{"id":2441,"date":"2023-01-23T03:53:35","date_gmt":"2023-01-23T06:53:35","guid":{"rendered":"https:\/\/profanum.com.br\/?p=977"},"modified":"2023-01-23T03:53:35","modified_gmt":"2023-01-23T06:53:35","slug":"o-discurso-de-hereamuu-quando-a-boca-perde-o-medo-fala-ao-homem-branco-por-jil-soares","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/2023\/01\/23\/o-discurso-de-hereamuu-quando-a-boca-perde-o-medo-fala-ao-homem-branco-por-jil-soares\/","title":{"rendered":"&#8220;O discurso de Hereamuu: Quando a boca perde o medo. Fala ao Homem Branco&#8221;, por Jil Soares"},"content":{"rendered":"\n<!--more-->\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O mito cosmog\u00f4nico da tradi\u00e7\u00e3o Yanomami \u00e9 aquele que trabalha na carpintaria da origem e forma\u00e7\u00e3o do mundo, se mescla ao mito teol\u00f3gico na interpreta\u00e7\u00e3o do nascimento, das hist\u00f3rias, dos casamentos e genealogia dos deuses, reverberando no mito antropog\u00f4nico, que se ocupa da an\u00e1lise narrativa da cria\u00e7\u00e3o do Homem, como podemos observar a seguir:  <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-small-font-size\"><blockquote><p><\/p><cite>Foi  Omama  que  criou  a  terra  e  a  floresta,  o  vento  que  agita  suas folhas e  os  rios cuja \u00e1gua bebemos. Foi ele que nos deu a vida e nos fez muitos (KOPENAWA, Davi. A Queda do C\u00e9u: Palavras de um Xam\u00e3 Yanomami, 2015).<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Com sua alegoria m\u00edtica profusa de atemporalidades, que se (re)constr\u00f3i a partir dos relatos orais transmitidos por anci\u00e3os \u00e0 tribo Yanomami, como forma de perpertuamentos dos c\u00f3digos sociais, morais e sagrados, na tentativa de manter o equil\u00edbrio ancestral de seu povo, a mitologia Yanomami se fortalece na diacronia cultural que atravessa gera\u00e7\u00f5es, e se ressignifica frente \u00e0s adversidades impostas atrav\u00e9s dos reflexos da l\u00f3gica colonial\/capitalista e de suas ila\u00e7\u00f5es na hist\u00f3ria, como refra\u00e7\u00e3o seletiva na contemporaneidade por meio do garimpo ilegal e do acometimento de apagamentos das suas mem\u00f3rias por meio da usurpa\u00e7\u00e3o de suas perten\u00e7as materiais e imateriais. Em sua obra intitulada &#8220;A queda do c\u00e9u: Palavras de um Xam\u00e3 Yanomami&#8221;, Davi Kopenawa tece um dos Testamentos mais urgentes que se soma a muitos outros na atualidade. Ele relata o cen\u00e1rio das pol\u00edticas contempor\u00e2neas e a produ\u00e7\u00e3o das epistemologias indigenistas enquanto den\u00fancia de repara\u00e7\u00e3o\/restitui\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de suas terras, tradi\u00e7\u00f5es e mem\u00f3rias; livro com forte \u00eanfase na revela\u00e7\u00e3o da cosmogonia oral Yanomami e sua import\u00e2ncia frente \u00e0s lutas relacionadas aos retrocessos legais que t\u00eam se apresentado e perpetuado no atual contexto do pa\u00eds, desde os prim\u00f3rdios da coloniza\u00e7\u00e3o dos europeus e consequentemente da heran\u00e7a enraizada e disseminada atrav\u00e9s de suas violentas expolia\u00e7\u00f5es em terras ind\u00edgenas brasileiras, que encontrou terreno f\u00e9rtil \u00e0 continuidade das expropria\u00e7\u00f5es por meio de ideologias desenvolvimentistas, sob a \u00e9gide da grilagem ancestral por interm\u00e9dio da religi\u00e3o judaico-crist\u00e3 e do poder aliciador e sedutor do agroneg\u00f3cio (que atua inclusive na coopta\u00e7\u00e3o de alguns l\u00edderes ind\u00edgenas, como parte estrat\u00e9gica dos planos de explora\u00e7\u00e3o, mortes e desmatamentos de seus pr\u00f3prios povos e terras) no mercado em expans\u00e3o da garimpagem. Um dos pontos que torna o livro extremamente necess\u00e1rio e \u00e0 frente do tempo \u00e9 o seu discurso, permeado de zonas pacifistas e, de algum modo, conciliadoras em sinal de alerta \u00e0 humanidade, quando diz que: <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-small-font-size\"><blockquote><p><\/p><cite>[&#8230;] Ent\u00e3o morreremos, um atr\u00e1s do outro, tanto os brancos quanto n\u00f3s. Todos os xam\u00e3s v\u00e3o acabar morrendo. Quando n\u00e3o houver mais nenhum deles vivo para sustentar o c\u00e9u, ele vai desabar. (KOPENAWA, 2015, p. 08.)<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Mesmo que na eventualidade o homem branco\/nap\u00ea, seja o ponto nevr\u00e1lgico de toda a quimera m\u00edtica enunciada nos postulados da maioria dos povos aut\u00f3ctones, \u00e0s consequ\u00eancias advindas da destrui\u00e7\u00e3o do planeta, atingir\u00e1 a todos, ainda que de maneira gradual, sem exce\u00e7\u00e3o. Embora este &#8220;homem branco&#8221; esteja forjado sob a m\u00e1scara da &#8220;Rostidade&#8221; tecnocientificista, ainda assim, lhes faltar\u00e1 meios para que os ep\u00f4nimos por eles impostos \u00e0s civiliza\u00e7\u00f5es dominadas fabriquem novas &#8220;Arcas de No\u00e9&#8221; ou bunkers, como tautologias contempor\u00e2neas de perpetuamentos de si. Seriam essas suas novas soteriologias p\u00f3s modernas como estrat\u00e9gia de reden\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Esta aporia filos\u00f3fica da cosmogonia Yanomami, da qual Kopenawa se utiliza para falar aos nap\u00eas (inimigos, forasteiros) tem devorado por meio do inc\u00f4modo apresentado de suas falas, atrav\u00e9s de amea\u00e7as de morte, por munir os seus enunciados de mai\u00eautica imanente &#8220;Hereamuu&#8221; ao homem branco tecnocrata, confundindo toda esta classe que por muito tempo disseminou ao mundo a ideia de evolu\u00e7\u00e3o e progresso promulgada pelas m\u00e1quinas que ainda se fazem colonizadoras na nossa sociedade, ao que ele reitera e qualifica, quando diz:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-small-font-size\"><blockquote><p><\/p><cite>Para ser capaz de proferir discursos em hereamuu com firmeza, \u00e9 preciso conseguir a imagem do gavi\u00e3o K\u00e3oK\u00e3oma, que tem uma voz potente.  (KOPENAWA, 2015. p. 381.)<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Este C\u00e9u em constante desabamento vertical do qual somos alertados, tem golpeado \u00e0 humanidade e devolvido \u00e0 ela por interm\u00e9dio de uma rebeldia molecular, as imagens assombrosas das a\u00e7\u00f5es facistas que persistem e isistem em desertificar nossa hist\u00f3ria. Pois o homem branco quer nos fazer acreditar que tudo que \u00e9 anterior \u00e0 Idade da Ci\u00eancia \u00e9 desprovido de Raz\u00e3o. Sendo assim de f\u00e1cil aplicabilidade tamb\u00e9m nos fazer crer que toda exist\u00eancia que n\u00e3o esteja comungada com os postulados do discurso judaico-crist\u00e3o \u00e9 proveniente das trevas, da testa de L\u00facifer (paradoxal). Pois s\u00f3 o seu mito fundante ou alegoria m\u00edtica \u00e9 detentora e balizadora de &#8220;Verdades Prof\u00e9ticas&#8221; &#8211;  Eis o projeto Deca\u00eddo do  Engendrado Complexo de Ad\u00e3o. Ser\u00e1 que diante de tudo que temos visto e experi\u00eanciado na agoridade, por meio da potente mundializa\u00e7\u00e3o do capital: Crise alimentar, escassez dos recursos naturais, vulnerabilidades econ\u00f4micas, a crescente retomadas de conflitos mundiais, pandemias etc. seremos capazes de nos superar enquanto esp\u00e9cie e resgatar o nosso devir ancestral na tentativa de remontar as Sobrecodificac\u00f5es do Desejo na manifesta\u00e7\u00e3o do cotidiano, assim como proposto pelas culturas ancestrais das Sociedades Origin\u00e1rias, em que a dan\u00e7a, a m\u00fasica, a elabora\u00e7\u00e3o das express\u00f5es art\u00edsticas dos signos no corpo, nos objetos no ch\u00e3o, se encontravam intimamente imiscuidas \u00e0s atividades rituais\/lit\u00fargicas das representa\u00e7\u00f5es religiosas. A queda do C\u00e9u de Davi Kopenawa \u00e9 mais uma ferramenta que nos possibilita dialogar com o Passado Inobserv\u00e1vel que se faz e acontece de modo diacr\u00f4nico, se refazendo no agora, articulando tradi\u00e7\u00e3o, oralidade e ancestralidade em meio a tanta arbitrariedade teol\u00f3gica com suas imposi\u00e7\u00f5es fundamentalistas. Tendo em vista como foco principal, atenuar corpos que est\u00e3o em constantes conflitos de interesses nesta busca por Perman\u00eancias de Esp\u00edrito no mundo tal qual habitamos. Fato que me remete a um trecho de um artigo de Nicole Brenez (&#8220;O Estado do Cinema&#8221;, 2021), em que a autora diz: <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-small-font-size\"><blockquote><p><\/p><cite>[&#8230;] Como humanos, n\u00f3s (ou a maioria) estamos conscientes de que a humanidade, e em particular a sua parte ocidental, provou ser a esp\u00e9cie mais t\u00f3xica, predadora e absolutamente louca do Planeta Terra, ao ponto de destruir seu pr\u00f3prio habitat &#8211; a natureza, o recurso inesgot\u00e1vel de encontros dignos de comunica\u00e7\u00e3o sem palavras. (BRENEZ, Nicole, 2021).<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Dessa forma penso que, se o limite n\u00e3o acontecer por meio da a\u00e7\u00e3o humana, a pr\u00f3pria natureza se incubir\u00e1 de nos refrear mesmo que sob a queda vertiginosa do c\u00e9u. Eis o germe de nossa pr\u00f3pria ru\u00edna! <\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[18,26,33],"tags":[129,156,176,212,216,301,302],"class_list":["post-2441","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cidadania-e-direitos-humanos","category-moralidade","category-jil-soares","tag-escatologia","tag-fim-do-mundo","tag-humanidade","tag-mundo","tag-natureza","tag-xama","tag-yanomami"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2441"}],"collection":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2441"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2441\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2441"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2441"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2441"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}