{"id":2460,"date":"2023-09-16T09:01:51","date_gmt":"2023-09-16T12:01:51","guid":{"rendered":"https:\/\/profanum.com.br\/?p=1183"},"modified":"2023-09-16T09:01:51","modified_gmt":"2023-09-16T12:01:51","slug":"eu-cacador-de-mim-por-claudio-de-oliveira-ribeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/2023\/09\/16\/eu-cacador-de-mim-por-claudio-de-oliveira-ribeiro\/","title":{"rendered":"\u201cEu, ca\u00e7ador de mim\u201d, por Claudio  de Oliveira Ribeiro"},"content":{"rendered":"\n<!--more-->\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:17px\"><blockquote><p><\/p><cite>Por tanto amor<br>Por tanta emo\u00e7\u00e3o<br>A vida me fez assim<br>Doce ou atroz<br>Manso ou feroz<br>Eu, ca\u00e7ador de mim.<br>(\u201cCa\u00e7ador de mim\u201d, Milton Nascimento).<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Eu tenho amigos e amigas de diversas idades. Alguns com 30 ou 40 anos, portanto bem mais jovens do que eu, e outros, com 70 ou 80, que trilharam v\u00e1rios caminhos bem antes de mim. Mas a maioria est\u00e1 na minha faixa et\u00e1ria, que \u00e9 em torno dos 60 anos. A gente se encontra frequentemente e em diferentes e variadas situa\u00e7\u00f5es, como no compartilhar da mesa e dos copos, no trabalho conjunto em distintas frentes de a\u00e7\u00e3o, no aconchego das casas ou no clima barulhento dos bares, nos momentos significativos como festas, celebra\u00e7\u00f5es, passeatas, mas tamb\u00e9m nas dores, perdas e desilus\u00f5es. E, assim, seja na espontaneidade do gratuito, seja na ca\u00e7a de nossas existencialidades, vamos \u00e0 procura de n\u00f3s mesmos&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Nessas horas, entremeadas sempre por hist\u00f3rias engra\u00e7adas, mem\u00f3rias superdivertidas, papos descontra\u00eddos e agrad\u00e1veis, relatos de filmes interessantes que foram vistos ou outras atividades culturais feitas, est\u00e3o aquelas conversas mais densas e inquietantes, porque falam das incertezas do futuro. Elas sempre aparecem, sorrateiramente, nos entrelugares das emo\u00e7\u00f5es, nos interst\u00edcios de algum ponto sofrido da alma, nos rubores das indaga\u00e7\u00f5es e das perguntas, especialmente sobre o que fizemos at\u00e9 aqui em nossa jornada e o que ser\u00e1 de n\u00f3s no futuro. Afinal, a casa dos 60 anos \u00e9 morada provis\u00f3ria, lugar de encontro de mundos, de t\u00e9rminos e quartos disruptivos! \u00c9 a casa onde filhos e netos v\u00e3o invertendo as nossas viv\u00eancias, pautando a vida em outro tom e alterando valores e vis\u00f5es que temos. Os \u201860\u2019 s\u00e3o de contabilidades estranhas, de medos e solturas e, sobretudo, da tentativa de \u201calcan\u00e7ar cora\u00e7\u00f5es s\u00e1bios\u201d, como na vis\u00e3o b\u00edblica (Salmo 90.12).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Nessas situa\u00e7\u00f5es, em \u2018mil-tons\u2019 misteriosos, sempre ecoa no meu peito a can\u00e7\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:17px\"><blockquote><p><\/p><cite>Longe se vai sonhando demais<br>Mas onde se chega assim?<br>Vou descobrir o que me faz sentir<br>Eu, ca\u00e7ador de mim.<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Nas conversas que afiam o nosso mais profundo ser, h\u00e1 sempre muitos embara\u00e7os, dilemas e inquieta\u00e7\u00f5es. Eles v\u00e3o aparecendo, aqui e ali, ressoando, borbulhando cada vez que a confian\u00e7a e a cumplicidade aumentam na troca das palavras, ou quando os olhos marejados se cruzam afetiva e acolhedoramente, ou quando a partilha acontece de forma sens\u00edvel e aut\u00eantica e ningu\u00e9m se sente melhor do que o outro. \u00c9 a situa\u00e7\u00e3o dos filhos, por exemplo, que ora \u00e9 de alegria, ora \u00e9 de preocupa\u00e7\u00e3o. Ser\u00e1 que est\u00e3o no caminho que julgamos adequado? Ser\u00e1 que precisam de maior prote\u00e7\u00e3o ou de mais liberdade? E os que vivem em situa\u00e7\u00f5es-limite, quem vai cuidar deles quando n\u00e3o mais estivermos aqui? At\u00e9 quando morar\u00e3o conosco ou estar\u00e3o perto de n\u00f3s? E as op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, sexuais, profissionais, afetivas que fazem? N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel negar que, em algum momento, talvez desavisados, n\u00e3o pensamos nessas e em tantas outras quest\u00f5es! Como diz a can\u00e7\u00e3o: \u201cA vida me fez assim\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 incomum nas conversas brotarem aqueles inquietantes balan\u00e7os existenciais, especialmente sobre o sentido do trabalho profissional que realizamos at\u00e9 aqui. A costura das palavras, por vezes, nos faz pensar no que valeu a pena, no que foi desperdi\u00e7ado, no que foi valorizado e tamb\u00e9m nas m\u00e1goas, nas incompreens\u00f5es, nas invejas, tidas e sofridas. Em quantos ambientes dedicamos as nossas energias no trabalho? Qual deles foi o mais prazeroso e de qual n\u00e3o sentimos qualquer saudade? Com quem aprendemos coisas \u00fateis ou sublimes e com quem trocamos conhecimento? Qual foi ou \u00e9 a nossa mais feliz realiza\u00e7\u00e3o no trabalho?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Desse balan\u00e7o, n\u00e3o se foge dos amores. Eles foram verdadeiros e aut\u00eanticos? Produziram em n\u00f3s os arrepios e suspiros que emolduram a felicidade? Foram vividos com quem realmente desej\u00e1vamos ou foram arranjados ou mantidos pelas circunst\u00e2ncias e limites da vida, das possibilidades e dos sonhos?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Por essas e por tantas outras indaga\u00e7\u00f5es, a can\u00e7\u00e3o dilacerante \u2013 e, portanto, libertadora \u2013, retorna:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:17px\"><blockquote><p><\/p><cite>Nada a temer, sen\u00e3o o correr da luta<br>Nada a fazer, sen\u00e3o esquecer o medo<br>Abrir o peito \u00e0 for\u00e7a, numa procura<br>Fugir \u00e0s armadilhas da mata escura<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Nas inquieta\u00e7\u00f5es das conversas tamb\u00e9m est\u00e1 o vaiv\u00e9m da sa\u00fade, que margeia os medos, reescreve os exames, intensifica as consultas m\u00e9dicas, as prescri\u00e7\u00f5es, as ora\u00e7\u00f5es. J\u00e1 foi o tempo em que todas as palavras giravam em torno dos planos de passeios, viagens a serem feitas, comidas ex\u00f3ticas para experimentar. Tudo isso continua, \u00e9 claro! No entanto, misturado com outras palavras e tons: os planos, s\u00e3o os de sa\u00fade, acompanhados das reclama\u00e7\u00f5es por seus alt\u00edssimos pre\u00e7os e limita\u00e7\u00f5es; as viagens, boa parte delas \u00e9 para cuidar dos pais ou pessoas queridas da fam\u00edlia; as comidas v\u00eam com indesejadas dietas; e rem\u00e9dios n\u00e3o faltam na lista. Tudo no corpo parece ser fr\u00e1gil e fugaz. Por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 somente assim.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Tempos atr\u00e1s, achei no exemplar do livro <em>Varia\u00e7\u00f5es sobre a vida e a morte<\/em>, de Rubem Alves<em>, <\/em>que tenho em casa, um pequeno texto que eu havia transcrito do pr\u00f3prio livro e colocado na dedicat\u00f3ria feita para a minha namorada na \u00e9poca:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:17px\"><blockquote><p><\/p><cite>Ao corpo, entretanto, interessa a sapi\u00eancia,<br>conhecimento que tem bom gosto,<br>porque o corpo avalia com o amor e o prazer,<br>e n\u00e3o com a intelig\u00eancia desencarnada.<br>E \u00e9 aqui que mora o te\u00f3logo<br><em>[e eu acrescento: \u201ctodos os que creem\u201d],<\/em><br>no lugar onde a palavra \u00e9 corpo, poder, entidade do mundo material,<br>chave que abre e fecha, agulha que costura as partes do mundo.<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">E as conversas rodam, os la\u00e7os v\u00e3o sendo criados e recriados, a amizade, ainda mais cristalina, vai reluzindo por a\u00ed. Outros tapetes s\u00e3o tecidos com as palavras da comunh\u00e3o afetiva, da solidariedade e do amor desinteressado. Possibilidades s\u00e3o abertas, outros caminhos s\u00e3o poss\u00edveis. Milton Nascimento tamb\u00e9m revela essa busca, quando canta:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:17px\"><blockquote><p><\/p><cite>Preso a can\u00e7\u00f5es<br>Entregue a paix\u00f5es<br>Que nunca tiveram fim<br>Vou me encontrar<br>Longe do meu lugar<br>Eu, ca\u00e7ador de mim.<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Por fim, quero lembrar outra linda can\u00e7\u00e3o, de Dani Black, chamada \u201cMaior\u201d, que eu ouvi com a participa\u00e7\u00e3o de Milton Nascimento, e que muito me fez pensar. Ela ficou na minha mente por muitas noites e, vez ou outra, volta para me alumiar. Estranhamente, achei que ela faz coro com as enigm\u00e1ticas palavras b\u00edblicas daquele que \u201cse regozija nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas persegui\u00e7\u00f5es, nas ang\u00fastias. Pois, quando sou fraco, \u00e9 que sou forte\u201d (II Cor\u00edntios 12.10). Ela est\u00e1 no redemoinho desse grande e permanente movimento interno, ken\u00f3tico, apof\u00e1tico e purificador, que nos joga para dentro, nos faz sair de n\u00f3s mesmos, nos eleva e nua e despojadamente nos faz beijar o ch\u00e3o. A inebriante e duvidosa can\u00e7\u00e3o diz que:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:17px\"><blockquote><p><\/p><cite>Eu sou maior do que era antes<br>Estou melhor do que era ontem<br>Eu sou filho do mist\u00e9rio e do sil\u00eancio<br>Somente o tempo vai me revelar quem sou<br>As cores mudam<br>As mudas crescem<br>Quando se desnudam<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[19,48,21,26,39,47],"tags":[58,112,145,162,179,204,286,298],"class_list":["post-2460","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-claudio-de-oliveira-ribeiro","category-cultura-cultura","category-cultura","category-moralidade","category-linguagem","category-teologia","tag-amizade","tag-dialogo","tag-experiencia","tag-geracao","tag-idade","tag-memoria","tag-teologia","tag-vida"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2460"}],"collection":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2460"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2460\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2460"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2460"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2460"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}