{"id":2443,"date":"2023-02-23T09:28:50","date_gmt":"2023-02-23T12:28:50","guid":{"rendered":"https:\/\/profanum.com.br\/?p=1008"},"modified":"2023-02-23T09:28:50","modified_gmt":"2023-02-23T12:28:50","slug":"quando-a-religiao-e-um-mal-por-delcides-marques","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/2023\/02\/23\/quando-a-religiao-e-um-mal-por-delcides-marques\/","title":{"rendered":"&#8220;Quando a religi\u00e3o \u00e9 um mal&#8221;, por Delcides Marques"},"content":{"rendered":"\n<!--more-->\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">H\u00e1 muitas pessoas que testemunham mudan\u00e7a de vida devido a alguma experi\u00eancia religiosa. Desde v\u00edcios superados a mal-caratismo transformado, passando por sucesso financeiro e restaura\u00e7\u00e3o familiar, os casos narrados s\u00e3o diversos e significativos. Inquestionavelmente, a religi\u00e3o pode produzir experi\u00eancias fundantes e um renovado sentido de exist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Mas h\u00e1 situa\u00e7\u00f5es em que a religi\u00e3o pode ser uma p\u00e9ssima escolha. Para tanto, vou me concentrar no p\u00fablico evang\u00e9lico, que conhe\u00e7o bem. Como h\u00e1 igreja para todo gosto, h\u00e1 gosto para toda igreja. E a conflu\u00eancia desses gostos nem sempre \u00e9 ben\u00e9fica (ou gostosa, para n\u00e3o perder o trocadilho). A conjun\u00e7\u00e3o entre certos adeptos e igrejas pode produzir pessoas delirantes ou perigosas. Nesses casos, a religi\u00e3o produz ou agrava o mal que deveria combater. Vejamos alguns tipos de pessoas cujo encontro religioso de tornou pernicioso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Pessoas que associam espiritualidade a exibicionismo. Quanto mais espetacular a performance, mais haveria ali sinais de santidade. Decorre disso um sem-n\u00famero de simula\u00e7\u00f5es e fingimentos p\u00fablicos para sugerir uma manifesta\u00e7\u00e3o sagrada. Algumas vezes, em forma de pulos, gritos e glossolalia. O que importa \u00e9 que os outros me vejam expressando o divino com certos trejeitos, frases, vestimentas e movimentos corporais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Pessoas que dizem uma coisa e fazem outra. Normalmente o dito \u00e9 p\u00fablico e o feito \u00e9 escondido, como se isso n\u00e3o fizesse diferen\u00e7a, e como se o pr\u00f3prio divino defendido n\u00e3o existisse e soubesse de todas as coisas; s\u00e3o os ateus pr\u00e1ticos. E mesmo quando agem em p\u00fablico, as inten\u00e7\u00f5es s\u00e3o escusas. S\u00e3o exemplos de que a apar\u00eancia \u00e9 mais importante que a ess\u00eancia: quem parece ser \u00e9 mais prestigiado do aquele que n\u00e3o parece, mas \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Pessoas que vivem em desacordo com os pr\u00f3prios princ\u00edpios da f\u00e9 e do amor. Muitos, inspirados nos exemplos de seus l\u00edderes, fingem n\u00e3o haver qualquer inconveniente quando apregoam o \u00f3dio, a vingan\u00e7a e o desprezo pelo pr\u00f3ximo. Algumas vezes defendem a tortura ou o torturador, mas nunca o Torturado. Assim, e cultivando valores invertidos, vivem num auto-engano falacioso e improdutivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Pessoas fan\u00e1ticas que n\u00e3o aceitam dialogar com outras cren\u00e7as. \u00c0s vezes at\u00e9 dissimulam interesse, mas a m\u00e1scara logo cai. Na verdade, n\u00e3o aprendem a desenvolver o equil\u00edbrio necess\u00e1rio e seguem alimentando a ignor\u00e2ncia sobre formas diferentes de crer. Tudo o que n\u00e3o \u00e9 do meu c\u00edrculo \u00e9 do dem\u00f4nio. E a nega\u00e7\u00e3o do outro segue sendo a t\u00f4nica desse anti-cristianismo disfar\u00e7ado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Pessoas violentas que encontram na religi\u00e3o uma forma de justificar suas maldades. Em muitos casos, se valem de argumentos doutrin\u00e1rios (e at\u00e9 de textos b\u00edblicos) para perseguir, silenciar e oprimir outras pessoas. Mormente, ao atribuir ao outro a condi\u00e7\u00e3o pecaminosa, sentem-se no direito de condenar qualquer diferen\u00e7a e maltratar o outro, quando n\u00e3o fisicamente, com outras formas de viol\u00eancia, como a verbal. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Pessoas que aprendem a repetir discursos, comumente ouvidos nos p\u00falpitos, ou por gurus virtuais, sem conseguir distinguir entre a palavra sagrada e a fala manipulada por esses auto-intitulados representantes da vontade de divina. Sem a capacidade de discernir os falsos pastores, d\u00e3o ouvidos a qualquer um que fale em nome de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Pessoas que possuem uma imagem desfigurada de pai. Elas acabam projetando na divindade os mesmos comportamentos apreendidos em casa, o que inclui  puni\u00e7\u00f5es e medos, tudo em nome de uma pretensa educa\u00e7\u00e3o paterna castradora e intimidadora. Constitui-se uma vida religiosa marcada por termos como inferno, ira, ju\u00edzo e castigo divinos. E uma express\u00e3o representa essa vil concep\u00e7\u00e3o: &#8220;a m\u00e3o de Deus vai pesar&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Pessoas que n\u00e3o conseguem fazer leitura cr\u00edtica dos textos sagrados. Com isso, replicam trechos convencionais decorados com a finalidade hip\u00f3crita de evidenciar espiritualidade ou conhecimento hermen\u00eautico, mas \u00e9 tudo fr\u00e1gil, repisado e superficial. Aprendem que repetir \u00e9 melhor que ler e pensar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Pessoas que se tornam especialistas em julgar os outros, mas s\u00e3o incapazes de auto-cr\u00edtica, pois se v\u00eaem como basti\u00f5es da verdade, at\u00e9 porque, se vissem seus pr\u00f3prios trope\u00e7os, n\u00e3o teriam tanta implic\u00e2ncia com os deslizes dos outros. Isso produz r\u00e9guas morais que s\u00f3 valem para as outras pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Pessoas que associam sucesso (mormente financeiro) \u00e0 ben\u00e7\u00e3o divina. O capitalismo passa a ser o credo religioso desses fi\u00e9is que entendem que o dinheiro deve ser buscado acima de tudo e como sinal de um fiel aben\u00e7oado. E vale tudo (at\u00e9 a injusti\u00e7a) pela riqueza, enquanto a pobreza \u00e9 ind\u00edcio de falta de f\u00e9 ou resultante de algum pecado. Assim, o pobre, al\u00e9m de lascado, \u00e9 tamb\u00e9m culpado de sua pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o, pois lhe falta &#8220;deus&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Pessoas que boicotam a si mesmas em nome de regras e proibi\u00e7\u00f5es infundadas, que s\u00f3 produzem culpa, ressentimento e ang\u00fastia naqueles que aderem a elas. A pris\u00e3o de tais costumes criados com certos interesses, s\u00e3o muitas vezes datados (mas tratados como atemporais), e outras tantas vezes convenientes apenas para uns poucos (uma seletividade vantajosa para l\u00edderes, homens, brancos, bem-sucedidos etc.), coincidentemente os mesmos que s\u00e3o detentores do poder de criar as determina\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Pessoas que distinguem tudo por meio de um moralismo dualista inconsequente entre o pode e n\u00e3o pode, o fa\u00e7a e n\u00e3o fa\u00e7a, a ordem e a proibi\u00e7\u00e3o. Cria-se uma oposi\u00e7\u00e3o cosmol\u00f3gica que n\u00e3o permite cultivar emancipa\u00e7\u00e3o, autonomia e liberdade pessoal respons\u00e1vel, apenas a submiss\u00e3o e a hierarquiza\u00e7\u00e3o do mando autorit\u00e1rio. Produz-se uma religi\u00e3o onde as consci\u00eancias individuais s\u00e3o guiadas por outros, alguns dos quais sem consci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Pessoas insens\u00edveis com a dor alheia. Como se o discurso que atribui a Deus todo o sofrimento humano fosse suficiente. Como se bastasse dizer que Deus est\u00e1 provando (ou repreendendo). Como se fosse da vontade divina o infort\u00fanio, sem qualquer consolo, compaix\u00e3o e empatia. E como se o pr\u00f3prio divino fosse impiedoso e indiferente ao drama humano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Nesses e em muitos outros casos, o encontro entre certas pessoas e determinadas propostas religiosas produz danos pessoais e coletivos incomensur\u00e1veis. Aqui a religi\u00e3o funciona potencializando a maldade, o sofrimento e o preconceito, o que s\u00f3 torna mais dif\u00edcil o desenvolvimento de um espiritualidade interessante,  a prop\u00f3sito dos pr\u00f3prios valores crist\u00e3os.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[18,24,26,39],"tags":[69,113,140,183,185,253,295],"class_list":["post-2443","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cidadania-e-direitos-humanos","category-delcides-marques","category-moralidade","category-linguagem","tag-biblia","tag-diferenca","tag-evangelicos","tag-igreja","tag-intolerancia","tag-religiao","tag-valores-cristaos"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2443"}],"collection":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2443"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2443\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2443"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2443"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2443"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}