{"id":2450,"date":"2023-04-12T08:05:09","date_gmt":"2023-04-12T11:05:09","guid":{"rendered":"https:\/\/profanum.com.br\/?p=1074"},"modified":"2023-04-12T08:05:09","modified_gmt":"2023-04-12T11:05:09","slug":"memoria-e-resistencia-quando-um-pastor-e-um-guerrilheiro-se-encontram-por-claudio-ribeiro-e-magali-cunha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/2023\/04\/12\/memoria-e-resistencia-quando-um-pastor-e-um-guerrilheiro-se-encontram-por-claudio-ribeiro-e-magali-cunha\/","title":{"rendered":"&#8220;Mem\u00f3ria \u00e9 resist\u00eancia! Quando um pastor e um guerrilheiro se encontram&#8221;, por Claudio Ribeiro e Magali Cunha*"},"content":{"rendered":"\n<!--more-->\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O que um pastor evang\u00e9lico, que nunca se meteu em pol\u00edtica, e um guerrilheiro, que confrontava uma ditadura, podem ter em comum? \u00c9 de um encontro inusitado, permeado de tens\u00f5es com cheiro de morte e de sublimes emo\u00e7\u00f5es, que brotam respostas, definitivamente muito longe do \u201cnada\u201d a que somos tentados a dizer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O cen\u00e1rio deste encontro \u00e9 um dos por\u00f5es onde presos sofriam as mais cru\u00e9is torturas durante a ditadura militar, vivida por 21 anos no Brasil. Conhecer a instigante hist\u00f3ria, narrada pelo filme \u201cO pastor e o guerrilheiro\u201d, dirigido por Jos\u00e9 Eduardo Belmonte, \u00e9 um mergulho nesta mem\u00f3ria que cada vez mais nos ajuda a entender o presente. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O longa \u00e9 baseado em uma hist\u00f3ria real, narrada no livro \u201cAraguaia: relatos de um guerrilheiro\u201d, de Gl\u00eanio S\u00e1 (Editora Anita Gabibaldi, 2004). A trama envolve tr\u00eas protagonistas e se passa nas d\u00e9cadas de 1960, 1970 e, paralelamente, nos \u00faltimos dias de 1999, na virada do mil\u00eanio. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O jovem comunista Miguel Souza (Johnny Massaro), em 1968, deixa a universidade e se engaja na luta do Araguaia, em long\u00ednqua floresta do interior de Goi\u00e1s. L\u00e1 ele \u00e9 preso, torturado e enviado para uma ins\u00f3lita pris\u00e3o em Bras\u00edlia, onde encontra Zaqueu (C\u00e9sar Mello), um jovem crist\u00e3o evang\u00e9lico, preso por ser amigo de militantes de oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Em 1999, Juliana (Julia Dalavia), ativista estudantil, filha de um coronel reformado do Ex\u00e9rcito, precisa decidir se recebe a heran\u00e7a que lhe foi deixada pelo pai que havia morrido. Em um livro encontrado nos pertences do coronel, ela mergulha na mem\u00f3ria de Miguel e, por meio dela, a de Zaqueu, que anos depois havia se tornado um pastor evang\u00e9lico. A jovem rev\u00ea suas ra\u00edzes, reafirma convic\u00e7\u00f5es e vivencia novas trajet\u00f3rias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Al\u00e9m disso, o filme retrata muito bem a tens\u00e3o presente nas igrejas, entre l\u00edderes \u201craiz\u201d, fi\u00e9is ao Evangelho, que buscam \u201cqualidade e n\u00e3o quantidade\u201d, e l\u00edderes da religi\u00e3o da visibilidade, dos n\u00fameros, do sucesso, do alcance a qualquer custo. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O pastor e o guerrilheiro tamb\u00e9m se encontram nos dilemas e na ang\u00fastia das situa\u00e7\u00f5es-limites da vida. Dignidade e coragem de quem v\u00ea na dela\u00e7\u00e3o uma fraqueza e na justi\u00e7a um alvo est\u00e3o ali presentes, na contram\u00e3o da dor, do sofrimento, da tortura e das possibilidades de benesses. Tudo \u00e9 denso e complexo. N\u00e3o h\u00e1 respostas simples.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Sa\u00edmos da sess\u00e3o especial de lan\u00e7amento do filme, preparada para evang\u00e9licos no Rio de Janeiro, permeados de emo\u00e7\u00f5es, l\u00e1grimas e de reflex\u00f5es sobre a import\u00e2ncia de se rever o passado. Tamb\u00e9m, de pisar firme no complexo ch\u00e3o que o quadro social e pol\u00edtico nos oferece, e com os olhos grudados no futuro. Afinal, somos do Coletivo Mem\u00f3ria e Utopia! <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">A f\u00e9 do pastor Zaqueu e a f\u00e9 do guerrilheiro Miguel, embora t\u00e3o distintas, est\u00e3o, na verdade, muito pr\u00f3ximas de sentido: um salto no escuro, um jogo de incertezas, a plena convic\u00e7\u00e3o do que d\u00e1 sentido \u00e0 vida. Assim, a cada cena, a f\u00e9 no humano e no divino iam sendo ressaltadas. O encontro dessas duas dimens\u00f5es que nos s\u00e3o t\u00e3o caras ia abrindo caminhos de di\u00e1logos e discernimentos. A paz e a justi\u00e7a se moviam em um saboroso beijo, e a vida, \u201csempre desejada por mais que esteja errada\u201d, se projetava em sonhos e era valorizada. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Imagina\u00e7\u00e3o, criatividade, aventura. Coisas da f\u00e9, para al\u00e9m dos limites religiosos que nos prendem e das certezas que n\u00e3o nos deixam arriscar. O psicanalista Helio Pellegrino nos chama aten\u00e7\u00e3o para uma sublime possibilidade humana: acertar e errar. Ele nos mostra que <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-small-font-size\"><blockquote><p><\/p><cite>a postura religiosa diante do mundo implica, necessariamente, a intui\u00e7\u00e3o \u2013 e o exerc\u00edcio \u2013 de um \u2018sentimento oce\u00e2nico\u2019, por cujo interm\u00e9dio os seres, captados em sua inexaur\u00edvel riqueza, se banham num mesmo mar de transcend\u00eancia que os liga \u2013 e religa. A posi\u00e7\u00e3o religiosa leg\u00edtima \u00e9 o contr\u00e1rio da intoler\u00e2ncia e do sectarismo. Ela sabe que Deus escreve certo por linhas tortas. Sabe, al\u00e9m disto, que as linhas ou caminhos humanos s\u00e3o quase sempre tortos, uma vez que, por decreto divino, foi conferido ao homem \u2013 estruturalmente \u2013 o amargo privil\u00e9gio do erro. \u00c9 a\u00ed, na tergiversa\u00e7\u00e3o da err\u00e2ncia, que Deus costuma plantar os rastros de sua presen\u00e7a \u2013 ou do seu apelo. (A burrice do Dem\u00f4nio, Ed. Rocco, 1989, p. 74)<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Foi inquietante assistir \u00e0 jornada de cada personagem, em especial os seus dramas, suas culpas, seus traumas e os seus valores. A jovem Juliana n\u00e3o quer esquecer as bases do seu passado e vai com determina\u00e7\u00e3o atr\u00e1s delas. O carcereiro, diante das ambiguidades de suas tarefas, avalia o seu passado. O pastor almeja ser \u00edntegro e justo no seu trabalho e na rela\u00e7\u00e3o com o filho e a filha, ambos l\u00edderes religiosos. O revolucion\u00e1rio, se mantem firme em seus prop\u00f3sitos de justi\u00e7a e fiel \u00e0 causa que abra\u00e7ou e espera ansiosamente o reencontro com a amada. Ele sabia que \u201c\u00e9 preciso endurecer, sem perder a ternura jamais\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">\u00c9 a inebriante aventura de busca da verdade como repara\u00e7\u00e3o dos traumas pessoais e coletivos. Esquecer n\u00e3o permite a cura das feridas presentes e nem oferece esperan\u00e7a de transforma\u00e7\u00e3o no futuro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O filme \u00e9 um legado significativo para as novas gera\u00e7\u00f5es. Ele real\u00e7a a heran\u00e7a de quem lutou pela democracia, de quem considera que a verdade liberta, de quem afirma a solidariedade n\u00e3o apenas como uma palavra vazia para bonitos serm\u00f5es. \u201cQuero trazer \u00e0 mem\u00f3ria o que me pode dar esperan\u00e7a\u201d (B\u00edblia, Livro de Lamenta\u00e7\u00f5es 3.21). <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">\u00c9 certo que mem\u00f3rias podem ser doloridas, sim, e, por isso s\u00e3o, muitas vezes, voluntariamente apagadas e silenciadas porque trazem lembran\u00e7as de dor. Recordamo-nos das tantas pessoas que foram abusadas e das vidas violadas nas pris\u00f5es da ditadura militar do Brasil, que nem desejaram dar depoimentos \u00e0 Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, pois queriam manter as atrocidades sofridas no esquecimento. O trauma da tortura deixou marcas irrepar\u00e1veis para muitos brasileiros e brasileiras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">No entanto, o chamado prof\u00e9tico ecoa, em tempos de dor coletiva, causada pelas feridas que ainda seguem abertas em nosso Brasil e pela incerteza do futuro. Torturas, mortes e arbitrariedades seguem vivas, especialmente contra os pobres e a popula\u00e7\u00e3o negra do pa\u00eds. Somos chamados a buscar na mem\u00f3ria, o que traz esperan\u00e7a e f\u00e9. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">A beleza desta concep\u00e7\u00e3o est\u00e1 justamente no fato de a esperan\u00e7a ser um elemento din\u00e2mico. Ela \u00e9 um motor de transforma\u00e7\u00e3o. Anima. Impulsiona \u00e0 resist\u00eancia, a um \u201cnovo tempo, apesar dos perigos e dos castigos\u201d, que \u201cseja mais que vingan\u00e7a, seja sempre um caminho que se deixa de heran\u00e7a\u201d, como nos encanta a can\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Assistir ao filme \u201cO pastor e o guerrilheiro\u201d, al\u00e9m de nos tocar profundamente, nos fez reafirmar o valor da mem\u00f3ria, n\u00e3o s\u00f3 como recupera\u00e7\u00e3o importante do passado, mas tamb\u00e9m como utopia, seguindo a inspira\u00e7\u00e3o dos profetas. \u00c9 o olhar para o passado como algo que alimenta o presente e o futuro. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">J\u00e1 nos dizia o te\u00f3logo Rubem Alves: \u201cA mem\u00f3ria tem uma fun\u00e7\u00e3o subversiva. (\u2026) Talvez que a mem\u00f3ria das esperan\u00e7as j\u00e1 mortas seja capaz de traz\u00ea-las de novo \u00e0 vida, de forma que o passado se transforme em profecia e a vis\u00e3o do para\u00edso perdido d\u00ea \u00e0 luz a expectativa de uma utopia a ser conquistada\u201d. Ou, como nas palavras pronunciadas no filme: \u201cMem\u00f3ria \u00e9 resist\u00eancia. Um rio encontra outro rio, a vida \u00e9 mar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">* Claudio \u00e9 pastor e te\u00f3logo, Magali \u00e9 jornalista. Ambos integram o Coletivo Mem\u00f3ria e Utopia.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2380,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-2450","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categoria"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/krisis.univasf.edu.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/2118664.png?fit=320%2C400&ssl=1","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2450"}],"collection":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2450"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2450\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2380"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2450"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2450"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2450"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}