{"id":2454,"date":"2023-05-29T11:12:29","date_gmt":"2023-05-29T14:12:29","guid":{"rendered":"https:\/\/profanum.com.br\/?p=1103"},"modified":"2023-05-29T11:12:29","modified_gmt":"2023-05-29T14:12:29","slug":"solto-a-voz-nas-estradas-por-claudio-de-oliveira-ribeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/2023\/05\/29\/solto-a-voz-nas-estradas-por-claudio-de-oliveira-ribeiro\/","title":{"rendered":"\u201cSolto a voz nas estradas&#8230;\u201d, por Cl\u00e1udio de Oliveira Ribeiro"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-medium-font-size\"><blockquote><p><\/p><cite>Vou seguindo pela vida<br>Me esquecendo de voc\u00ea<br>Eu n\u00e3o quero mais a morte<br>Tenho muito o que viver <br><br>Vou querer amar de novo<br>E se n\u00e3o der, n\u00e3o vou sofrer<br>J\u00e1 n\u00e3o sonho, hoje fa\u00e7o<br>Com meu bra\u00e7o o meu viver <br><br>(\u201cTravessia\u201d, Milton Nascimento)<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Uma roda de amigos e amigas, o viol\u00e3o e muitos sonhos&#8230; Com aquela inesquec\u00edvel introdu\u00e7\u00e3ozinha, a can\u00e7\u00e3o \u201cTravessia\u201d n\u00e3o poderia faltar em nossos inumer\u00e1veis encontros. \u00c9ramos quatro amigos que, na casa dos dezoito anos de idade, saindo do interior do Estado, vieram para a cidade maravilhosa do Rio de Janeiro, em 1981, para estudar. E o faziam com muito afinco, mas sempre acompanhados de muita festa, gente querida por perto, em um infinito \u2018entra-e-sai\u2019 de pessoas de v\u00e1rios cantos. E o melhor: m\u00fasica ao vivo e em cores, lanchinhos que a gente mesmo preparava e as longas conversas sobre o que a vida nos apresentava.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">N\u00e3o por acaso, algu\u00e9m denominou o nosso apartamento de \u201cTerra Santa\u201d e, para parafrasear o texto b\u00edblico, muitos pisaram nela sem as sand\u00e1lias. Afinal, amizade, despojamento e autenticidade s\u00e3o valiosos tesouros que descobrimos desde aquela \u00e9poca e vivemos at\u00e9 hoje \u00e0s custas dos rendimentos desse rico investimento.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Por duas ou tr\u00eas vezes na semana, seja no hor\u00e1rio nada convencional das 17h, seja no final das noites e, muitas vezes, madrugada adentro, o Paulo Roberto, que entre n\u00f3s era quem tinha o melhor dom de dedilhar as cordas, magicamente, estava com o seu viol\u00e3o e todos n\u00f3s, ao redor, pedindo as can\u00e7\u00f5es, rindo das hist\u00f3rias, refor\u00e7ando as utopias e os la\u00e7os de amizade. Foram anos de muitas descobertas, aprendizagem e preparo para o futuro. Este, n\u00e3o imagin\u00e1vamos como seria exatamente, mas tent\u00e1vamos intuir, ao menos nos planos mais positivos, dentro do que sonh\u00e1vamos e planej\u00e1vamos para o pa\u00eds, para a igreja e para as nossas vidas.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Era o tempo do movimento das \u201cDiretas J\u00e1\u201d, das passeatas e manifesta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas no circuito Candel\u00e1ria-Rio Branco-Cinel\u00e2ndia, do \u201cPlano para a Vida e Miss\u00e3o da Igreja Metodista\u201d, das letras teol\u00f3gicas inquietantes de Rubem Alves, Leonardo Boff e tantos outros, quando vislumbr\u00e1vamos a democracia, a a\u00e7\u00e3o social cr\u00edtica, a participa\u00e7\u00e3o ampla das pessoas nos destinos das institui\u00e7\u00f5es e a pavimenta\u00e7\u00e3o da estrada para a realiza\u00e7\u00e3o mais eficaz do amor-servi\u00e7o aos que sofriam. O viol\u00e3o e a roda de amizade em torno dele, l\u00e1 em casa, emolduravam estes e tantos outros desejos que t\u00ednhamos, e nos ajudavam a descobrir caminhos libert\u00e1rios de realiz\u00e1-los, ainda que em meio \u00e0s nossas pr\u00f3prias ingenuidades, ambiguidades e contradi\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Esse pequeno trecho da longa \u2018travessia\u2019 de nossas vidas reunia, entre tantos copos e livros, bases profundas de nossos valores, motiva\u00e7\u00f5es e das posturas que fomos assumindo ao longo de nossas trajet\u00f3rias. Claro que somadas ao que nossos pais nos ensinaram e ao que aprendemos na igreja, nas experi\u00eancias ecum\u00eanicas, nas a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, nos estudos e nos cantos da vida.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O renomado pensador italiano Giorgio Agamben j\u00e1 nos lembrara que filosofar e cultivar amizades s\u00e3o atos insepar\u00e1veis. Est\u00e3o ligados at\u00e9 mesmo no nome deste nobre conhecimento <em>(philo-sophia<\/em>). Em <em>O que \u00e9 o contempor\u00e2neo e outros ensaios, <\/em>ele nos mostra que na<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-medium-font-size\"><blockquote><p><\/p><cite>&#8230; sensa\u00e7\u00e3o de existir insiste uma outra sensa\u00e7\u00e3o, especificamente humana, que tem a forma de um\u00a0<em>com-sentir<\/em>\u00a0a exist\u00eancia do amigo. A amizade \u00e9 a inst\u00e2ncia desse com-sentimento da exist\u00eancia pr\u00f3pria. Mas isso significa que a amizade tem um estatuto ontol\u00f3gico e, ao mesmo tempo, pol\u00edtico. A sensa\u00e7\u00e3o do ser \u00e9, de fato, j\u00e1 sempre dividida e\u00a0<em>comdividida<\/em>, e a amizade nomeia essa condivis\u00e3o (p. 15).\u00a0<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">E a cada can\u00e7\u00e3o entoada naquelas rodas, iam e vinham muitas imagens, compartilhadas no tom do carinho e do afeto. Creio que seja assim sempre que a gente canta ou ouve uma can\u00e7\u00e3o. A amizade desfrutada no entremeio daquelas m\u00fasicas lan\u00e7ou pilares fecundos de nossa vis\u00e3o pol\u00edtica, pastoral e humana.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">N\u00e3o ser\u00edamos n\u00f3s hoje se n\u00e3o fossem aqueles tons. Eles nos jogavam para um \u2018salto no escuro\u2019, experi\u00eancia fundante das realiza\u00e7\u00f5es humanas mais plenas, potentes e aut\u00eanticas. Sim! Aquela que mistura felicidade, prazer, medo, trope\u00e7os, fracassos. N\u00e3o, os \u201csonhos feitos de brisa, [pois] o vento vem terminar\u201d, mas os mais esvoa\u00e7antes e forjados na confian\u00e7a m\u00fatua, no entrela\u00e7amento plural de ideias, no dar a m\u00e3o a quem est\u00e1 ao nosso lado, na for\u00e7a da amizade e da solidariedade &#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Aquelas can\u00e7\u00f5es, mesmo sem termos tanta consci\u00eancia disso, refinaram a nossa f\u00e9. Rubem Alves, naquele fabuloso livrinho <em>O que \u00e9 religi\u00e3o, <\/em>nos chamara a aten\u00e7\u00e3o para este inquietante movimento:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-medium-font-size\"><blockquote><p><\/p><cite>Como o trapezista que tem de se lan\u00e7ar sobre o abismo, abandonando todos os pontos de apoio, a alma religiosa tem de ser lan\u00e7ar tamb\u00e9m sobre o abismo, na dire\u00e7\u00e3o das evid\u00eancias do sentimento, da voz do amor, das sugest\u00f5es de esperan\u00e7a. Nos caminhos de Pascal e Kierkegaard, trata-se de uma aposta apaixonada. E o que \u00e9 lan\u00e7ado sobre a mesa das incertezas e das esperan\u00e7as \u00e9 a vida inteira (p. 101).\u00a0<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">E a f\u00e9, que \u00e9 o salto onde lamento e j\u00fabilo se encontram, lutas e prazer se tangenciam e paz e justi\u00e7a se beijam, chegava e tem chegado at\u00e9 n\u00f3s. \u201cQuando sou fraco, a\u00ed \u00e9 que me descubro forte\u201d (II Cor\u00edntios 12.10). \u201cQuem com l\u00e1grimas semeia com j\u00fabilo ceifar\u00e1\u201d (Salmo 126.5). \u201cMudaste o meu pranto em dan\u00e7a, a minha veste de lamento em veste de alegria, para que o meu cora\u00e7\u00e3o cante louvores a ti e n\u00e3o se cale\u201d (Salmo 30.11).\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Do coro embalado na hora do \u201csolto a voz nas estradas\u201d, quatro d\u00e9cadas j\u00e1 se foram. Uma enorme teia de experi\u00eancias foi vivida e nos deitamos nela, com muita satisfa\u00e7\u00e3o e alegria. Em algum momento, \u00e9 fato, alguma dor, frustra\u00e7\u00e3o e inquieta\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, ter ouvido as \u201csugest\u00f5es de esperan\u00e7a\u201d, como o te\u00f3logo encantadoramente acima nos disse, nos deixou sempre muito felizes e realizados.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Outras rodas de viola aconteceram. Muito trabalho foi e tem sido feito, com determina\u00e7\u00e3o, mem\u00f3ria e utopia agu\u00e7adas. Muita gente querida e de grande valor tem cruzado os nossos caminhos.\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">No plano pol\u00edtico mais global, temos acumulado muitas vit\u00f3rias e os fracassos v\u00e3o sendo registrados, mesmo porque \u201cforte sou, mais n\u00e3o jeito, hoje [ou seja, em algum momento] tenho que chorar\u201d.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">No campo das utopias, \u201cvou seguindo pela vida\u201d, como tamb\u00e9m diz a can\u00e7\u00e3o. Ela \u00e9 magia pura, encantamento. Ou seja, estamos caminhando, iluminados pela mem\u00f3ria que brota da roda destas can\u00e7\u00f5es. \u00c9 a inebriante \u201ctravessia\u201d, como na can\u00e7\u00e3o:\u00a0<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-medium-font-size\"><blockquote><p><\/p><cite>Minha casa n\u00e3o \u00e9 minha<br>E nem \u00e9 meu este lugar<br>Estou s\u00f3 e n\u00e3o resisto<br>Muito tenho pra falar <br><br>Solto a voz nas estradas<br>J\u00e1 n\u00e3o quero parar<br>Meu caminho \u00e9 de pedra<br>Como posso sonhar?<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">E a vida \u00e9 teimosia. Ela vai se achando na beleza e no mist\u00e9rio de seu pr\u00f3prio labirinto. Ela vai ressurgindo pela f\u00e9 e pela \u201ccoragem de ser\u201d, express\u00e3o magn\u00edfica, t\u00edtulo do livro do te\u00f3logo alem\u00e3o Paul Tillich. A vida \u00e9 movimento, reconstru\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os, de perten\u00e7as, de afetos.\u00a0<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2383,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[18,19,48,21,28,47],"tags":[58,204,7,253,260,281,286,291,295],"class_list":["post-2454","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cidadania-e-direitos-humanos","category-claudio-de-oliveira-ribeiro","category-cultura-cultura","category-cultura","category-filosofia","category-teologia","tag-amizade","tag-memoria","tag-politica","tag-religiao","tag-rubem-alves","tag-sonho","tag-teologia","tag-travessia","tag-valores-cristaos"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/krisis.univasf.edu.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/IMG-20230529-WA0004.jpg?fit=720%2C467&ssl=1","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2454"}],"collection":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2454"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2454\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2383"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2454"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2454"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2454"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}