{"id":2423,"date":"2022-10-21T13:03:39","date_gmt":"2022-10-21T16:03:39","guid":{"rendered":"https:\/\/profanum.com.br\/?p=708"},"modified":"2022-10-21T13:03:39","modified_gmt":"2022-10-21T16:03:39","slug":"baalsonarismo-por-delcides-marques","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/2022\/10\/21\/baalsonarismo-por-delcides-marques\/","title":{"rendered":"&#8220;Baalsonarismo&#8221;, por Delcides Marques"},"content":{"rendered":"\n<!--more-->\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Um fen\u00f4meno religioso surgiu recentemente em nossas terras: chamo-lhe &#8220;baalsonarismo&#8221;. Mas como nada \u00e9 absolutamente novo, o pr\u00f3prio nome dessa rec\u00e9m-instaurada religi\u00e3o reverbera desafios antigos da  tradi\u00e7\u00e3o sem\u00edtica. O nome de Baal \u00e9 associado \u00e0 idolatria, o que se op\u00f5e \u00e0 adora\u00e7\u00e3o a Yahweh (pode-se conferir Ju\u00edzes 2.13). Baal pertence ao pante\u00e3o cananeu e \u00e9 considerado deus da fecundidade (&#8220;imbroch\u00e1vel&#8221;) e da guerra (&#8220;armamentista&#8221;). Baal significa \u201cmarido\u201d, \u201csenhor\u201d, \u201cpropriet\u00e1rio\u201d, \u201cdono\u201d. Uma importante pesquisa sobre Baal e outras divindades ancestrais foi realizada por Rog\u00e9rio de Moura e vale conferir (link). Em rela\u00e7\u00e3o ao conjunto de divindades primitivas, Baal era visto como um dos mais destacados contrapontos a Yahweh. Os israelitas tinham uma propens\u00e3o de venerar as duas divindades simultaneamente. E o papel dos ju\u00edzes e profetas era traz\u00ea-los de volta \u00e0 adora\u00e7\u00e3o ao \u00fanico e verdadeiro Deus, pois Yahweh n\u00e3o divide sua gl\u00f3ria com os falsos deuses pag\u00e3os. E n\u00e3o se pode servir a dois senhores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Um acontecimento em particular pode ser recuperado para elucidar a oposi\u00e7\u00e3o entre Yahweh e Baal. Trata-se da famosa narrativa do confronto entre Elias e os quatrocentos e cinquenta profetas de Baal (I Reis 18.21-40). Vou descrever a cena de forma breve. Elias pergunta ao povo at\u00e9 quando eles hesitariam entre dois pensamentos. O desafio lan\u00e7ado pelo profeta de Yahweh \u00e9 que eles deveriam escolher a quem venerar: e apenas o Deus verdadeiro deveria ser seguido. Para demonstrar a leg\u00edtima divindade, Elias convoca os profetas de Baal a prepararem um boi para sacrif\u00edcio. Uma vez cortado em peda\u00e7os e colocado sobre a lenha, eles n\u00e3o deveriam colocar fogo, mas apenas fazer ora\u00e7\u00f5es. Elias faria o mesmo com outro boi. Cada um invocaria sua divindade, e aquela que respondesse com fogo seria considerada aut\u00eantica. Assim ocorreu: os devotos de Baal clamaram desde a manh\u00e3 at\u00e9 ao meio-dia, mas nada aconteceu. Nenhuma voz os respondeu. Nenhum sinal foi dado. Elias ent\u00e3o zombou deles dizendo que deveriam gritar mais alto, pois Baal poderia estar conversando com algu\u00e9m, ou com outras ocupa\u00e7\u00f5es, ou at\u00e9 mesmo dormindo. Eles ent\u00e3o se desesperaram e come\u00e7aram a se cortar e gritar cada vez mais alto. Mas ningu\u00e9m reagiu a eles. Elias ent\u00e3o assume o ritual e organiza o altar com doze pedras. Fez ainda um sulco ao redor do altar, colocando a lenha e cortando o boi. Ele pediu ainda que fosse despejada bastante \u00e1gua sobre o holocausto e sobre a lenha. A seguir, Elias fez sua prece: \u201cSenhor Deus de Abra\u00e3o, de Isaque, e de Israel, seja hoje manifesto que tu \u00e9s Deus em Israel, e que eu sou teu servo, e que por mandado teu fiz todas estas coisas. Responde-me, Senhor, responde-me; para que conhe\u00e7a este povo que tu, \u00f3 Senhor, \u00e9s o Deus, e que tu voltaste atr\u00e1s o cora\u00e7\u00e3o deles\u201d. Em seguida, caiu fogo divino que consumiu o sacrif\u00edcio, a lenha, a pedra, o p\u00f3 e a \u00e1gua. O povo presente ent\u00e3o admitiu: \u201co Senhor \u00e9 Deus\u201d. Elias a seguir pediu que todos os profetas de Baal fossem presos e degolados. Essa pol\u00eamica sinaliza a busca por uma identidade israelita frente \u00e0s influ\u00eancias e aglutina\u00e7\u00f5es culturais e cultuais estrangeiras. Temos a\u00ed a busca israelita de se firmar como um povo que tem uma \u00fanica deidade real em oposi\u00e7\u00e3o aos falsos deuses dos povos vizinhos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Em nossos dias, h\u00e1 um novo Baal venerado em diversos templos crist\u00e3os. Os profetas de Baal (com nomenclatura crist\u00e3: pastores, ap\u00f3stolos, bispos etc.) est\u00e3o em diversas igrejas promovendo idolatria a um homem, um indiv\u00edduo que \u00e9 sacralizado como messi\u00e2nico. Inicialmente tido como enviado, ungido, salvador, escolhido etc., sua venera\u00e7\u00e3o foi se descolando desse tratamento como aben\u00e7oado por Deus. As coisas est\u00e3o mudando: no limite, em muitos encontros evang\u00e9licos, ele ocupa o lugar ritual\u00edstico da pr\u00f3pria divindade crist\u00e3. \u00c9 realmente como se estiv\u00e9ssemos diante de uma outra religi\u00e3o: o baalsonarismo. N\u00e3o se trata mais de uma quest\u00e3o de religi\u00e3o e pol\u00edtica, ou apenas isso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Esse culto tem uma origem social, pois se alimenta da conflu\u00eancia entre o personalismo e o autoritarismo, que s\u00e3o parte das \u201cra\u00edzes do Brasil\u201d. O culto \u00e0 pessoa e \u00e0 cultura do mando s\u00e3o mobilizados como parte emblem\u00e1tica do imagin\u00e1rio brasileiro. Em linhas gerais, o personalismo se exprime na devo\u00e7\u00e3o a uma pessoa, tendo em vista a sua valoriza\u00e7\u00e3o e exalta\u00e7\u00e3o. Assim, a religi\u00e3o baalsonarista eleva esse personalismo a um n\u00edvel sacro, divinizado, cultuado. Vejamos como isso funciona.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Quando o novo Baal chega a um culto a Deus, h\u00e1 diversos registros de fi\u00e9is gritando seu nome ou seu cognome: \u201cMito, Mito, Mito\u201d. O \u00eaxtase de sua presen\u00e7a \u00e9 percept\u00edvel por essa efervesc\u00eancia coletiva que torna poss\u00edvel substituir a adora\u00e7\u00e3o tradicional por um novo culto ali mesmo, no templo crist\u00e3o. Todos ficam em p\u00e9 e vibram euforicamente porque o \u00eddolo est\u00e1 presente. Pasmem, j\u00e1 existem at\u00e9 c\u00e2nticos de louvor a ele. A sua presen\u00e7a ou a ideia de sua presen\u00e7a proporcionam um ritual pr\u00f3prio no templo com bandeiras que denotam nacionalismo. A indument\u00e1ria dos devotos tamb\u00e9m replica esse simbolismo: predomina a camiseta da sele\u00e7\u00e3o brasileira de futebol ou suas cores. A \u201carminha com a m\u00e3o\u201d \u00e9 o gesto associado a esse culto e identifica seus fi\u00e9is entre si. Tudo \u00e9 preparado para a exalta\u00e7\u00e3o do deus das armas: templo, corpos, vozes, cores, gestos. Os exemplos est\u00e3o em abund\u00e2ncia pela internet. Essas reuni\u00f5es s\u00e3o publicizadas sem qualquer constrangimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Esse culto baalsonarista parece propor um sincretismo com o ritual crist\u00e3o, numa conjuga\u00e7\u00e3o que adapta e molda a f\u00e9 convencional aos novos valores propostos. Esse culto pode conviver tranquilamente com as concep\u00e7\u00f5es crist\u00e3s, mas elas devem estar aptas a se dobrar aos seus postulados. O culto baalsonarista n\u00e3o \u00e9 concorrente da f\u00e9 crist\u00e3, desde que o cristianismo se acomode a ele. N\u00e3o \u00e9, aparentemente, uma devo\u00e7\u00e3o que ameace o culto da cristandade, com a condi\u00e7\u00e3o de que ele pr\u00f3prio seja a chave de releitura da tradi\u00e7\u00e3o. A ben\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica ministrada ao final dos cultos \u00e9 substitu\u00edda ou complementada pelo malfadado, anti-crist\u00e3o e fascista slogam: &#8220;Brasil acima de tudo, Deus acima de todos&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Os profetas de Baal recebem benesses por isso, mas o povo que segue os profetas que seguem Baal, n\u00e3o \u00e9 ouvido. Baal n\u00e3o os responde, pois est\u00e1 ocupado com coisas mais importantes (sigilo, or\u00e7amento secreto, sua pr\u00f3pria fam\u00edlia etc.) e entende que as preces s\u00e3o apenas &#8220;mimimi&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">As pr\u00f3prias leituras b\u00edblicas passam a ser retorcidas a fim de darem sustenta\u00e7\u00e3o \u00e0s doutrinas rec\u00e9m-sacramentadas: \u201cbandido bom \u00e9 bandido morto\u201d e \u201cuso de armas pelo cidad\u00e3o de bem\u201d, por exemplo. Os l\u00edderes religiosos se dedicam a procurar textos can\u00f4nicos que justifiquem esses e outros pressupostos, bem como toda a polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e religiosa decorrente. A B\u00edblia passa a estar a servi\u00e7o dessa ideologia, e tudo o que Baal diz precisa ser justificado com as Escrituras. E as malabares hermen\u00eauticas n\u00e3o t\u00eam limite: eles conseguem at\u00e9 mesmo defender a correla\u00e7\u00e3o entre Jesus e armas. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Ali\u00e1s, o pr\u00f3prio Baal era a divindade da viol\u00eancia. Por isso mesmo, se um padre disser: \u201cP\u00e1tria amada n\u00e3o \u00e9 p\u00e1tria armada\u201d; acabou-se. O \u00faltimo dia 12 de outubro, na Bas\u00edlica de Aparecida, no Vale do Para\u00edba, interior paulista, n\u00e3o pode ser esquecido. Quando o baalsonarismo foi confrontado pelo cristianismo, encerrou-se a paz entre as religi\u00f5es. Foi o estopim para que os devotos de Baal se levantassem contra o catolicismo. Os adoradores da divindade estrangeira passaram a n\u00e3o respeitar o santu\u00e1rio crist\u00e3o e vociferaram contra a f\u00e9 cat\u00f3lica. E o pr\u00f3prio Baal refor\u00e7ou a guerra ao dizer, entre outras coisas, que a Igreja Cat\u00f3lica  seria respons\u00e1vel pela mis\u00e9ria no Brasil. Diversos padres e at\u00e9 mesmo o Papa (que aben\u00e7oou seu oponente pol\u00edtico e  pediu b\u00ean\u00e7\u00e3o a quem divide o p\u00e3o com os famintos) foram alvo de cr\u00edticas, persegui\u00e7\u00f5es, amea\u00e7as e acusa\u00e7\u00f5es. A persegui\u00e7\u00e3o baalsonarista passou a interromper missas e homilias que se aproximam de Cristo em detrimento de Baal. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O medo agora \u00e9 que a sobreviv\u00eancia das igrejas e a perman\u00eancia de um crist\u00e3o em sua denomina\u00e7\u00e3o religiosa estejam atreladas \u00e0 sua concomitante ades\u00e3o irrestrita a essa nova divindade. Para quem temia que igrejas fossem fechadas\u2026 muitas j\u00e1 se tornaram templos de Baal, ou seja, j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o mais exatamente igrejas\u2026<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">MOURA, Rog\u00e9rio Lima de. O Conc\u00edlio dos Deuses no Salmo 82 e na Literatura Ugar\u00edtica. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Ci\u00eancias da Religi\u00e3o).  S\u00e3o Bernardo do Campo: Universidade Metodista de S\u00e3o Paulo, 2012.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":713,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[24,26,28,47],"tags":[64,69,71,98,140,182,183,7,253,275],"class_list":["post-2423","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-delcides-marques","category-moralidade","category-filosofia","category-teologia","tag-baal","tag-biblia","tag-bolsonaro","tag-culto","tag-evangelicos","tag-idolatria","tag-igreja","tag-politica","tag-religiao","tag-sincretismo"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/krisis.univasf.edu.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/economia-e-democracia-com-o-professor-dr-josc3a9-fernando-souto-junior5-scaled.jpg?fit=2560%2C1316&ssl=1","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2423"}],"collection":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2423"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2423\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/713"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2423"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2423"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2423"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}