{"id":2422,"date":"2022-10-18T19:46:42","date_gmt":"2022-10-18T22:46:42","guid":{"rendered":"https:\/\/profanum.com.br\/?p=702"},"modified":"2022-10-18T19:46:42","modified_gmt":"2022-10-18T22:46:42","slug":"devemos-perdoar-bolsonaro-70x7-por-jose-edilson-teles","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/2022\/10\/18\/devemos-perdoar-bolsonaro-70x7-por-jose-edilson-teles\/","title":{"rendered":"&#8220;Devemos perdoar Bolsonaro, 70&#215;7!?&#8221;, por Jos\u00e9 Edilson Teles"},"content":{"rendered":"\n<!--more-->\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Em artigo anterior <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/profanum.com.br\/?p=543\" target=\"_blank\">\u201cO que dizem vossas m\u00e3os, irm\u00e3os?\u201d<\/a> argumentei que a metaf\u00edsica do pensamento ocidental \u00e9 marcada por uma heran\u00e7a da linguagem b\u00edblica sedimentada por um processo de longo dura\u00e7\u00e3o pela tradi\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3. De modo espec\u00edfico, procurei demonstrar que o fundamento metaf\u00edsico da culpa crist\u00e3 produz uma puls\u00e3o por sacrif\u00edcio e, consequentemente, a necessidade de expia\u00e7\u00e3o por meio de \u201cbodes expiat\u00f3rios\u201d. Volto-me agora para mais um aspecto dessa puls\u00e3o por sacrif\u00edcio: a metaf\u00edsica do perd\u00e3o. O tema \u00e9 convidativo, mas n\u00e3o pretendo fazer exegese b\u00edblica, nem mesmo tratar de teologia dogm\u00e1tica \u2013 n\u00e3o possuo qualifica\u00e7\u00e3o para tal. No m\u00e1ximo, valho-me estrategicamente dessa gram\u00e1tica teol\u00f3gica para situar um problema de fundo \u2013 talvez psicanal\u00edtico: devemos perdoar as vomi\u00e7\u00f5es do fascismo? Diga-me, est\u00f4magos resignados?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">\u00c9 preciso nomear as coisas. Em uma recente pe\u00e7a de campanha eleitoral, Jair Bolsonaro, candidato \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o, aparece pedindo perd\u00e3o num descompasso com as pr\u00e1ticas que se exige de um verdadeiro arrependido: \u201cse as minhas palavras est\u00e3o te impedindo de fazer a escolha certa, eu humildemente te pe\u00e7o perd\u00e3o\u201d. Mas, de que \u201cpalavras\u201d o futuro ex-presidente pede perd\u00e3o? Na superf\u00edcie da moralidade p\u00fablica, Bolsonaro se refere ao evidente linguajar que o comp\u00f5e, inclusive na liturgia do cargo m\u00e1ximo da Rep\u00fablica \u2013 que atualmente ocupa. Acerca desse constrangimento, especialmente frente aos eleitores evang\u00e9licos, a primeira-dama Michelle Bolsonaro, em 6 de outubro de 2022, pediu perd\u00e3o: \u201cperd\u00e3o a todos pelos palavr\u00f5es do meu marido, eu tamb\u00e9m n\u00e3o concordo, mas ele \u00e9 assim, tem gente que gosta, n\u00e9?\u201d. Michelle tem raz\u00e3o: Certamente h\u00e1 \u201cquem goste\u201d. Mas esse \u00e9 o problema? Os palavr\u00f5es de um \u201ctioz\u00e3o\u201d do churrasco que ascendeu \u00e0 presid\u00eancia da Rep\u00fablica de fato incomodam na liturgia do cargo, pois o que se espera \u00e9 a postura institucional de um estadista. Como constatado ao longo da carreira parlamentar e nos \u00faltimos quatro anos como presidente da Rep\u00fablica, os velhos h\u00e1bitos de Bolsonaro mostram-no incapaz de representar tal postura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Mas, voltemos ao pedido de \u201cperd\u00e3o\u201d. A superf\u00edcie moralista prende-se, com certa raz\u00e3o, \u00e0s obscenidades que os palavr\u00f5es s\u00e3o capazes de qualificar (ou desqualificar). Eis a preocupa\u00e7\u00e3o de Michelle que, de vez em quando, afirma que o marido foi \u201cescolhido de Deus\u201d. Devemos perdoa-lo? Os mais espirituosos diriam que sim e n\u00e3o demorariam a recorrer \u00e0 famosa senten\u00e7a b\u00edblica que recomenda perdoar \u201csetenta vezes sete\u201d! Haja complac\u00eancia! Por essa l\u00f3gica, poder\u00edamos (at\u00e9) ser razo\u00e1veis e dizer: \u201cv\u00e1 em paz e n\u00e3o peque mais\u201d, exigindo do \u201carrependido\u201d uma convers\u00e3o \u2013 uma mudan\u00e7a de caminho. Em nome do estado de \u201cesp\u00edrito\u201d, at\u00e9 mesmo alguns psicanalistas recomendam o perd\u00e3o (n\u00e3o acumule para si o t\u00f3xico dos outros!). Contudo, no caso de Bolsonaro, o problema \u00e9 de fundo: os palavr\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o al\u00edvios c\u00f4micos, acerca dos quais alguns recorrem, mas v\u00f4mitos de um fascista em veste de estadista! Seu alimento \u00e9 o v\u00f4mito do autoritarismo! Ainda que n\u00e3o houvesse palavr\u00f5es, os golfos de um fascista apresentam-se cotidianamente, pois fazem parte de sua experi\u00eancia de mundo e com o mundo. Como diz a primeira-dama: \u201ctem gente que gosta, n\u00e9?\u201d <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Pois bem, devemos perdo\u00e1-lo de qu\u00ea? Digam-me, est\u00f4magos resignados? Darei breves raz\u00f5es para n\u00e3o perdoar \u201csetenta vezes sete\u201d as vomi\u00e7\u00f5es fascistas. Devemos perdo\u00e1-lo pela naturaliza\u00e7\u00e3o da cultura do estupro?: \u201cjamais iria estuprar voc\u00ea, porque voc\u00ea n\u00e3o merece\u201d. Devemos perdo\u00e1-lo por incitar viol\u00eancia contra opositores?: \u201cfuzilar a petralhada\u201d \u2013 sentido \u201cfigurado\u201d. Devemos perdo\u00e1-lo por lamber as botas de torturadores como \u201cUstra\u201d? Devemos perdo\u00e1-lo pela insensibilidade com as v\u00edtimas da Covid-19, sobre as quais afirmou recentemente arrepender-se?: \u201c\u00e9 uma gripezinha\u201d, \u201ce da\u00ed\u201d, \u201cn\u00e3o sou coveiro\u201d. Devemos perdo\u00e1-lo por imitar pessoas em sofrimento por falta de ar? Devemos perdo\u00e1-lo por incentivar discursos de \u00f3dio e propaga\u00e7\u00e3o deliberada de not\u00edcias falsas? Devemos perdo\u00e1-lo por associar moradores de comunidades pobres ao imagin\u00e1rio fascista de \u201cbandido bom, bandido morto\u201d? Devemos perdo\u00e1-lo por associa\u00e7\u00e3o aos milicianos? Devemos perdo\u00e1-lo pela insinua\u00e7\u00e3o sexual com menores de idade, caso das meninas venezuelanas: \u201cpintou um clima\u201d? \u2013 sobre as quais voltou a pedir desculpa. Por fim, devemos perdo\u00e1-lo pela corros\u00e3o dos pilares do Estado Democr\u00e1tico de Direito, dia a p\u00f3s dia? Escolha uma dessas \u201cvirtudes\u201d e multiplique os setenta vezes sete em negativo: 490 raz\u00f5es para n\u00e3o perdo\u00e1-lo, por dia! Se \u201cperdoar\u201d for entendido como \u201cesquecer\u201d, prefiro \u201clembrar\u201d para n\u00e3o permitir o mesmo erro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">De fato, nunca \u00e9 tarde para retrata\u00e7\u00e3o ou pedido de perd\u00e3o, como queiram. Atores limitados \u00e0 temporalidade hist\u00f3rica s\u00e3o sujeitos \u00e0 mudan\u00e7a de posicionamentos \u2013 n\u00e3o sei porque chamamos isso \u201cnobreza\u201d! Contudo, definitivamente, n\u00e3o \u00e9 o caso da postura de Bolsonaro. Seu pedido de perd\u00e3o ou desculpa \u00e9 dissimulado, \u00e9 hip\u00f3crita. Ele mesmo n\u00e3o acredita, pois se alimenta de vomi\u00e7\u00f5es fascistas. Perdo\u00e1-lo, nesse caso, seria sentar-se \u00e0 mesa com ele \u2013 ou, numa linguagem apropriada, partilhar do \u201cpasto\u201d com o gado. \u201cPai\u201d, afasta de mim esse pasto! Perdo\u00e1-lo \u00e9 para est\u00f4magos resignados. Caro leitor, se chegou at\u00e9 aqui, te desejo n\u00e1useas (em sentido \u201cfigurado\u201d, claro) frente \u00e0s vomi\u00e7\u00f5es fascistas que somos submetidos diariamente. Espero que Clio, a musa da hist\u00f3ria, nos d\u00ea 490 raz\u00f5es para n\u00e3o perdo\u00e1-lo! A favor da mem\u00f3ria hist\u00f3rica, \u201cperdoar\u201d n\u00e3o \u00e9 esquecer, mas lembrar! <\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":703,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[26,36,39,47],"tags":[69,71,140,183,189,234,235],"class_list":["post-2422","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-moralidade","category-jose-edilson-teles","category-linguagem","category-teologia","tag-biblia","tag-bolsonaro","tag-evangelicos","tag-igreja","tag-jesus","tag-pecado","tag-perdao"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/krisis.univasf.edu.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/democracia-ateniense-com-o-professor-dr-alexandre-henrique-dos-reis5-scaled.jpg?fit=2560%2C1095&ssl=1","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2422"}],"collection":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2422"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2422\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/703"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2422"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2422"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2422"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}