{"id":2213,"date":"2022-04-20T20:08:42","date_gmt":"2022-04-20T23:08:42","guid":{"rendered":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/?p=2213"},"modified":"2022-04-20T20:11:40","modified_gmt":"2022-04-20T23:11:40","slug":"lutar-por-direitos-sociais-e-coisa-de-marxista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/2022\/04\/20\/lutar-por-direitos-sociais-e-coisa-de-marxista\/","title":{"rendered":"Lutar por direitos sociais \u00e9 coisa de \u201cmarxista\u201d?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Por Adalton Marques*<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"excerpt\" style=\"padding-left: 40px;\"><em>O texto se op\u00f5e \u00e0 estrat\u00e9gia corriqueira de deslegitimar as lutas contra as reformas em curso atrav\u00e9s de categorias acusat\u00f3rias como \u201cideol\u00f3gico\u201d, \u201csocialista\u201d e \u201cmarxista\u201d. Essas acusa\u00e7\u00f5es, no mais das vezes, decorrem de um profundo desconhecimento hist\u00f3rico e te\u00f3rico.<\/em><\/p>\n<div class=\"fb-share-button fb_iframe_widget\" data-href=\"https:\/\/pontocritico.org\/04\/12\/2017\/lutar-por-direitos-sociais-e-coisa-de-marxista\/\" data-layout=\"button_count\" data-size=\"small\" data-mobile-iframe=\"true\"><\/div>\n<p>Recentemente, um conhecido do Vale do S\u00e3o Francisco disse-me, em conversa corriqueira, que sindicatos de trabalhadores e muitos docentes de universidades da regi\u00e3o s\u00e3o \u201cideol\u00f3gicos\u201d, \u201csocialistas\u201d e \u201cmarxistas\u201d por se colocarem contra as reformas em curso do atual governo. Sua esperan\u00e7a, segundo me disse, \u00e9 que essas reformas sejam continuadas e intensificadas num futuro governo de Bolsonaro (o mesmo pr\u00e9-candidato que, at\u00e9 dois meses atr\u00e1s, defendia um governo intervencionista, planejador e capaz de repetir o \u201cMilagre econ\u00f4mico\u201d brasileiro, \u00e0 maneira dos governos militares de 1964-84!).<\/p>\n<p align=\"justify\">Evidentemente tentei contraditar sua perspectiva. Ainda acho que \u00e9 preciso dialogar, discutir pontos de vista, convencer uns aos outros, ou seja, fazer pol\u00edtica (para o arrepio de quem defende as ideias do \u201cEscola sem Partido\u201d).<\/p>\n<p align=\"justify\">Pensei, ent\u00e3o, em escrever estas poucas linhas para tentar \u201cdesenhar\u201d a relativa descontinuidade entre essas pautas trabalhistas e as lutas marxistas (se \u00e9 que d\u00e1 para unificar um fen\u00f4meno que dura mais de um s\u00e9culo, que se expandiu por todo o mundo e que produz efeitos m\u00faltiplos e divergentes entre si!). Evidentemente isso n\u00e3o significa que um(a) marxista n\u00e3o possa aderir a essas lutas! Estrategicamente, penso eu, deve faz\u00ea-lo. Todavia, e este \u00e9 o ponto, essas lutas s\u00e3o, antes de tudo, legalistas e liberais!<\/p>\n<p align=\"justify\">Para isso, talvez seja preciso fazer alguns rabiscos (simples e grosseiros) \u201chist\u00f3ricos\u201d para explicar porque este mundo em que vivemos, prestes a desaparecer, n\u00e3o surgiu na URSS, nem na China, nem em Cuba! Mais que isso, n\u00e3o surgiu como uma estrela cadente e nem est\u00e1 desaparecendo por a\u00e7\u00e3o de for\u00e7as extr\u00ednsecas a cada um de n\u00f3s.<\/p>\n<p align=\"justify\">Esse mundo em que vivemos (liberal, diga-se de passagem), surgiu ap\u00f3s o \u201ccrash\u201d da Bolsa de Valores de Nova York, no final de outubro de 1929. Era o fim de uma era em que os economistas liberais acreditavam que era poss\u00edvel deixar tudo nas m\u00e3os do Mercado, supondo que uma for\u00e7a misteriosa, a que se tinha dado o nome de Lei da Oferta e da Procura, era suficiente para regular as rela\u00e7\u00f5es de compra e venda e distribuir a \u201cfelicidade\u201d de uma maneira mais eficiente do que o faria o Estado. Foi essa ideia, segundo o diagn\u00f3stico dos pr\u00f3prios liberais da \u00e9poca, que levou ao colapso da economia mundial.<\/p>\n<p align=\"justify\">Como a Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1917 estava \u201cfresquinha\u201d, e a ent\u00e3o URSS vivendo um estupendo e vertiginoso crescimento econ\u00f4mico, supunha-se que as propostas socialistas ganhariam terreno no Ocidente. \u00c9 nesse cen\u00e1rio de \u201cincertezas\u201d que as teorias econ\u00f4micas de um liberal brit\u00e2nico chamado John M. Keynes (1883-1946) ganharam terreno como alternativa ao \u201cvelho liberalismo\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">A pol\u00edtica econ\u00f4mica proposta por esse liberal defendia, basicamente, que os governos deveriam usar medidas fiscais e monet\u00e1rias para atenuar (mitigar) os efeitos adversos (recess\u00f5es causadas por v\u00e1rios motivos) provocados, ciclicamente, pelo Mercado. Foi essa tese, acolhida pela maioria dos pa\u00edses capitalistas (EUA, Inglaterra, Alemanha, Fran\u00e7a etc.), que permitiu a reconstru\u00e7\u00e3o das economias ap\u00f3s as guerras mundiais.<\/p>\n<p align=\"justify\">E foi nesse \u201cmundo keynesiano\u201d (liberal) que se consolidou o acordo trabalhista que regulou as nossas vidas desde que nascemos e que est\u00e1 pr\u00f3ximo de desaparecer: a ideia de que era necess\u00e1rio e produtivo (ou seja, propiciava bons efeitos econ\u00f4micos) construir uma poupan\u00e7a coletiva (chamada previd\u00eancia), por meio da arrecada\u00e7\u00e3o de parte dos ganhos dos trabalhadores e parte dos ganhos dos empregadores, para prevenir os tr\u00eas grandes riscos a que qualquer pessoa est\u00e1 sujeita: desemprego, doen\u00e7a e velhice.<\/p>\n<p align=\"justify\">Esse novo acordo trabalhista (liberal, reafirmo) fez parte de uma grande estrat\u00e9gia econ\u00f4mico-pol\u00edtica, capaz de produzir efeitos, a m\u00e9dio e longo prazo, de salva\u00e7\u00e3o do capitalismo agonizante. Na pr\u00e1tica, para milhares de trabalhadores (mas n\u00e3o todos, porque esse modelo n\u00e3o se universalizou) isso significou seguran\u00e7a social e econ\u00f4mica coletiva, bem diferente do que era o velho lema liberal: \u201ccada um por si e o Mercado contra quase todos\u201d. Previd\u00eancia, uma r\u00e1pida busca em dicion\u00e1rios informa, significa cautela antecipada, preven\u00e7\u00e3o, precau\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c9 muito simples notar como o keynesianismo \u00e9 completamente diferente do projeto marxista de socializa\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o, pois, embora tenha providenciado uma parca transfer\u00eancia de riquezas dos capitalistas para os trabalhadores, por meio dos impostos que constru\u00edram as contas previdenci\u00e1rias, nenhuma palavra diz contra a propriedade privada, contra as heran\u00e7as, contra a exist\u00eancia do Mercado! Ademais, repito, o estado de bem-estar social (coberto pelas contas previdenci\u00e1rias) existiu em poucos pa\u00edses do Norte e, de maneira reduzida, para poucos trabalhadores dos pa\u00edses do Sul.<\/p>\n<p align=\"justify\">Por isso, caras(os) leitoras(es), a oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s atuais reformas propostas pelo governo golpista de Temer n\u00e3o \u00e9 \u201cpapo\u201d de \u201csocialista\u201d ou \u201cmarxista\u201d. Essa associa\u00e7\u00e3o decorre de um profundo desconhecimento hist\u00f3rico e te\u00f3rico. Ignor\u00e2ncia hist\u00f3rica, repito, porque os direitos sociais (trabalhistas e previdenci\u00e1rios) ganharam sua generalidade e atual forma no interior de governos que seguiram de perto as ideias de Keynes, ou seja, n\u00e3o s\u00e3o direitos a que se possa chamar propriamente de\u00a0<em>socialistas<\/em>. Ignor\u00e2ncia te\u00f3rica porque os espantalhos \u201cmarxista\u201d e \u201csocialista\u201d, utilizado aqui e ali com frouxid\u00e3o espantosa, passam ao largo dos textos escritos por Karl Marx (1818-1883) e por te\u00f3ricos marxistas.<\/p>\n<p align=\"justify\">A oposi\u00e7\u00e3o ao fim da CLT, \u00e0 reforma da Previd\u00eancia, ao teto dos gastos p\u00fablicos, \u00e0s privatiza\u00e7\u00f5es em curso, ao fim das Universidades P\u00fablicas etc. \u00e9, no m\u00e1ximo, a tentativa de assegurar um liberalismo menos cruel do que esse que vem com for\u00e7a. E, quem sabe, num melhor momento, expandir um pouco mais o n\u00famero de cobertos pelas contas previdenci\u00e1rias.<\/p>\n<p align=\"justify\">Mas, para isso, os empregadores t\u00eam de ser obrigados por lei (por que eles nunca v\u00e3o aceitar de boa vontade!) a pagar parte dessa poupan\u00e7a coletiva, em vez de pagar m\u00edseros R$ 4,5 (quatro reais e cinquenta centavos!) pela hora de trabalho de pobres mulheres e homens para as\/os quais o presente n\u00e3o reserva alternativa. \u00c9 isso que, nas \u00faltimas duas semanas, os grandes ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o e o governo, porta-vozes do grande empresariado que atua neste pa\u00eds, querem chamar de redu\u00e7\u00e3o do desemprego: a \u201centrada\u201d de milhares de mulheres e homens num mercado de trabalho que lhes paga menos do que o m\u00ednimo necess\u00e1rio para tocarem suas vidas (nem falemos das vidas daqueles que dependem de seu \u201csal\u00e1rio\u201d).<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00daltimo ponto: al\u00e9m de liberal, Keynes era funcion\u00e1rio p\u00fablico.<\/p>\n<p align=\"justify\">Sauda\u00e7\u00f5es de um trabalhador.<\/p>\n<p align=\"justify\">* Adalton Marques \u00e9 antrop\u00f3logo, professor do Colegiado de Ci\u00eancias Sociais da UNIVASF, membro do KRISIS \u2013 Laborat\u00f3rio de Antropologia, Filosofia e Pol\u00edtica e filiado \u00e0 SINDUNIVASF \u2013 Se\u00e7\u00e3o Sindical dos Docentes da UNIVASF.<\/p>\n<p align=\"justify\">Obs. Publicado inicialmente no <a href=\"https:\/\/pontocritico.org\/04\/12\/2017\/lutar-por-direitos-sociais-e-coisa-de-marxista\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">PontoCr\u00edtico<\/a> em 4 de dezembro de 2017.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p> <a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/2022\/04\/20\/lutar-por-direitos-sociais-e-coisa-de-marxista\/\">Leia mais&#8230; &raquo;<\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-2213","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2213"}],"collection":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2213"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2213\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2221,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2213\/revisions\/2221"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2213"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2213"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2213"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}