{"id":2436,"date":"2022-12-18T19:18:25","date_gmt":"2022-12-18T22:18:25","guid":{"rendered":"https:\/\/profanum.com.br\/?p=895"},"modified":"2022-12-18T19:18:25","modified_gmt":"2022-12-18T22:18:25","slug":"eu-vi-um-menino-correndo-por-claudio-de-oliveira-ribeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/2022\/12\/18\/eu-vi-um-menino-correndo-por-claudio-de-oliveira-ribeiro\/","title":{"rendered":"\u201cEu vi um menino correndo&#8230;\u201d, por Cl\u00e1udio de Oliveira Ribeiro"},"content":{"rendered":"\n<!--more-->\n\n\n\n<h4 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\">(\u201cA hora da estrela\u201d) <\/h4>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-small-font-size\"><blockquote><p><\/p><cite>Por isso uma for\u00e7a me leva a cantar<br>Por isso essa for\u00e7a estranha (no ar)<br>Por isso \u00e9 que eu canto, n\u00e3o posso parar<br>Por isso essa voz tamanha.<div>(\u201cFor\u00e7a estranha\u201d, de Caetano Veloso)<\/div><\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Certa vez, quando jovem, ao final de um ano, vivendo a sensa\u00e7\u00e3o melanc\u00f3lica do Natal que sempre se achegava ao meu cora\u00e7\u00e3o nessas \u00e9pocas, fui assistir ao filme \u201cA hora da estrela\u201d (1985). A obra, que marcou a estreia de Suzana Amaral como diretora, \u00e9 inquietante, reflexiva, dilacerante. Momento m\u00e1gico e tr\u00e1gico que revela a vida, os dissabores e os amores que ela traz.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">A trama, baseada no romance hom\u00f4nimo de Clarice Lispector, conta a hist\u00f3ria de Macab\u00e9a (Marc\u00e9lia Cartaxo), uma jovem imigrante nordestina que com dezenove anos de idade, \u00f3rf\u00e3 de pai e m\u00e3e e que ainda perdera a tia que a havia criado, vive na fria cidade de S\u00e3o Paulo. Ela trabalha como datil\u00f3grafa em uma pequena firma e vive em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias em uma pens\u00e3o miser\u00e1vel, onde divide o quarto com outras mulheres, mas vive em solid\u00e3o, fruto dos seus desencontros com o mundo urbano e seus valores e padr\u00f5es de vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Encurtando a dist\u00e2ncia com outros mundos, tem sempre colado ao ouvido o radinho de pilha, melhor amigo e companheiro, uma janela que se abre para o mundo e que a faz alimentar sonhos e fantasias, n\u00e3o isentos de culpas, palpita\u00e7\u00f5es e receios. Ela, que enigmaticamente nos cativa em sua feiura, fragilidade e inexist\u00eancia, n\u00e3o tem grandes ambi\u00e7\u00f5es na vida, mas, mesmo assim, sente o desejo por viver e ter um namorado. Por que n\u00e3o? Ela conhece Ol\u00edmpico de Jesus (Jos\u00e9 Dumont), tamb\u00e9m nordestino, metal\u00fargico sem grandes qualifica\u00e7\u00f5es e, por isso, igualmente enredado em dif\u00edcil situa\u00e7\u00e3o financeira. Namoram, sem, no entanto, criarem os canais afetivos mais aut\u00eanticos para desfrutar da comunica\u00e7\u00e3o fluida dos pr\u00f3prios sentimentos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Entre sonhos e realidades, entre a crueza da vida e a possibilidade de futuro, entre o encontro e a impossibilidade de viver, o filme nos faz refletir sobre os meandros que est\u00e3o entre a exist\u00eancia humana e os la\u00e7os sociais; entre a vida e a morte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Macab\u00e9a \u00e9 forte e enfrenta seus dramas. Encara a dor de ser trocada por outra, sua pr\u00f3pria colega de trabalho, Gl\u00f3ria (Tamara Taxman). Em meio ao mist\u00e9rio e \u00e0 mis\u00e9ria do jogo de cartas, Ol\u00edmpico havia de escolher a outra. Mas, madame Carlota, a cartomante (Fernanda Montenegro, sempre genial em suas representa\u00e7\u00f5es), n\u00e3o abandona Macab\u00e9a. Ao contr\u00e1rio, a enche de sonhos. Todos vindos das cartas que revelam o futuro, a fortuna, as possibilidades de amor. Mas, a vida n\u00e3o \u00e9 assim!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Todas as vezes em que se aproxima o final do ano, eu fico pensando em tantas Macab\u00e9as. \u00c9 fato que dever\u00edamos nos guiar pela alegria do Natal. Eu tamb\u00e9m reflito sobre as dimens\u00f5es positivas da vida, as boas expectativas para o ano seguinte, os bons testemunhos e experi\u00eancias felizes. \u00c9 um tanto quanto misturado. Como a vida em geral. No Natal, eu me lembro, por exemplo, das mulheres que est\u00e3o gr\u00e1vidas. Se existem pessoas que podem compreender bem o sentido do Advento do Natal s\u00e3o as mulheres que j\u00e1 passaram pela experi\u00eancia da gravidez e da maternidade. Cada dia \u00e9 uma novidade. Alguns parecem longos demais. Outros voam. Coisas para preparar n\u00e3o faltam e&#8230; \u201chaja cora\u00e7\u00e3o\u201d! Para tais mulheres, gr\u00e1vidas de alegria e de esperan\u00e7a, desafios e temores n\u00e3o s\u00e3o poucos, mas elas sabem, como diz a can\u00e7\u00e3o de Milton Nascimento, que \u201c\u00e9 preciso ter for\u00e7a, \u00e9 preciso ter ra\u00e7a, \u00e9 preciso ter gana sempre, pois quem traz no corpo essa marca possui a estranha mania de ter f\u00e9 na vida\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">N\u00e3o se trata de esquecer a crueza da vida como a de Macab\u00e9a. Mas \u00e9 que quando h\u00e1 gravidez, as pessoas ao redor se mobilizam muito e podem desfrutar do sentido da espera, da esperan\u00e7a, da contagem dos dias. Boa parte dos pais e a maioria dos av\u00f3s entram no clima, preparam coisas, tamb\u00e9m se preocupam; contam hist\u00f3rias de outros beb\u00eas, como Isabel deve ter contado a Maria no longo tempo em que ficou escondida e refugiada em sua casa, conforme nos conta o relato do evangelho de Lucas (1.56).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Este \u00e9 o sentido do Advento: \u201cpr\u00e9-ocupar\u201d da esperan\u00e7a. Tratar de ajeitar o mundo para o novo que vem. Com o passar do tempo, dores do parto, expectativas, choros e sorrisos misturados. Assim \u00e9 a prepara\u00e7\u00e3o do Natal! Esperamos um beb\u00ea para tirar dos \u201ctronos, os poderosos\u201d, \u201cpara despedir vazios, os ricos\u201d, \u201cexaltar os humildes\u201d, como nossos irm\u00e3os que vivem nas ruas, ou os que trabalham duro, os iletrados, os que recebem \u201cbolsa fam\u00edlia\u201d, os que esperam na fila pela \u201cminha casa, minha vida\u201d, os que n\u00e3o \u201calimentam pensamentos soberbos\u201d, as muitas macab\u00e9as, conforme nos ensina a Palavra de Deus. Sim! Est\u00e1 l\u00e1, palpitando na can\u00e7\u00e3o descrita no primeiro cap\u00edtulo de Lucas (v. 51-53).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">E estamos diante da profecia&#8230; da palavra-esperan\u00e7osa&#8230; da vis\u00e3o do profeta b\u00edblico Miqueias (5.2-5a.), que setecentos anos antes do nascimento de Jesus sonhava pela paz. Miqueias, corajoso e misericordioso, homem simples do campo, como Am\u00f3s, outro profeta, muito admirado por Jesus&#8230; Profetas com sensibilidade social, defensores dos fracos, dos \u00f3rf\u00e3os, das vi\u00favas, dos estrangeiros e migrantes e pessoas como as protagonizaram esse bel\u00edssimo filme. Eles sabiam que Bel\u00e9m-Efrata, lugar de gente pobre e desvalida, \u201cpequena demais para figurar como grupo de milhares de Jud\u00e1\u201d, seria a fonte a jorrar de esperan\u00e7a. Dela \u201csair\u00e1 o que h\u00e1 de reinar em Israel\u201d (v. 2). Bel\u00e9m-Efrata nos mostra o caminho da salva\u00e7\u00e3o, com suas ruas empoeiradas e com suas \u201ccasas simples com cadeiras nas cal\u00e7adas\u201d, como na inesquec\u00edvel can\u00e7\u00e3o de Vin\u00edcius, Garoto e Chico Buarque. \u201cE a\u00ed me d\u00e1 uma inveja dessa gente, que vai em frente sem nem ter com quem contar [&#8230;] \u00e9 gente humilde, ai que vontade de chorar&#8230;\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">E o gosto triste-e-alegre do Natal fica em nossa boca. \u00c9 o sonho do beb\u00ea que vir\u00e1, da crian\u00e7a que nos ensinar\u00e1 o caminho, e ele j\u00e1 estava l\u00e1 atr\u00e1s&#8230; \u201cO Senhor os entregar\u00e1 at\u00e9 ao tempo em que a que est\u00e1 em dores tiver dado \u00e0 luz\u201d (v. 3). \u00c9 \u201chora da estrela\u201d. Conflitos nas fam\u00edlias? Dificuldades no trabalho? Medo do desemprego? Doen\u00e7as e cirurgias? Estresse e depress\u00e3o? Amores n\u00e3o correspondidos? Pessoas nas ruas mendigando o p\u00e3o? Muitas dores nos acompanham&#8230;&nbsp; Mas o amor e a miseric\u00f3rdia, que s\u00e3o coisas do cora\u00e7\u00e3o, prevalecem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">E o Advento vai reunindo dor e alegria, frustra\u00e7\u00f5es e esperan\u00e7as, balan\u00e7os de como foi o ano e desejos bons de como ser\u00e1 depois no Natal, para n\u00f3s e para todo mundo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">No Brasil, os \u00faltimos anos foram muito dif\u00edceis, com retrocessos pol\u00edticos e sociais, e marcado por muitos conflitos pol\u00edticos e ideol\u00f3gicos. Decorrente deles, certa agressividade entre pessoas, grupos e at\u00e9 mesmo entre familiares e amigos. E vimos tamb\u00e9m o aumento da pobreza, atentados ao estado de direito, justi\u00e7a seletiva, rancor pol\u00edtico. O quadro parece n\u00e3o ser esperan\u00e7oso&#8230; E o Advento, ent\u00e3o, nos arranca l\u00e1 de dentro do peito a pergunta: quem vai ganhar, a frustra\u00e7\u00e3o ou a esperan\u00e7a? Ou elas s\u00e3o irm\u00e3s g\u00eameas, gestadas na f\u00e9, que olham para a realidade da vida, sem fingir, \u201csem fugir, nem mentir pra si mesmo\u201d? Sabendo que \u201cagora, h\u00e1 tanta vida l\u00e1 fora [&#8230;] como uma onda no mar\u201d, no dizer dessa linda can\u00e7\u00e3o de Lulu Santos e Nelson Motta. N\u00e3o \u00e9 verdade?&nbsp;<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":896,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[19,48,21,26,39],"tags":[49,85,199,215],"class_list":["post-2436","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-claudio-de-oliveira-ribeiro","category-cultura-cultura","category-cultura","category-moralidade","category-linguagem","tag-a-hora-da-estrela","tag-clarice-lispector","tag-macabea","tag-natal"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2436"}],"collection":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2436"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2436\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2436"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2436"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2436"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}