{"id":2452,"date":"2023-05-16T09:41:02","date_gmt":"2023-05-16T12:41:02","guid":{"rendered":"https:\/\/profanum.com.br\/?p=1094"},"modified":"2023-05-16T09:41:02","modified_gmt":"2023-05-16T12:41:02","slug":"certas-cancoes-que-ouco-por-claudio-ribeiro-de-oliveira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/2023\/05\/16\/certas-cancoes-que-ouco-por-claudio-ribeiro-de-oliveira\/","title":{"rendered":"\u201cCertas can\u00e7\u00f5es que ou\u00e7o&#8230;\u201d, por Claudio de Oliveira Ribeiro"},"content":{"rendered":"\n<!--more-->\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-medium-font-size\"><blockquote><p><\/p><cite>Certas can\u00e7\u00f5es que ou\u00e7o<br>Cabem t\u00e3o dentro de mim<br>Que perguntar carece<br>Como n\u00e3o fui eu que fiz<br>(\u201cCertas can\u00e7\u00f5es\u201d, Milton Nascimento)<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Ah&#8230; o tempo. Eu tenho conseguido, n\u00e3o sem pequenos resqu\u00edcios de culpa, reunir trabalho e \u00f3cio (talvez, o criativo, como nos mostrou Dom\u00eanico de Masi), mesas com amigos e amigas rodeadas de lembran\u00e7as, afetos e compromissos, esfor\u00e7os pela justi\u00e7a, ainda que poucos e limitados, e o v\u00edvido sentimento de \u201cservo in\u00fatil\u201d, que a profecia b\u00edblica nos interpela a viver.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Assim, vou me posicionando naquela sinuosa plataforma de \u201cperder\u201d tempo com tarefas e atividades, boa parte delas que n\u00e3o re\u00fanem grande import\u00e2ncia social, perspectiva de lucro ou efici\u00eancia&#8230; Caetano Veloso, em sua \u201cOra\u00e7\u00e3o pelo tempo\u201d, j\u00e1 nos indicara que ele \u00e9 &#8230;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-medium-font-size\"><blockquote><p><\/p><cite>Compositor de destinos<br>Tambor de todos os ritmos.  <br>Tempo, tempo, tempo <br>entro num acordo contigo. <\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Se vivido em sua intensidade e na autenticidade da vida, o tempo nos revela que ser de \u201ccarne e osso\u201d, com sangue fervendo nas veias e o sentimento \u00e0 flor da pele, \u00e9 o dado mais real que temos para considerar em cada minuto vivido. Poucos conhecem a can\u00e7\u00e3o \u201cCarne e osso\u201d, interpretada por Z\u00e9lia Duncan, que \u00e9 uma verdadeira aula de teologia:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-medium-font-size\"><blockquote><p><\/p><cite>A alegria do pecado \u00e0s vezes toma conta de mim<br>E \u00e9 t\u00e3o bom n\u00e3o ser divina<br>Me cobrir de humanidade me fascina<br>E me aproxima do c\u00e9u <br>E eu gosto de estar na terra cada vez mais <br>Minha boca se abre e espera<br>O direito ainda que profano<br>Do mundo ser sempre mais humano<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">\u00c9 que vivemos, na administra\u00e7\u00e3o dos instantes, a tenta\u00e7\u00e3o de n\u00e3o sermos humanos! Para aliment\u00e1-la, o passar do tempo quase sempre \u00e9 a pris\u00e3o do <em>cronos<\/em> e, quase nunca, a puls\u00e3o libertadora do<em> kair\u00f3s<\/em>. Ah, como \u00e9 radiante aquela for\u00e7a<em>, <\/em>que emerge com uma dimens\u00e3o escatol\u00f3gica presentificada, valorizadora da vida, um tempo messi\u00e2nico que surge do interior do cronol\u00f3gico, lapidando-o e o transformando internamente; mostrando o \u201ctempo que nos resta\u201d, como bem nos revelou o renomado fil\u00f3sofo italiano Giorgio Agamben.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">\u00c9 bem verdade que \u201cfalar \u00e9 f\u00e1cil\u201d, pois, n\u00e3o obstante as atividades no campo da pesquisa e da produ\u00e7\u00e3o do conhecimento, eu desfruto, agora, daquele t\u00e3o desejado per\u00edodo da aposentadoria. Posso, ent\u00e3o, me dar o luxo de dormir a qualquer hora do dia, ir ao cinema a tarde em pleno dia de semana, escrever e possuir ideias soltas, fazer e errar c\u00e1lculos de situa\u00e7\u00f5es improv\u00e1veis, caminhar sem dire\u00e7\u00e3o nem prop\u00f3sito, enquanto perco a conta das \u00e1rvores que me ultrapassam.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O psicanalista H\u00e9lio Pellegrino, cujos escritos marcaram a minha juventude, nos diz com maestria:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-medium-font-size\"><blockquote><p><\/p><cite>A cada passo nos defrontamos com o mundo, que nos compete decifrar. Somos nomeadores de mundo, seus int\u00e9rpretes, aqueles para quem a verdade das coisas se estende como fruto que pesa no ramo que o sustenta. Mas, ao mesmo tempo, somos distra\u00eddos e avaros com as coisas. Elas quase s\u00f3 nos interessam na medida de sua possibilidade de matar, em n\u00f3s, a fome utilit\u00e1ria (A burrice do dem\u00f4nio, 1989, p. 190). <\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">E, mais do que isso, o livre desfrutar do tempo nos move a discernir os caminhos percorridos e os a serem trilhados. Com eles, est\u00e3o os fracassos, as doideiras, os pensamentos e a\u00e7\u00f5es ocultas, as possibilidades, os medos e os desejos mais profundos, incluindo os inconfess\u00e1veis. Bom, justo e agrad\u00e1vel \u00e9 saber que h\u00e1 \u201ctempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lan\u00e7ar fora\u201d (Eclesiastes 3:6). E, tamb\u00e9m, ter no cora\u00e7\u00e3o e na mente o que diz a mesma can\u00e7\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-medium-font-size\"><blockquote><p><\/p><cite>Perfei\u00e7\u00e3o demais me agita os instintos<br>Quem se diz muito perfeito<br>Na certa encontrou um jeito insosso<br>Pra n\u00e3o ser de carne e osso, pra n\u00e3o ser.<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Tudo isto sabendo que \u201cBom e justo \u00e9 o Senhor, (&#8230;). Ele conduz os humildes na justi\u00e7a e lhes ensina o seu caminho. Todos os caminhos do Senhor s\u00e3o amor e fidelidade\u201d (Salmo 25. 8-10). E, assim, eu dou os meus passos, parando no tempo, caminhando nas horas, voando no pensamento&#8230; E a can\u00e7\u00e3o do Milton Nascimento n\u00e3o sai de minha mente:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-medium-font-size\"><blockquote><p><\/p><cite>Calor que invade, arde<br>Queima, encoraja<br>Amor que invade, arde<br>Carece de cantar<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Tais movimentos me fazem recordar algo crucial em minha vida. Como muitos sabem, no final de 2015, com apenas cinquenta e tr\u00eas anos de idade, realizei uma delicada cirurgia card\u00edaca, na qual \u201cganhei\u201d pontes de safena.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Naquela oportunidade, por interm\u00e9dio de uma aventura espiritual profunda, eu busquei elementos que julgava serem importantes para atravessar aquela situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil.&nbsp; Como em um filme, fui atr\u00e1s das bases e dos momentos que marcaram a mem\u00f3ria, meus valores e minha trajet\u00f3ria de vida.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-medium-font-size\"><blockquote><p><\/p><cite>Certa emo\u00e7\u00e3o me alcan\u00e7a<br>Corta-me a alma sem dor<br>Certas can\u00e7\u00f5es me chegam<br>Como se fosse o amor.<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Confesso, desde j\u00e1, que nenhuma das fontes em que eu havia bebido, na mais da metade de s\u00e9culo, j\u00e1 vivida pareceu-me suficiente para enfrentar a situa\u00e7\u00e3o que estava diante de mim. N\u00e3o se trata de uma completa aridez ou sequid\u00e3o espiritual, mas de uma incompletude, de uma car\u00eancia, de uma inquietude, de um tempo fora dele mesmo. \u00c9 como na express\u00e3o b\u00edblica:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-medium-font-size\"><blockquote><p><\/p><cite>\u00d3 Deus, tu \u00e9s o meu Deus forte;&nbsp;<br>eu te busco ansiosamente;&nbsp;<br>a minha alma tem sede de ti;&nbsp;<br>meu corpo te almeja,&nbsp;<br>como terra \u00e1rida,&nbsp;<br>exausta, sem \u00e1gua. (Salmo 63, 1)<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">A\u00ed, muitos instantes v\u00e3o se fundindo, muitos lampejos v\u00e3o se cruzando. Com o passar do tempo, a no\u00e7\u00e3o de liberdade vai se tornando mais aguda. Sem falar, quando estamos diante da oportunidade de repensar a vida diante da morte. Dessa forma, sempre me marcou por demais a no\u00e7\u00e3o de <em>carpe diem<\/em>. Rever a vida, tendo como foco a autenticidade, o ser &#8220;n\u00f3s mesmos&#8221;, n\u00e3o como f\u00faria individualista, mas voltada e aberta para o outro, como sujeito de alteridade e de rela\u00e7\u00f5es afetivas. Dar ao tempo o seu pr\u00f3prio tempo, com todo mundo que ao redor dele se ajunta, se re\u00fane, se encontra e se desencontra. \u00c9 doa\u00e7\u00e3o da vida como express\u00e3o de amor, de felicidade e de sentido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Novamente, Milton Nascimento, com \u201cCertas can\u00e7\u00f5es\u201d, nos mostra caminhos graciosos de espiritualidade, que nos alumiam a estrada, redimensionam o tempo e nos cortam por dentro:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-medium-font-size\"><blockquote><p><\/p><cite>Contos da \u00e1gua e do fogo<br>Cacos de vidas no ch\u00e3o<br>Cartas do sonho do povo<br>E o cora\u00e7\u00e3o pro cantor Vida <br>e mais vida ou ferida<br>Chuva, outono ou mar<br>Carv\u00e3o e giz, abrigo<br>Gesto molhado no olhar<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Assim, no tempo prazeroso, inseguro e incerto, no vazio e no pleno, no hor\u00e1rio e fora dele, na confian\u00e7a no Deus da Vida, tenho seguido o meu caminho&#8230;&nbsp;<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1096,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[19,48,21,39,47],"tags":[145,213,221,283,295,298],"class_list":["post-2452","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-claudio-de-oliveira-ribeiro","category-cultura-cultura","category-cultura","category-linguagem","category-teologia","tag-experiencia","tag-musica","tag-ocio","tag-tempo","tag-valores-cristaos","tag-vida"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/krisis.univasf.edu.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/IMG-20230516-WA0000.jpg?fit=1599%2C899&ssl=1","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2452"}],"collection":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2452"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2452\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1096"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2452"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2452"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2452"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}