{"id":2430,"date":"2022-11-14T23:42:39","date_gmt":"2022-11-15T02:42:39","guid":{"rendered":"https:\/\/profanum.com.br\/?p=791"},"modified":"2022-11-14T23:42:39","modified_gmt":"2022-11-15T02:42:39","slug":"o-que-nos-faz-humanos-por-claudio-de-oliveira-ribeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/2022\/11\/14\/o-que-nos-faz-humanos-por-claudio-de-oliveira-ribeiro\/","title":{"rendered":"&#8220;O que nos faz humanos?&#8221;, por Claudio de Oliveira Ribeiro"},"content":{"rendered":"\n<!--more-->\n\n\n\n<h2 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\"><strong>(Jojo Rabbit)<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p><\/p><cite>Quero a utopia, quero tudo e mais<br>Quero a felicidade nos olhos de um pai<br>Quero a alegria muita gente feliz<br>Quero que a justi\u00e7a reine em meu pa\u00eds<div>(\u201cCora\u00e7\u00e3o civil\u201d, de Milton Nascimento)<\/div><\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Emocionante do princ\u00edpio ao fim, \u201cJojo Rabbit\u201d \u00e9 um filme extraordin\u00e1rio! Ele nos d\u00e1 a oportunidade de vislumbrar a realidade dram\u00e1tica e cruel do Nazismo com um tom gracioso e de com\u00e9dia. Da tela, surgem fagulhas de esperan\u00e7a e labirintos l\u00fadicos que nos fazem crer na vida, no valor da amizade e nas possibilidades de humaniza\u00e7\u00e3o &#8211; dimens\u00f5es cruciais para os dias de hoje nos quais se fortalecem, no Brasil e no mundo, as formas de exclus\u00e3o social, de preconceitos, de viol\u00eancia e de autoritarismos. O filme, de 2019, dirigido por Taika Waititi, retrata com leveza as atrocidades do Nazismo sem, no entanto, nos tirar de vista o peso desses crimes na hist\u00f3ria. H\u00e1 humor, s\u00e1tira, mas n\u00e3o \u201cdistra\u00e7\u00e3o\u201d. E, al\u00e9m disso, \u00e9 importante lembrar que as bases ideol\u00f3gicas de tais conflitos se reproduzem crescente e intensamente no Brasil de hoje e invadem cruelmente o nosso cotidiano. O filme nos faz pensar!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Johannes Betzler, o Jojo, com excelente atua\u00e7\u00e3o de Roman Griffin Davis, \u00e9 um solit\u00e1rio garoto alem\u00e3o que, nos seus 10 anos de idade, j\u00e1 exerce uma fan\u00e1tica admira\u00e7\u00e3o por Adolf Hitler. O menino, que deseja fazer parte da Juventude Hitlerista, n\u00e3o demostra ser muito h\u00e1bil para as atividades desta institui\u00e7\u00e3o paramilitar que implicam agressividade destrutiva. J\u00e1 no seu primeiro acampamento, ele acaba estigmatizado com o apelido de coelho (\u201crabbit\u201d) ao n\u00e3o conseguir seguir a ordem de matar gratuitamente um desses animais. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O garoto descobre que sua m\u00e3e, Rosie, com magistral interpreta\u00e7\u00e3o de Scarlett Johansson, est\u00e1 escondendo Elsa (Thomasin Mckensie), uma linda garota judia no s\u00f3t\u00e3o da casa, como na memor\u00e1vel hist\u00f3ria de Anne Frank. A m\u00e3e de Jojo, cujo marido ausente parece ter desertado para cerrar fileiras com grupos alem\u00e3es de resist\u00eancia ao Nazismo, revela, em sua personalidade, muita perspic\u00e1cia e um encantador apego pelo l\u00fadico. Isto serve de respiro em meio a um ambiente opressivo, xen\u00f3fobo, homof\u00f3bico e autorit\u00e1rio que os cerca. Ela reconhece e respeita a vis\u00e3o pol\u00edtica do filho, certamente fruto dos processos educacionais totalit\u00e1rios da Alemanha nazista, e busca educ\u00e1-lo, ao oferecer contrapontos com bel\u00edssimas demonstra\u00e7\u00f5es de carinho, incentivo \u00e0 autonomia e a uma vida de afetos. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O filme nos faz lembrar o controvertido, mas fabuloso \u201cA vida \u00e9 Bela\u201d, de Roberto Benigni, no qual um pai judeu, acompanhado de seu filho em um campo de concentra\u00e7\u00e3o nazista, usa a imagina\u00e7\u00e3o para fazer o menino acreditar que est\u00e3o diante de uma grande brincadeira e, assim, proteg\u00ea-lo do terror e da viol\u00eancia que os cercam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Em \u201cJojo Rabbit\u201d, Hitler, cuja interpreta\u00e7\u00e3o foi feita pelo pr\u00f3prio diretor do filme, \u00e9 o amigo imagin\u00e1rio do garoto, ora se colocando como um idiota atrapalhado ora reproduzindo os discursos agressivos e violentos do ide\u00e1rio nazista. Jojo, em di\u00e1logo com essa figura imagin\u00e1ria, numa forma de confronto entre ego e superego, teve que enfrentar seu nacionalismo cego enquanto a Segunda Guerra Mundial prosseguia e dava mostras dos preconceitos nos quais ela foi engendrada e da viol\u00eancia que ela protagonizou. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Depois de v\u00e1rias tentativas frustradas para expulsar a jovem judia, Jojo, que nos acampamentos da Juventude Nazista havia angariado v\u00e1rios problemas f\u00edsicos, incluindo cicatrizes no rosto, come\u00e7a a desenvolver empatia e a desconstruir preconceitos nos encontros e desencontros com Elsa. O conv\u00edvio das diferen\u00e7as, enorme desafio da vida humana em qualquer tempo e lugar, passa a ser a ponte, a possibilidade, o caminho de supera\u00e7\u00e3o das culturas de \u00f3dio e viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O filme tamb\u00e9m retrata com maestria diversos temas feministas. A come\u00e7ar pelas hip\u00e9rboles e caricaturas mostradas nos discursos nazistas que discriminam a mulher e a colocam como inferior e subalterna. E mais: doutrinam as crian\u00e7as e adolescentes desta forma. No entanto, tais cenas do filme, muito bem constru\u00eddas, ali\u00e1s, de fato mostram a realidade do que est\u00e1 nas mentes de grupos conservadores, do passado e de hoje. Para isso, basta observar as a\u00e7\u00f5es de governo no Brasil [de 2019]. Mas, Rosie e Elsa mostram o outro lado da moeda: determina\u00e7\u00e3o, firmeza, intelig\u00eancia, capacidade de enfrentamento, \u201csem perder a ternura, jamais\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">\u201cJojo Rabbit\u201d mostra tamb\u00e9m um outro ponto: o cora\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as e adolescentes. De um lado, o filme mostra a fragilidade delas diante da for\u00e7a ideol\u00f3gica nazista. E a\u00ed se encontram as famosas \u201cfake news\u201d, t\u00e3o em moda hoje na a\u00e7\u00e3o dos grupos pol\u00edticos e religiosos conservadores, mas que l\u00e1 j\u00e1 estavam intensamente presentes, sedimentando o poder autorit\u00e1rio, opressivo e violento. No entanto, por outro lado, o filme revela a singeleza da amizade das crian\u00e7as. Lindos os abra\u00e7os de Jojo e Yorke (Archie Yates), seu amigo (real e n\u00e3o imagin\u00e1rio), que diante das sombras e dos escombros da guerra, concluem que n\u00e3o \u00e9 razo\u00e1vel que sejam nazistas. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Jojo \u00e9 aquela crian\u00e7a que, como enfatizam alguns di\u00e1logos importantes do filme, \u201cprecisa decidir o seu caminho\u201d. S\u00e3o perguntas existenciais precoces, mas cruciais para as crian\u00e7as na tela e para cada um e cada uma n\u00f3s nas cadeiras do cinema. E como na can\u00e7\u00e3o popular, \u201cFico com a pureza das respostas das crian\u00e7as: \u00e9 a vida, \u00e9 bonita e \u00e9 bonita\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">A vida plena e abundante, para lembrar o Evangelho de Jo\u00e3o (10.10), \u00e9 sinalizada por variados caminhos e imagens. Em diferentes e importantes partes do filme, por exemplo, surge, em meio aos dramas, perdas e incertezas quanto ao futuro dos protagonistas, a dan\u00e7a. Ela \u00e9 possibilidade de encontro gratuito com o sentido da vida. Dan\u00e7ar nos leva ao equacionamento inconcluso e criativo das inquieta\u00e7\u00f5es da exist\u00eancia, nos aproxima do humano em suas fal\u00eancias, ingl\u00f3rias, potencialidades e realiza\u00e7\u00f5es. \u201cEu s\u00f3 poderia crer em um Deus que soubesse dan\u00e7ar\u201d, assim falava o s\u00e1bio Zaratustra, de Nietzsche, pois \u00e9 \u201cs\u00e9rio e grave o esp\u00edrito do pesadelo\u201d. \u201cN\u00e3o \u00e9 com c\u00f3lera, mas com riso\u201d que matamos nossos dem\u00f4nios. Dan\u00e7ar diante do caos parece loucura. Da mesma forma que rir vislumbrando a viol\u00eancia dos totalitarismos, como no filme, parece tolice. E falar de amor, como Rosie e Elsa repetidas vezes o fizeram com Jojo, mais ainda. Por\u00e9m, como esse fil\u00f3sofo mostrou: \u201cH\u00e1 sempre o seu qu\u00ea de loucura no amor; mas tamb\u00e9m h\u00e1 sempre o seu qu\u00ea de raz\u00e3o na loucura\u201d. E o filme nos faz voar com Jojo, com as borboletas em seu interior que sinalizam a sua capacidade de amar &#8211; momento m\u00e1gico do filme. Outra vez o fil\u00f3sofo: \u201cpara saber de felicidade n\u00e3o h\u00e1 como as borboletas e as bolhas de sab\u00e3o\u201d.   <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">E a f\u00e9, que \u00e9 o salto onde lamento e j\u00fabilo se encontram, lutas e prazer se tangenciam, paz e justi\u00e7a se beijam, chega at\u00e9 n\u00f3s. \u201cQuando sou fraco, a\u00ed \u00e9 que me descubro forte\u201d (II Cor\u00edntios 12.10). \u201cQuem com l\u00e1grimas semeia com j\u00fabilo ceifar\u00e1\u201d (Salmo 126.5). \u201cMudaste o meu pranto em dan\u00e7a, a minha veste de lamento em veste de alegria, para que o meu cora\u00e7\u00e3o cante louvores a ti e n\u00e3o se cale\u201d (Salmo 30.11). <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Com as l\u00e1grimas escondidas que correram dos meus olhos ao final do filme, com a vis\u00e3o antenada na crueldade dos governantes [da \u00e9poca do filme] de nosso pa\u00eds e dos grupos que reproduzem suas ideologias de viol\u00eancia e de morte, com os olhos pregados no futuro dos desvalidos como Jojo e Elsa, dos meninos de rua do Rio de Janeiro, de toda a crian\u00e7ada desse pa\u00eds, do destino da juventude e das sofridas mulheres, e do que est\u00e1 por vir para o meu filho Guilherme e meus sobrinhos e sobrinhas queridas, busco nesta mem\u00f3ria a esperan\u00e7a. Pois creio que mem\u00f3ria \u00e9 esperan\u00e7a. <\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":792,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[18,19,21,26,30],"tags":[57,94,97,113,172,176,181,190,217],"class_list":["post-2430","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cidadania-e-direitos-humanos","category-claudio-de-oliveira-ribeiro","category-cultura","category-moralidade","category-genero-feminismo-e-sexualidade","tag-alteridade","tag-crianca","tag-crueldade","tag-diferenca","tag-hitler","tag-humanidade","tag-ideologia-nazista","tag-jojo-rabbit","tag-nazismo"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2430"}],"collection":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2430"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2430\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/792"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2430"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2430"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2430"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}