{"id":2425,"date":"2022-10-25T21:46:36","date_gmt":"2022-10-26T00:46:36","guid":{"rendered":"https:\/\/profanum.com.br\/?p=720"},"modified":"2022-10-25T21:46:36","modified_gmt":"2022-10-26T00:46:36","slug":"pintou-um-silencio-por-jose-edilson-teles","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/2022\/10\/25\/pintou-um-silencio-por-jose-edilson-teles\/","title":{"rendered":"\u201cPintou um sil\u00eancio\u201d, por Jos\u00e9 Edilson Teles"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p><\/p><cite><em>\u201cO povo fala. Por mais que os tiranos apreciem um povo mudo, <\/em><br><em>o povo fala. Aos sussurros, a medo, na semiescurid\u00e3o, mas fala\u201d.<\/em> <br>S\u00f3focles, \u201cAnt\u00edgona\u201d, 2003, p. 29.<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">\u201cHouve no c\u00e9u um sil\u00eancio durante cerca de meia hora\u201d. Aos menos familiarizados com os textos b\u00edblicos, lembro que esse enunciado um tanto enigm\u00e1tico \u00e9 evocado do livro de Apocalipse 8.1, o controverso livro das \u201crevela\u00e7\u00f5es\u201d. A prop\u00f3sito, nada melhor que come\u00e7ar por uma cena apocal\u00edptica. O imagin\u00e1rio popular da literatura apocal\u00edptica judaico-crist\u00e3 produz a imagem de que o \u201cc\u00e9u\u201d, o andar superior em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 habita\u00e7\u00e3o do humano, desconhece o sil\u00eancio! A imagem de um eterno louvor \u00e0 divindade entronizada \u00e9 evocada sempre que se imaginam figuras angelicais tocando harpas \u2013 ou \u201ctrombetas\u201d, no caso do Apocalipse \u2013 e ecoando coros no estilo do Canto Gregoriano pela cidade celeste. Aos que apreciam arte, basta visualizar as iconografias cl\u00e1ssicas ou a imagem da Capela Sistina, de Michelangelo, para se certificar do prov\u00e1vel barulho que deve ser o c\u00e9u (ao contr\u00e1rio da imagem que se faz da quietude do para\u00edso). Algo aconteceu para o inesperado \u201csil\u00eancio de meia hora no c\u00e9u\u201d. Mas, deixo aos te\u00f3logos a fun\u00e7\u00e3o de explic\u00e1-lo. Por mim, que os anjos voltem a cantar e tocar trombetas! Quero falar sobre o \u201csil\u00eancio na Terra\u201d, o \u00fanico que realmente existe e onde anjos n\u00e3o h\u00e1 \u2013 nem mesmo os da guarda; ou melhor, quero falar sobre o \u201csil\u00eancio dos indecentes\u201d, nada inocentes, nomeados assim pelo falso moralismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O imagin\u00e1rio apocal\u00edptico \u00e9 evocado com frequ\u00eancia por dois tipos de pessoas: de um lado, por \u201cpromotores\u201d do fim do mundo e, de outro, por \u201cexpectadores\u201d. A combina\u00e7\u00e3o desses dois tipos resulta, no pior dos casos, numa postura resignada \u2013 afinal, o fatalismo est\u00e1 dado e resta pouco o que fazer. Quando entediados, ambos contribuem para apressar o cumprimento das demoradas profecias que, por sua vez, n\u00e3o se \u201crealizam\u201d em virtude da capacidade de prever o futuro, mas de repetir a estupidez do passado. N\u00e3o h\u00e1 nada de excepcional em profecias, pois o \u201cfim do mundo\u201d j\u00e1 aconteceu in\u00fameras vezes e os agentes desse eterno retorno s\u00e3o sempre os mesmos! Os dois tipos de pessoas, quando conv\u00e9m, assistem resignados o roteiro repetido do fim do mundo enquanto aguardam \u2013 em v\u00e3o, diria \u2013 uma interven\u00e7\u00e3o divina. Adoram um barulho, mas quando conv\u00e9m se silenciam. E, por falar na espera do divino, h\u00e1 motivos para crer que Jesus morreria novamente pelas m\u00e3os desses agentes do caos que dizem: \u201cMaranata!\u201d. \u00c9 prov\u00e1vel que o corpo glorioso de Jesus, o corpo negro, n\u00e3o seria aceito: eis a raz\u00e3o de sua demasiada demora. Pelo desenrolar do filme repetido, \u00e9 recomendado n\u00e3o voltar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Mas, caso Jesus volte para estabelecer seu Reino, conjecturemos na l\u00f3gica do imagin\u00e1rio da escatologia crist\u00e3: mal teria tempo de visitar a geopol\u00edtica da nova Jerusal\u00e9m terrestre e logo experimentaria, ainda com seus p\u00e9s nas nuvens, uma das maiores decep\u00e7\u00f5es com os novos fariseus: encontraria agentes promotores e expectadores do fim do mundo como Silas Malafaia, Marco Feliciano, Damares Alves, Andr\u00e9 Valad\u00e3o, Padre Kelvin&#8230; Kelmon&#8230;, ningu\u00e9m sabe ao certo (isso, o padre que \u201ccaiu do c\u00e9u\u201d, nos termos de Bolsonaro) e tantos outros \u2013 nome\u00e1-los esgotaria os limites desse artigo. Enquanto l\u00ea, com certeza o leitor deve ter acrescido essa lista intermin\u00e1vel e n\u00e3o hesitaria extrapolar o campo da religi\u00e3o. Seria minha vez de expecta\u00e7\u00e3o: como seria esse encontro? Essa cena \u00e9pica jamais seria roteirizada pelas novelas da Record \u2013 n\u00e3o por falta de or\u00e7amento (sabemos que possuem), mas pelo constrangimento moral: \u201cpintaria um sil\u00eancio\u201d, com certeza.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Seria interessante assistir as justificativas para o \u201csil\u00eancio\u201d (em nossos termos, \u201cpassada de pano\u201d) desses agentes diante do ass\u00e9dio que promovem nos templos, em flagrante crime eleitoral, coagindo fieis a votarem em Bolsonaro. Como explicariam a expuls\u00e3o de membros da comunidade por discordarem? E o sil\u00eancio diante da interrup\u00e7\u00e3o de missas cat\u00f3licas, em Aparecida \u2013 ainda mais ante os alardes de fechamento de templos? E o sil\u00eancio ensurdecedor diante do \u201cpintou um clima\u201d com adolescentes, comportamento ped\u00f3filo do \u201cmessias\u201d usurpador, t\u00e3o ostentado pelo p\u00e2nico moral? E o sil\u00eancio diante das propinas em barra de ouro por pastores no Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o? E o sil\u00eancio diante da hipocrisia dos sertanejos moralistas em nome de suas fam\u00edlias (algumas abandonadas)? E o sil\u00eancio diante da postura golpista e fascist\u00f3ide do ex-deputado Roberto Jefferson ao resistir e ferir agentes da pol\u00edcia federal (visto ap\u00f3s a pris\u00e3o empunhando uma B\u00edblia)? Como explicariam a substitui\u00e7\u00e3o do \u201camai-vos uns aos outros\u201d por \u201carmai-vos\u201d? E o sil\u00eancio em rela\u00e7\u00e3o aos ataques mis\u00f3ginos, homof\u00f3bicos e racistas promovidos por Bolsonaro e seus asseclas? E o barulhento sil\u00eancio diante das not\u00edcias falsas nos p\u00falpitos? Pelo visto, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que \u201cpintou um sil\u00eancio\u201d e coniv\u00eancia com todos esses crimes. Finalmente, seria minha vez de expecta\u00e7\u00e3o da famosa frase de Jesus dispensada aos fariseus: \u201csepulcros caiados\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Os agentes promotores e expectadores do fim do mundo agem como tal porque s\u00e3o incapazes de promover a paz e conviver com a diversidade de pensamento e modos de existir. Por ego\u00edsmo, apressam o fim do mundo n\u00e3o s\u00f3 para si, mas para os outros \u2013 afinal, creem que estar\u00e3o no para\u00edso enquanto os outros que se danem. Nada mais ego\u00edsta! Por farisa\u00edsmo, exigem dos outros a moralidade que n\u00e3o possuem. Nada mais hip\u00f3crita! Quando conv\u00e9m, os indecentes gritam estridentemente; quando conv\u00e9m, se silenciam (vide Malafaia, Feliciano e Damares), pois est\u00e1 em jogo interesses que s\u00e3o desse mundo e n\u00e3o do celeste porvir, como piedosamente fazem crer. Em rea\u00e7\u00e3o aos que agem para apressar o novo fim do mundo, desse \u00fanico mundo, devemos preencher o sil\u00eancio de meia hora dos indecentes com os gritos de Ant\u00edgona em mem\u00f3ria dos que foram silenciados: \u201cpor mais que os tiranos apreciem um povo mudo, o povo fala. Aos sussurros, a medo, na semiescurid\u00e3o, mas fala\u201d. Meia hora para 33 milh\u00f5es de pessoas que passam fome ou para quem revira lixo a procura de comida \u00e9 uma eternidade insuport\u00e1vel. N\u00e3o estou disposto a nenhum segundo desse sil\u00eancio apocal\u00edtico. Gritemos: \u201cN\u00e3o passar\u00e3o, fariseus!\u201d&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>A B\u00cdBLIA DE JERUSAL\u00c9M<\/em>. Edi\u00e7\u00f5es Paulinas, 1973.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00d3FOCLES. <em>Ant\u00edgona<\/em>. Paz e Terra, 2003.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":721,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[26,36,47],"tags":[61,69,71,140,183,274,295],"class_list":["post-2425","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-moralidade","category-jose-edilson-teles","category-teologia","tag-apocalipse","tag-biblia","tag-bolsonaro","tag-evangelicos","tag-igreja","tag-silencio","tag-valores-cristaos"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/krisis.univasf.edu.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/minorias-e-democracia-com-o-professor-dr-clc3a1udio-roberto-dos-santos-de-almeida3-scaled.jpg?fit=2560%2C1440&ssl=1","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2425"}],"collection":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2425"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2425\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/721"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2425"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2425"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2425"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}