{"id":2431,"date":"2022-11-16T09:27:40","date_gmt":"2022-11-16T12:27:40","guid":{"rendered":"https:\/\/profanum.com.br\/?p=822"},"modified":"2022-11-16T09:27:40","modified_gmt":"2022-11-16T12:27:40","slug":"as-velas-continuam-acesas-por-rita-de-cassia-scocca-luckner","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/2022\/11\/16\/as-velas-continuam-acesas-por-rita-de-cassia-scocca-luckner\/","title":{"rendered":"&#8220;As velas continuam acesas&#8221;, por Rita de Cassia Scocca Luckner"},"content":{"rendered":"\n<!--more-->\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">A passagem do pensamento teoc\u00eantrico para o antropoc\u00eantrico trouxe ao indiv\u00edduo uma nova vis\u00e3o de mundo, n\u00e3o mais baseada apenas na f\u00e9, mas tamb\u00e9m, e primordialmente, na raz\u00e3o. O avan\u00e7o da ci\u00eancia revelou ao ser humano a sua capacidade de apreender os fen\u00f4menos que envolvem a natureza e seus elementos. Os processos de descobertas e inven\u00e7\u00f5es fizeram florescer a l\u00f3gica do capitalismo, assim, as a\u00e7\u00f5es categ\u00f3ricas da atualidade s\u00e3o produzir, consumir, acumular, lucrar, o que t\u00eam gerado individualismo, desigualdade social e injusti\u00e7a. \u00c9 nessa moldura do cerceamento da liberdade e da degrada\u00e7\u00e3o da dignidade humana, que Agamben (2009) constr\u00f3i a ideia de que o ser humano \u00e9 apenas uma pe\u00e7a da grande engrenagem de uma m\u00e1quina que visa apenas o pr\u00f3prio poder. Para ele, estamos vivendo uma era de dissemina\u00e7\u00e3o de dispositivos, devido \u00e0 progress\u00e3o do capitalismo. Dispositivo \u00e9 tudo aquilo que for\u00e7osamente controla, manipula ou determina as condutas, as opini\u00f5es e os discursos dos indiv\u00edduos. O resultado das rela\u00e7\u00f5es entre os seres e os dispositivos d\u00e1 origem a outro grupo, os sujeitos. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Mas, esses sujeitos que a m\u00e1quina do poder produz s\u00e3o sujeitos espectrais, agem de acordo com o que lhes s\u00e3o expostos e impostos sem questionamentos, pois sendo \u201cespectros\u201d n\u00e3o possuem discurso pr\u00f3prio, n\u00e3o constitu\u00edram uma verdade pr\u00f3pria, s\u00e3o na realidade, <em>dessujeitos<\/em>. Utilizando-se da figura do direito arcaico romano, <em>Homo sacer<\/em>, que \u00e9 \u201cmat\u00e1vel\u201d, por\u00e9m insacrific\u00e1vel, ou seja, s\u00f3 n\u00e3o poderia ser sacrificado em rituais religiosos, Agamben trata as rela\u00e7\u00f5es entre soberania e o ser capturado por esse poder. Trata-se de um privil\u00e9gio comum dos governos \u2013 inclusive dos que se dizem democr\u00e1ticos \u2013 que acontece de maneira silenciosa e camuflada, de apelarem para o estado de exce\u00e7\u00e3o. No estado de exce\u00e7\u00e3o o soberano utiliza-se dos recursos legais justamente para suspender ou at\u00e9 mesmo anular a pr\u00f3pria legalidade e os direitos dos cidad\u00e3os. Dessa forma se apresenta a <em>biopol\u00edtica<\/em>, a vida \u00e9 gerenciada pelo poder e inclusive ele pode gerar a exclus\u00e3o da prote\u00e7\u00e3o jur\u00eddica daqueles que n\u00e3o se submetem ao seu ordenamento. Na atualidade, j\u00e1 vivenciamos esse cen\u00e1rio, no espa\u00e7o de inclus\u00e3o\/exclus\u00e3o, no estado de exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Para ilustrar, nos valemos da literatura, que \u00e9 uma das mais francas formas de den\u00fancia das condi\u00e7\u00f5es humanas que, por meio da fic\u00e7\u00e3o e da est\u00e9tica, apresenta-se como espa\u00e7o antropol\u00f3gico e permite certa compreens\u00e3o do ser humano no mundo, seus confrontos, anseios, impasses \u00e9ticos e morais e tamb\u00e9m a sua f\u00e9. \u00c9 poss\u00edvel encontrarmos diversas figuras <em>homosacertizadas<\/em> representadas nas obras liter\u00e1rias.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><em>Uma vela para Dario<\/em>, de Dalton Trevisan, apresenta um personagem, que se sente mal e morre na rua. As pessoas, mais por curiosidade do que por compaix\u00e3o, tentam agir ante \u00e0 situa\u00e7\u00e3o. Dario \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o do <em>dessujeito<\/em>, cuja vida e morte foram insignificantes, como s\u00edmbolo do <em>homo sacer<\/em>, tudo lhe foi tirado. Seus pertences pouco a pouco lhe s\u00e3o roubados: abrem-lhe a camisa, afrouxem-lhe a gravata para respirar melhor, e se v\u00e3o sapatos, gravata, e cinto.&nbsp; Quando estirado no ch\u00e3o aguardando o \u201crabec\u00e3o\u201d, o guarda-chuva que ele carregava j\u00e1 l\u00e1 n\u00e3o se encontrava, assim como o rel\u00f3gio de pulso. Tentam carregar Dario at\u00e9 a farm\u00e1cia, mas era muito pesado, ent\u00e3o foi largado nos degraus da peixaria, sob as moscas. Um senhor gentilmente dobra o palet\u00f3 do defunto para apoiar-lhe a cabe\u00e7a. Restava-lhe apenas a alian\u00e7a, que ele nunca tirava, pois era apertada. Umas cem pessoas bisbilhotavam entre os lados da cal\u00e7ada. Quando chegou a pol\u00edcia foi aquele alvoro\u00e7o, e acabaram pisoteando Dario, j\u00e1 sem carteira, sem palet\u00f3, o dedo sem alian\u00e7a. Mas, ent\u00e3o, chega um garoto. Negro, humilde, que se aproxima do corpo e acende uma vela, num gesto de condol\u00eancia e respeito.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">As narrativas liter\u00e1rias captam o pensamento, sofrimento e desejos humanos que s\u00e3o desdobrados pela linguagem liter\u00e1ria, com suas simbologias, analogias e met\u00e1foras, que possibilitam apreender amplamente os sentidos e significados, indo al\u00e9m da linguagem determinada literalmente e historicamente. Agamben (2015) prop\u00f5e que, para lidar com os dispositivos, um mecanismo eficaz seria a <em>profana\u00e7\u00e3o<\/em>, que significa restituir ao livre uso dos homens tudo aquilo que lhe foi retirado, dando um novo uso, ou um reuso. Nesse seguimento, entendemos a a\u00e7\u00e3o de interpretar como for\u00e7a motriz \u00e0 profana\u00e7\u00e3o, uma quebra da normalidade, visando uma transforma\u00e7\u00e3o. \u00c9 isso que representa a vela ofertada pelo garoto, pois encerra aquele ciclo de a\u00e7\u00f5es que degradavam Dario. Ao inv\u00e9s de tirar, o menino se doa, como refer\u00eancia, no conto, \u00e0 \u00e9tica humana. Para Cremonese (2019), a \u00e9tica \u00e9 um cuidado com o outro, \u00e9 considerar a alteridade, ver o outro como realmente \u00e9. Dario, o <em>homo sacer<\/em> liter\u00e1rio, representa os sujeitos que perderam a individualidade e sofrem a a\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, das leis, do capitalismo e de outros sistemas que n\u00e3o t\u00eam como prioridade o ser humano e que agem de forma a n\u00e3o considerar seus direitos, sua forma de vida, e esvaziam as experi\u00eancias, ofuscando as potencialidades em todas as esferas da vida em sociedade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">N\u00e3o obstante, o conto liter\u00e1rio expressa que haver\u00e1 sempre uma vela a ser acesa, fonte de esperan\u00e7a, afinal, a simbologia da morte n\u00e3o \u00e9 o fim, mas renova\u00e7\u00e3o, recome\u00e7o, o que provoca reflex\u00f5es sobre \u00e9tica e sua conex\u00e3o com o agir, a nega\u00e7\u00e3o da passividade diante \u00e0 injusti\u00e7a e jogos do poder.&nbsp; Uma nova era iluminada est\u00e1 por vir. Que as velas continuem acesas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>AGAMBEN, Giorgio. <strong>Profana\u00e7\u00f5es<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Boitempo Editorial, 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>AGAMBEN, Giorgio. \u201cO que \u00e9 dispositivo\u201d, In: AGAMBEN, Giorgio. <strong>O que \u00e9<\/strong> <strong>o contempor\u00e2neo? E outros ensaios<\/strong>. Chapec\u00f3: Argos, 2009, pp. 27-51.<\/p>\n\n\n\n<p>CREMONESE, Djalma. \u00c9tica e moral na Contemporaneidade. In: <strong>Campos Neutrais \u2013 Revista Latino-Americana de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais<\/strong> Vol. 1 N\u00ba 1, Janeiro \u2013 Abril de 2019.<\/p>\n\n\n\n<p>TREVISAN, Dalton. <strong>Uma vela para Dario<\/strong>. In: <a href=\"https:\/\/contobrasileiro.com.br\/uma-vela-para-dario-conto-de-dalton-trevisan\/\">https:\/\/contobrasileiro.com.br\/uma-vela-para-dario-conto-de-dalton-trevisan\/<\/a> Acesso em 12\/11\/2022.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":828,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[39,44],"tags":[70,100,115,135,164,174,197],"class_list":["post-2431","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-linguagem","category-rita-de-cassia-scocca-luckner","tag-biopolitica","tag-dalton-trevisan","tag-dispositivo","tag-estado-de-excecao","tag-giorgio-agamben","tag-homo-sacer","tag-literatura"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/krisis.univasf.edu.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/palestra-e2809co-que-faz-parentesco-e-polc3adticae2809c-proferida-pela-professora-dra-ana-claudia-marques4.jpg?fit=960%2C656&ssl=1","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2431"}],"collection":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2431"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2431\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/828"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2431"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2431"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2431"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}