00faltimo \u00e9 do kardecista\u00a0<i>Livro dos esp\u00edritos<\/i>.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">N\u00e3o \u00e9 pertinente e nem da al\u00e7ada de um vereador determinar o exclusivismo crist\u00e3o, entrando numa espinhosa querela da teologia das religi\u00f5es ou do pluralismo religioso, que teria em vista o di\u00e1logo inter-religioso.\u00a0Outros projetos poderiam ser mais bem adequados a um vereador que n\u00e3o precisa deixar de ser crist\u00e3o para ser pol\u00edtico, mas tamb\u00e9m n\u00e3o sendo adequado usar a pol\u00edtica em benef\u00edcio \u00fanico do cristianismo. Dentre alguns projetos plaus\u00edveis ter\u00edamos o \u201cEleitos sem igreja\u201d, onde a igreja deixaria de ser curral eleitoral e a casa dos vereadores deixaria de ser um palanque eclesi\u00e1stico. Uma nova sugest\u00e3o seria: autorizar as igrejas a fazerem mais escolas b\u00edblicas, para ser menos necess\u00e1rio se interessar pela B\u00edblia nas escolas. Enfim, menos B\u00edblia nas escolas e mais e melhores escolas b\u00edblicas e catecismos nas igrejas; para os que quiserem frequentar.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">* Delcides Marques \u00e9 professor de Antropologia na Univasf.<\/p>\n<p align=\"justify\">Obs. Publicado inicialmente em <a href=\"https:\/\/pontocritico.org\/03\/04\/2017\/biblia-nas-escolas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">PontoCr\u00edtico<\/a> em 3 de abril de 2017.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p> <a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/2022\/04\/19\/biblianasescolas\/\">Leia mais&#8230; &raquo;<\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[6,8,7],"class_list":["post-2191","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria","tag-antropologia","tag-governo","tag-politica"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2191"}],"collection":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2191"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2191\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2217,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2191\/revisions\/2217"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2191"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2191"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2191"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}