{"id":2453,"date":"2023-05-18T07:57:49","date_gmt":"2023-05-18T10:57:49","guid":{"rendered":"https:\/\/profanum.com.br\/?p=1099"},"modified":"2023-05-18T07:57:49","modified_gmt":"2023-05-18T10:57:49","slug":"um-despretensioso-conto-chines-por-rita-de-cassia-s-luckner","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/2023\/05\/18\/um-despretensioso-conto-chines-por-rita-de-cassia-s-luckner\/","title":{"rendered":"&#8220;Um &#8216;despretensioso&#8217; conto chin\u00eas&#8221;, por  Rita de Cassia S. Luckner"},"content":{"rendered":"\n<!--more-->\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Olhando despretensiosamente os canais de filmes, me deparei com o t\u00edtulo <em>Um conto chin\u00eas<\/em>, filme argentino (<em>Um cuento<\/em> <em>chino),<\/em> dirigido por \u00a0Sebasti\u00e1n Borensztein. O enredo me cativou. Entre drama e com\u00e9dia o filme traz uma li\u00e7\u00e3o de alteridade, humildade, amor e entrega. Entregar-se ao outro para ajudar e para ser ajudado. Percebe-se, ent\u00e3o, que solid\u00e3o n\u00e3o \u00e9 para n\u00f3s, o quanto nos \u00e9 importante a presen\u00e7a do outro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O encontro inusitado de Roberto, um veterano da guerra das Malvinas, e Jun, um chin\u00eas que n\u00e3o falava espanhol, mostra como as semelhan\u00e7as podem superar as diferen\u00e7as \u2013 ou como as diferen\u00e7as podem enriquecer as semelhan\u00e7as. A trama acontece na Argentina. Roberto, que \u00e9 dono de uma pequena loja de ferragens \u2013 homem sistem\u00e1tico, rabugento, solit\u00e1rio, resistente \u00e0s mudan\u00e7as, por\u00e9m com forte instinto de solicitude \u2013 v\u00ea Jun sendo jogado de dentro de um taxi. O jovem chin\u00eas fora assaltado e estava perdido.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Desesperado, ele tenta se comunicar com o veterano e mostra-lhe um endere\u00e7o. Roberto o leva at\u00e9 o destino indicado e descobre que l\u00e1 vivia um tio de Jun, por\u00e9m havia se mudado e o novo morador n\u00e3o sabia o paradeiro dele. Roberto recorre \u00e0 embaixada chinesa que prometeu ajuda para encontrar algum parente do jovem, no entanto, n\u00e3o oferecia nem dinheiro e nem estalagem, Jun estava por conta pr\u00f3pria. A situa\u00e7\u00e3o dele era tanto de um cidad\u00e3o, quando na embaixada, quanto de um estrangeiro, quando nas ruas argentinas. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Remete-nos ao <em>homo sacer<\/em>, figura do direito romano que Agamben (2010) relaciona \u00e0quele que est\u00e1 banido de toda esfera de prote\u00e7\u00e3o, tanto a dos homens como a dos deuses. O fil\u00f3sofo indica que existem figuras como a do <em>homo sacer<\/em> em todas as sociedades, desde a antiguidade at\u00e9 a contemporaneidade, que simbolizam o abandono, desde os judeus nos campos de concentra\u00e7\u00e3o, os refugiados, como tamb\u00e9m aqueles discriminados, como a mulher, o negro, o pobre, o estrangeiro etc.. Estas se tornaram elementos primordiais de express\u00e3o das artes \u2013 como as cinematogr\u00e1ficas \u2013 sobre as v\u00e1rias viol\u00eancias, inclusive as institucionalizadas. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Jun \u00e9 uma dessas figuras, negligenciado tanto pela pol\u00edcia local, como pela embaixada. Sobre essas novas figuras de pessoas \u201cdestitu\u00eddas\u201d de seus direitos, gerenciadas pela <em>biopol\u00edtica<\/em>, por um mecanismo de inclus\u00e3o\/exclus\u00e3o, Agamben tamb\u00e9m desenvolve os conceitos de \u201cbando\u201d e \u201cabandono\u201d. Para ser abandonado antes seria necess\u00e1rio pertencer a algum lugar, ou ao \u201cbando\u201d de origem. Assim, mesmo \u201cexclu\u00eddo\u201d, mant\u00e9m rela\u00e7\u00e3o ou la\u00e7o de pertencimento com o \u201cbando\u201d, por\u00e9m, estaria \u00e0 \u201cmerc\u00ea de quem o abandonou\u201d, numa condi\u00e7\u00e3o de indetermina\u00e7\u00e3o, \u201c\u00e9 esta estrutura de bando que devemos aprender a reconhecer nas rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e nos espa\u00e7os p\u00fablicos em que ainda vivemos\u201d (AGAMBEN, 2010, p. 117). Nesse cen\u00e1rio, Jun est\u00e1 em uma zona limiar, que sem a linguagem \u2013 que estrutura a vida e o mundo humano, sendo aspecto ligado diretamente ao dom\u00ednio (dominar ou ser dominado) \u2013 torna-se sujeito passivo, sem express\u00e3o.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Jun estaria em completo abandono sem a ajuda de Roberto. Mesmo contrariado, o veterano leva o chin\u00eas para a sua casa. A conviv\u00eancia foi dif\u00edcil, tanto pela falta de comunica\u00e7\u00e3o como pela falta de paci\u00eancia de Roberto, que estava acostumado a viver sozinho. Apesar das diferen\u00e7as culturais e idiom\u00e1ticas, os dois tinham em comum a tristeza pela perda de algu\u00e9m que amavam: Jun perdeu a noiva em um acidente durante um passeio de barco, quando uma vaca foi lan\u00e7ada de um avi\u00e3o por ladr\u00f5es de gado (fato ver\u00eddico que inspirou a hist\u00f3ria do filme).\u00a0 Roberto perdeu o pai. Ele s\u00f3 soube da morte dele quando voltou da guerra, e n\u00e3o ter se despedido dele era uma situa\u00e7\u00e3o que o afetava profundamente.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Os dois personagens t\u00eam modos diferentes de enfrentar a dor, o veterano se fechou em seu pr\u00f3prio mundo, cheio de manias, desconfiado, n\u00e3o dava abertura para relacionamentos, por isso vivia isolado.\u00a0 Em contrapartida, Jun n\u00e3o teve medo de se aventurar em outro pa\u00eds em busca de um recome\u00e7o, ele \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o da esperan\u00e7a, esta avivada pelo desejo de mudan\u00e7as, que revela uma consci\u00eancia cr\u00edtica que n\u00e3o apenas espera, mas que busca por coisas melhores. O desenho de uma vaca feito na parede pelo jovem \u2013 ele gostava de desenhar e, na China, trabalhava como artes\u00e3o \u2013 desperta em Roberto uma transforma\u00e7\u00e3o, uma vontade de trilhar novos caminhos. O desenho do animal lhe remeteu \u00e0 Mari, personagem que nutre uma grande admira\u00e7\u00e3o e atra\u00e7\u00e3o por ele. Ela morava em uma fazenda, onde criava animais e ele vai ao encontro dela.\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Roberto passa a ver a si mesmo atrav\u00e9s de Jun e ao aceita-lo e compreend\u00ea-lo passa tamb\u00e9m a aceitar e compreender a si mesmo, uma rela\u00e7\u00e3o de eu-outro. Em termos liter\u00e1rios, isso se d\u00e1 pela <strong>exotopia<\/strong>, ideia trabalhada por Bakhtin que diz respeito \u00e0s limita\u00e7\u00f5es do <strong>eu<\/strong> em ver a si pr\u00f3prio de forma completa, assim como <strong>o outro<\/strong> n\u00e3o pode ver a si mesmo plenamente: \u201cQuando contemplo um homem situado fora de mim e \u00e0 minha frente, nossos horizontes concretos, tais como s\u00e3o efetivamente vividos por n\u00f3s dois, n\u00e3o coincidem\u201d, na impossibilidade do <strong>eu<\/strong> ver integralmente a si pr\u00f3prio, \u00e9 pelo <strong>excedente de vis\u00e3o<\/strong> <strong>do outro<\/strong> que ele se constitui. \u201cQuando estamos nos olhando, dois mundos diferentes se refletem na pupila dos nossos olhos\u201d. Dessa forma, a alteridade tem um papel fundamental, pois o \u201ceu-para-mim\u201d se constr\u00f3i a partir do \u201ceu-para-os-outros\u201d (BAKHTIN, 1997, p. 27).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Com as palavras nos afirmamos como indiv\u00edduos, mas tamb\u00e9m com as a\u00e7\u00f5es. Jun n\u00e3o tinha as palavras, pois sem conhecimento da l\u00edngua n\u00e3o conseguia se comunicar; Roberto n\u00e3o conseguia sair de dentro do c\u00edrculo que ele mesmo criou como rotina. Ao se unirem, ajudaram-se mutuamente. Roberto foi a voz de Jun no pa\u00eds estrangeiro, Jun foi a motiva\u00e7\u00e3o para Roberto agir e reconstruir sua vida. Para uma ocasi\u00e3o despretensiosa, creio que a experi\u00eancia de assistir ao <em>Um conto chin\u00eas<\/em> se tornou surpreendentemente enriquecedora. Semelhan\u00e7a e diferen\u00e7a n\u00e3o se anulam, ao contr\u00e1rio, ampliam horizontes, onde alteridade e empatia s\u00e3o as norteadoras dos sujeitos.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">AGAMBEN, Giorgio. <strong>Homo Sacer: O poder soberano e a vida nua<\/strong>. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">BAKHTIN, Mikhail. <strong>Est\u00e9tica da Cria\u00e7\u00e3o Verbal<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o Maria Ermantina Galv\u00e3o Pereira. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1997.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1101,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[18,26,44],"tags":[53,66,81,83,113,137,174,196],"class_list":["post-2453","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cidadania-e-direitos-humanos","category-moralidade","category-rita-de-cassia-scocca-luckner","tag-agamben","tag-bakhtin","tag-cidadania","tag-cinema","tag-diferenca","tag-estrangeiro","tag-homo-sacer","tag-linguagem"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/krisis.univasf.edu.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/20068521.jpg?fit=728%2C1000&ssl=1","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2453"}],"collection":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2453"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2453\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1101"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2453"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2453"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2453"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}