{"id":2438,"date":"2022-12-31T08:42:10","date_gmt":"2022-12-31T11:42:10","guid":{"rendered":"https:\/\/profanum.com.br\/?p=923"},"modified":"2022-12-31T08:42:10","modified_gmt":"2022-12-31T11:42:10","slug":"o-vale-dos-ossos-secos-ezequiel-37-por-claudio-de-oliveira-ribeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/2022\/12\/31\/o-vale-dos-ossos-secos-ezequiel-37-por-claudio-de-oliveira-ribeiro\/","title":{"rendered":"&#8220;O vale dos ossos secos (Ezequiel 37)&#8221;, por Cl\u00e1udio de Oliveira Ribeiro"},"content":{"rendered":"\n<!--more-->\n\n\n\n<h4 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\">(\u201cM\u00e3es paralelas\u201d)<\/h4>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-small-font-size\"><blockquote><p><\/p><cite>H\u00e1 de assaltar os bares<br>De retomar as ruas<br>De visitar os lares<br>Antes que seja tarde<br>H\u00e1 de rasgar as trevas<br>E aben\u00e7oar o dia<br>E de guardar as pedras<br>Antes que seja tarde<br>Com for\u00e7a e com vontade<br>A felicidade<br>H\u00e1 de se espalhar<br>Com toda intensidade<br>Com for\u00e7a e com vontade<br>A felicidade<br>H\u00e1 de se espalhar<br>Com toda intensidade<br>H\u00e1 de deixar sementes<br>Do mais bendito fruto<br>Na terra e no ventre<br>Antes que seja tarde<br>H\u00e1 de fazer alarde<br>E libertar os sonhos<br>Da nossa mocidade<br>Antes que seja tarde<div><br>(\u201cAntes que seja tarde\u201d, <br>de Ivan Lins e Vitor Martins)<\/div><\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O filme \u201cM\u00e3es paralelas\u201d (2021), de Pedro Almod\u00f3var, \u00e9 excepcional. Sou suspeito para dizer qualquer coisa, pois gosto demais de todos (eu disse to-dos!) os filmes dele. N\u00e3o se trata de avalia\u00e7\u00e3o do conte\u00fado cinematogr\u00e1fico. \u00c9 paix\u00e3o mesmo! Gosto antes de ver. Independentemente se \u00e9 tido como de boa qualidade, breguice ou coisa que o valha. Pois bem! Eu apertei a tecla (Netflix), liguei no modo emo\u00e7\u00e3o, curti cada cena, me envolvi, entrei na tela da TV v\u00e1rias vezes e depois fui dormir com alto teor de satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">\u201cM\u00e3es paralelas\u201d trata de um monte de temas, todos complexos e que interpelam nossas vidas. Pol\u00edtica, fam\u00edlia, maternidade, feminismo, sexualidade, paix\u00f5es, compromissos, projetos de vida, afetos&#8230; O filme nos convida a pensar sobre o poder da verdade e a dificuldade de estabelec\u00ea-la como prioridade, seja no \u00e2mbito pessoal e das inter-rela\u00e7\u00f5es, seja na dimens\u00e3o macro da vida de um pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Com bel\u00edssimas interpreta\u00e7\u00f5es, a trama nos surpreende a cada instante. Prende nossa aten\u00e7\u00e3o, nos faz perceber o valor da solidariedade, dos ideais ut\u00f3picos, da import\u00e2ncia da sensibilidade humana. Tamb\u00e9m revela que a vida \u00e9 fr\u00e1gil e que deixa marcas, quase sempre profundas e doloridas. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">No envolvente enredo, duas mulheres d\u00e3o \u00e0 luz duas meninas, no mesmo dia e no mesmo hospital. Janis (Pen\u00e9lope Cruz), de meia-idade, profissional aut\u00f4noma e financeiramente independente, teve a gravidez planejada e se sente preparada e euf\u00f3rica para ser m\u00e3e. Ana (Milena Smit), adolescente, sem o amparo da fam\u00edlia, engravidou por acidente, em uma rela\u00e7\u00e3o violenta, e tem medo do que est\u00e1 por vir, al\u00e9m de arrependida e, em largo sentido, traumatizada. Ambas est\u00e3o igualmente acompanhadas por mulheres: Elena (Rossy de Palma), amiga de inf\u00e2ncia e conterr\u00e2nea de Janis, com quem compartilha a experi\u00eancia traum\u00e1tica dos antepassados mortos na guerra civil espanhola, e Teresa (Aitana S\u00e1nchez-Gij\u00f3n), m\u00e3e de Ana, que articulou a carreira de atriz sem ren\u00fancias em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 maternidade, com as consequ\u00eancias que um processo como esse usualmente possui. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">As duas enfrentam essa jornada como \u201cm\u00e3es solteiras\u201d, pois n\u00e3o t\u00eam a companhia dos pais das crian\u00e7as, e enquanto esperam pela chegada dos beb\u00eas, caminham pelos corredores do hospital, compartilhando confiss\u00f5es, desabafos e sonhos. Ao dividir n\u00e3o somente o mesmo quarto de hospital, como tamb\u00e9m esse momento intenso e significativo de suas vidas, elas, unidas pelo la\u00e7o da maternidade, constroem um v\u00ednculo profundo e complexo e esse encontro transforma a vida de ambas para sempre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Estamos diante de uma exc\u00eantrica e surpreendente hist\u00f3ria sobre dores e encantos da maternidade, sobre crises e balan\u00e7os existenciais, em especial de mulheres, e sobre a possibilidade de se resgatar e recriar o passado. Quanto aos pais, sobram poucos vest\u00edgios, seja porque est\u00e3o mortos e figuram apenas no imagin\u00e1rio, seja porque renunciaram a esse papel ou simplesmente se encontram ausentes na hist\u00f3ria dessas mulheres, que precisaram tecer redes de apoio, empoderamento e afeto entre si.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O filme tamb\u00e9m prop\u00f5e e desenvolve temas que est\u00e3o inseridos em um contexto pol\u00edtico hist\u00f3rico, a guerra civil espanhola. O bisav\u00f4 de Janis foi v\u00edtima do grupo fascista Falange Espanhola em um massacre na guerra civil, ocorrida entre 1936 e 1939, que culminou no franquismo, regime fascista que perdurou na Espanha at\u00e9 os anos de 1970. Como se sabe, apagar a hist\u00f3ria e ideologizar as narrativas s\u00e3o t\u00e1ticas adotadas por governos autorit\u00e1rios para manuten\u00e7\u00e3o do poder, embora o que \u00e9 soterrado insista em reaparecer e assombrar o presente. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Janis havia pedido ao arque\u00f3logo Arturo (Israel Elejalde) que conseguisse encontrar os restos mortais de familiares assassinados. Os dois acabaram se envolvendo amorosamente, e a rela\u00e7\u00e3o havia terminado quando Janis soube que estava gr\u00e1vida. O processo de descobertas dela, marcado por uma extraordin\u00e1ria dedica\u00e7\u00e3o na busca dos restos mortais de seu bisav\u00f4, coincide com uma trajet\u00f3ria de interioriza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica no filme. A hist\u00f3ria se desloca de Madri para o campo, e da\u00ed para debaixo da terra, onde s\u00e3o revelados os restos mortais de homens assassinados na guerra. No caminho inverso, as protagonistas do filme experimentam a vida do \u00fatero para fora, com a promessa e realiza\u00e7\u00e3o de vida onde nascem duas outras fr\u00e1geis e potentes criaturas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Foi o renomado te\u00f3logo alem\u00e3o J\u00fcrgen Moltmann que utilizou a met\u00e1fora do nascimento de uma crian\u00e7a para mostrar a a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito na vida humana e no conjunto da cria\u00e7\u00e3o. Todo ser que nasce carrega a vontade de se desenvolver. Quando a vida de uma crian\u00e7a tem in\u00edcio, seu objetivo \u00e9 agu\u00e7ar os sentidos, experimentar o novo, a luz, o ar e crescer gradativamente at\u00e9 chegar ao seu alvo. Assim, a vida que \u201cnasce do Esp\u00edrito\u201d quer se desenvolver e ganhar formato. No livro Deus na cria\u00e7\u00e3o, o autor nos diz que: <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-small-font-size\"><blockquote><p><\/p><cite>A vida que n\u00f3s dizemos que \u201crenasceu\u201d do eterno Esp\u00edrito de Deus quer crescer e ganhar forma. Nossos sentidos tamb\u00e9m renascem. Os olhos iluminados da raz\u00e3o despertam para o conhecimento de Deus, para perceber a claridade de Deus sobre a face de Cristo. A vontade libertada avalia nas diretrizes da vida suas novas for\u00e7as. O cora\u00e7\u00e3o palpitante experimenta o amor de Deus e se aquece para o amor \u00e0 vida, tornando-se vivo a partir de sua origem. (2003, p. 156)<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">As potentes mulheres protagonistas do filme, no melhor estilo Almod\u00f3var, aprendem umas com as outras que o passado precisa ser encarado, revisto, superado. \u201cTrazer \u00e0 mem\u00f3ria o que nos traz esperan\u00e7a\u201d, como na mensagem b\u00edblica. N\u00e3o se trata meramente de desenterrar cad\u00e1veres. O que eles precisam, mesmo, \u00e9 tornarem a viver em novos corpos vivos (desculpem-me pelo spoiler).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Tal vis\u00e3o pode fazer emergir uma espiritualidade que realce as possibilidades de afirma\u00e7\u00e3o do corpo, tanto em seu poder er\u00f3tico como em seu poder criativo de dar a vida e de ser fonte de cura e de liberta\u00e7\u00e3o. Tempos atr\u00e1s, achei no exemplar do livro <em>Varia\u00e7\u00f5es sobre a vida e a morte<\/em> (1982), de Rubem Alves, que tenho em casa, um pequeno texto do pr\u00f3prio livro que transcrevi na dedicat\u00f3ria que havia feito para a minha namorada na \u00e9poca:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-small-font-size\"><blockquote><p><\/p><cite>Ao corpo, entretanto, interessa a sapi\u00eancia,<br>conhecimento que tem bom gosto,<br>porque o corpo avalia com o amor e o prazer,<br>e n\u00e3o com a intelig\u00eancia desencarnada.<br>E \u00e9 aqui que mora o te\u00f3logo,<br>no lugar onde a palavra \u00e9 corpo, poder, entidade do mundo material,<br>chave que abre e fecha, agulha que costura as partes do mundo.<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">No enredo do filme, as gera\u00e7\u00f5es se encontram, com os seus perfis variados, com valores, corpos e narrativas distintas. Tamb\u00e9m diferentes n\u00edveis sociais est\u00e3o presentes, com as interpreta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que lhes s\u00e3o cab\u00edveis. Aliena\u00e7\u00e3o e compromisso pol\u00edtico, possibilidades e sonhos, vazios e completudes, verdades e mentiras. N\u00e3o \u00e9 diferente do contexto brasileiro. A interpreta\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria representa enormes desafios para a juventude (no filme e na vida, incluindo a nossa). Para a felicidade e o empoderamento das mulheres, tamb\u00e9m. \u201c&#8230; \u00c9 um dom, uma certa magia, uma for\u00e7a que nos alenta\u201d, como na can\u00e7\u00e3o de Milton Nascimento.  <\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":925,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[18,19,48,21,26,30,47],"tags":[56,83,160,204,211],"class_list":["post-2438","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cidadania-e-direitos-humanos","category-claudio-de-oliveira-ribeiro","category-cultura-cultura","category-cultura","category-moralidade","category-genero-feminismo-e-sexualidade","category-teologia","tag-almodovar","tag-cinema","tag-genero","tag-memoria","tag-mulheres"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2438"}],"collection":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2438"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2438\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2438"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2438"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2438"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}