{"id":2449,"date":"2023-04-03T11:40:26","date_gmt":"2023-04-03T14:40:26","guid":{"rendered":"https:\/\/profanum.com.br\/?p=1056"},"modified":"2023-04-03T11:40:26","modified_gmt":"2023-04-03T14:40:26","slug":"sobre-bordados-empoderamentos-e-construcao-do-futuro-impressoes-sobre-o-filme-entre-mulheres-por-joana-bahia-e-claudio-ribeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/2023\/04\/03\/sobre-bordados-empoderamentos-e-construcao-do-futuro-impressoes-sobre-o-filme-entre-mulheres-por-joana-bahia-e-claudio-ribeiro\/","title":{"rendered":"&#8220;Sobre bordados, empoderamentos e constru\u00e7\u00e3o do futuro: impress\u00f5es sobre o filme &#8216;Entre mulheres'&#8221;, por Joana Bahia e Claudio Ribeiro*"},"content":{"rendered":"\n<!--more-->\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Em dias e locais diferentes, assistimos ao bel\u00edssimo filme \u201cEntre Mulheres\u201d, um dos indicados para o Oscar de 2023. Nossas impress\u00f5es, no entanto, se cruzaram em muitos caminhos, e parte delas, expressamos aqui. N\u00e3o nos resta d\u00favidas de que o filme nos despertou mais perplexidades do que palavras, mas elas ficaram borbulhando dentro de n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Dirigido por Sarah Polley, o longa nos mostra as tens\u00f5es vividas por um grupo de mulheres moradoras em uma comunidade rural do segmento crist\u00e3o menonita, isolada em um dos confins dos Estados Unidos. Elas s\u00e3o v\u00edtimas de crimes sexuais cometidos por homens da pr\u00f3pria comunidade. O enredo exibe as conversas realizadas por um grupo das mulheres nomeado para tomar decis\u00f5es, que deveriam ser acordadas em um curt\u00edssimo espa\u00e7o de tempo, quanto ao que fazer diante daquele quadro de viol\u00eancia. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">A vota\u00e7\u00e3o feita por aquelas mulheres acaba por apontar duas dif\u00edceis escolhas: ou deixam a comunidade, que era tudo o que elas conheciam at\u00e9 ent\u00e3o em suas vidas, ou ficam e lutam para mudar aquele quadro sombrio. Ficar, significaria enfrentar a cumplicidade de quase todos os homens, pois, eles, at\u00e9 mesmo, haviam pago a fian\u00e7a dos agressores que foram identificados e presos. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">No pano de fundo da tomada de decis\u00e3o, um elemento existencial e religioso profundo para a estrutura\u00e7\u00e3o da vida daquelas mulheres est\u00e1 presente: a possibilidade de conceder o perd\u00e3o. Na formalidade de suas f\u00e9s, inculcadas na trajet\u00f3ria e no cotidiano, ou elas perdoam os seus agressores ou ter\u00e3o de arriscar a perdi\u00e7\u00e3o eterna.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Como s\u00e3o analfabetas, elas desenham as situa\u00e7\u00f5es em que vivem, e, nos tra\u00e7os, todas as nuances da situa\u00e7\u00e3o aparecem. A vota\u00e7\u00e3o sobre o que fazer empata e \u00e9 a\u00ed que t\u00eam in\u00edcio as longas e inquietantes conversas em um paiol. S\u00e3o camponesas, menonitas, e para elas, o celeiro \u00e9 o plen\u00e1rio, a assembleia, lugar de tomada de decis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Para viabilizar esse dif\u00edcil e angustiante processo s\u00e3o escolhidas entre elas representantes de tr\u00eas fam\u00edlias para conversarem, refletirem sobre todas as consequ\u00eancias poss\u00edveis e apresentarem \u00e0s demais do grupo a decis\u00e3o mais adequada. O clima dos di\u00e1logos \u00e9 tenso, emocionante e repleto de gestos e simbolismos. Nele se destacam as irm\u00e3s Salom\u00e9 (Claire Foy) e Ona (Rooney Mara), Mariche (Jessie Buckley), sempre com uma vis\u00e3o muito cr\u00edtica e c\u00e9tica, e as mulheres de mais idade, Agata (Judith Ivey) e Greta (Sheila McCarthy), que guardam os elementos da doutrina religiosa e da longa trajet\u00f3ria de sofrimento naquela isolada comunidade. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O que se segue s\u00e3o conversas abertas, francas e inspiradoras, que se movem entre a f\u00e9, valiosa para elas, a ordena\u00e7\u00e3o do mundo e o justo desejo por uma vida segura e livre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Na aus\u00eancia dos homens, as mulheres falam (<em>Women Talking<\/em>, esta express\u00e3o no ingl\u00eas, \u00e9 justamente o nome original do filme!). Elas revelam os seus sonhos, discutem como coloc\u00e1-los em pr\u00e1tica, se potencializam para expressar o desejo de construir o futuro para elas mesmas, para as filhas e, tamb\u00e9m, para os filhos; o que abre um leque rico de reflex\u00e3o sobre o que fazer com os meninos, caso elas decidissem partir. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Fora do protagonismo, e mesmo da quase totalidade das cenas do filme, est\u00e3o os homens. A exce\u00e7\u00e3o \u00e9 a presen\u00e7a sens\u00edvel e solid\u00e1ria de August (Ben Wishaw), um professor da comunidade, convidado pelas mulheres para registrar as decis\u00f5es a serem tomadas, uma vez que elas n\u00e3o sabiam ler ou escrever.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">No filme temos um ir e vir no tempo. A viol\u00eancia sofrida n\u00e3o as det\u00e9m ao tempo presente do corpo dolorido, violentado pelos homens da aldeia. Por\u00e9m, a projetam para o passado e o futuro como um p\u00eandulo. Decidem sobre o ato de ficar ou sobre o ato de partir, e os exp\u00f5em como tempos paradoxais. Ficar tem consequ\u00eancias tanto quanto partir. Nada \u00e9 simples. Viver o presente sem agir \u00e9 insuport\u00e1vel, mas, para partir, se faz necess\u00e1rio pensar futuros. Tudo muito complexo e perigoso!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">A viol\u00eancia aparece nos corpos exaustos, roxos, sem dentes, violentados e for\u00e7osamente gr\u00e1vidos. Todos os corpos est\u00e3o l\u00e1, e junto os seus medos, ins\u00f4nias, tremores e as marcas da viol\u00eancia est\u00e3o ali entre as mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Aqui, na costura destas palavras, reunimos os nossos olhares e as impress\u00f5es que tivemos deste magn\u00edfico filme. Um olhar \u00e9 de mulher, Joana: &#8220;Quando vi \u2018Entre mulheres\u2019, eu tive a mesma sensa\u00e7\u00e3o de quando li <em>Bordado<\/em> (Editora Companhia das Letras, 2010) de Marjane Satrapi, artista iraniana, residente na Fran\u00e7a. Pensei como fazer costuras de momentos femininos em que a viol\u00eancia afeta. Em minha mente, estavam as mudan\u00e7as que afetam as vidas femininas e que possibilitam as reuni\u00f5es e os debates para ver o que fazer a partir dessas experi\u00eancias&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O livro <em>Bordado<\/em> mostra, em quadrinhos, como as mulheres iranianas bordavam suas hist\u00f3rias e faziam da arte de cozer um modo de compartilhar experi\u00eancias. Muitas delas \u00edntimas e dolorosas. Logo ap\u00f3s o almo\u00e7o, elas se reuniam em torno do <em>samovar<\/em>, o tradicional bule de ch\u00e1 iraniano, para se entregarem a arte da conversa. Sentar-se em torno de si mesmas, \u00e9 vasculhar as experi\u00eancias de vida em momentos de grandes mudan\u00e7as, sejam pessoais, sejam hist\u00f3rico-sociais. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">\u00c9 bom lembrar que \u201cbordado\u201d n\u00e3o \u00e9 apenas uma costura imagin\u00e1ria, mas \u00e9 tamb\u00e9m o nome dado a cirurgia de reconstru\u00e7\u00e3o do h\u00edmen. Muitas mulheres n\u00e3o esperam at\u00e9 se casarem para dar in\u00edcio a vida sexual. Entretanto, como, no Ir\u00e3, \u00e9 esperado que as mulheres se mantenham virgens at\u00e9 o casamento, quando desejam se casar ou s\u00e3o obrigadas a tal, as mulheres que j\u00e1 iniciaram sua vida sexual optam pela cirurgia para serem \u201caceitas\u201d em matrim\u00f4nio. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Outros bordados atravessam a hist\u00f3ria deste livro. A pr\u00f3pria Sartrapi, a autora, sua experi\u00eancia de vida no Ir\u00e3, as mudan\u00e7as de regimes que afetaram in\u00fameras gera\u00e7\u00f5es de mulheres tamb\u00e9m lhe moldaram sua viv\u00eancia migrat\u00f3ria, e tamb\u00e9m a arte como <em>modus operandi<\/em> pol\u00edtico. O livro <em>Bordado<\/em> \u00e9 um cartoon leve, denso e politizado, sendo exemplar na sua singularidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Outro olhar, convergente, \u00e9 de homem, Claudio: &#8220;Esse filme me trouxe marcas profundas&#8230; Por diversas vezes, tentando me enganar, achei que eu era August, o professor, com sua postura sens\u00edvel e solid\u00e1ria ao sofrimento daquelas mulheres. Ledo engano. Por\u00e9m, mesmo assim, vibrei com o empoderamento daquelas mulheres, invejei a sabedoria que brotava de suas palavras e gestos. Tudo muito humano!  O que foi, para mim, autenticamente divino. Elas, nos embates da vida, nas limita\u00e7\u00f5es e na potencialidade, reinterpretaram as doutrinas e os textos b\u00edblicos que compunham a sua hist\u00f3ria e cotidiano. Releitura m\u00e1gica e comovente. Quando elas, envoltas nos dram\u00e1ticos dilemas, recitaram a B\u00edblia para lembrar da recomenda\u00e7\u00e3o de que \u201ctudo o que \u00e9 verdadeiro, tudo o que \u00e9 nobre, tudo o que \u00e9 justo, tudo o que \u00e9 puro, tudo o que \u00e9 am\u00e1vel, tudo o que \u00e9 de boa fama, se h\u00e1 alguma virtude, e se h\u00e1 algum louvor, seja esse o seu pensamento\u201d (Filipenses 4.8) eu, costurando o meu passado e o meu presente, tremi por dentro. Assim, fui, nas propositais escuras cenas do filme, tamb\u00e9m revendo os meus valores e bordando os meus sonhos&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Bordar \u00e9 tamb\u00e9m um ato afetivo e pol\u00edtico. Ele re\u00fane gera\u00e7\u00f5es, intimidades, e nos faz pensar o que podemos dizer nos nossos pr\u00f3prios desenhos. Costurar, bordar, alinhavar s\u00e3o formas de pensar o mundo. Ponto cruz, ziguezagues e entremeios, e outras pondera\u00e7\u00f5es das a\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas tamb\u00e9m s\u00e3o coisas que trazemos nas a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Bordados tamb\u00e9m nos levam \u00e0 pr\u00f3pria Am\u00e9rica Latina, nosso ch\u00e3o. Eles se d\u00e3o na pr\u00e1tica transgressora da <em>arpillera<\/em>, arte t\u00eaxtil presente na tradi\u00e7\u00e3o chilena, das bordadeiras da Ilha Negra. Sobras s\u00e3o bordadas em sacos de batatas e farinhas. A poetisa chilena Violeta Parra dizia que uma <em>arpillera<\/em> \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o bordada. Por conta dessa arte, as mulheres chilenas registraram as hist\u00f3rias do tempo sombrio e violento da ditadura de Pinochet. E quem n\u00e3o se lembra das bordadeiras de Timba\u00faba dos Batistas, no Rio Grande do Norte, que tecem os seus sonhos, buscam a autonomia e n\u00e3o se esquecem da democracia? <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">E mais uma vez ecoa para n\u00f3s os versos de Violeta Parra, como em \u201cVolver aos 17\u201d:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-small-font-size\"><blockquote><p><\/p><cite>Lo que puede el sentimiento no lo ha podido el saber <br>Ni el m\u00e1s claro proceder, ni el m\u00e1s ancho pensamiento <br>Todo lo cambia al momento cual mago condescendiente <br>Nos aleja dulcemente de rencores y violencias<br>Solo el amor con su ciencia nos vuelve tan inocentes.<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">E o filme, al\u00e9m de nos encantar, nos deixou in\u00fameras e arrojadas perguntas: <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Em que medida o que nos foi feito tamb\u00e9m constituiu parte de nossas a\u00e7\u00f5es? <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Como ter uma educa\u00e7\u00e3o para o futuro? Como nos educarmos, e como educarmos nossos filhos e nossas filhas? Em que grau educar \u00e9 um ato de amor e f\u00e9? <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Em que medida o perd\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio? E, para al\u00e9m disso, quando ele \u00e9 libertador e quando e como ele pode ser confundido com permissividade?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">E se as mulheres partirem [no filme e na vida!], como os homens se reinventam? Como eles despertar\u00e3o para uma outra consci\u00eancia?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Quando falaremos autenticamente de nossos traumas, nossos desejos e nossa percep\u00e7\u00e3o de futuro?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">H\u00e1, pela frente, muitas madrugadas pelos &#8220;celeiros&#8221; da vida&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">* Joana Bahia \u00e9 antrop\u00f3loga e Claudio Ribeiro \u00e9 teol\u00f3go. Ambos buscam tecer a amizade, s\u00e3o amantes do cinema e se dedicam aos estudos de religi\u00e3o. <\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[19,48,21,26,30,34],"tags":[72,83,160,211,299],"class_list":["post-2449","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-claudio-de-oliveira-ribeiro","category-cultura-cultura","category-cultura","category-moralidade","category-genero-feminismo-e-sexualidade","category-joana-bahia","tag-bordado","tag-cinema","tag-genero","tag-mulheres","tag-violencia"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2449"}],"collection":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2449"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2449\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2449"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2449"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2449"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}