{"id":2461,"date":"2023-09-19T05:57:52","date_gmt":"2023-09-19T08:57:52","guid":{"rendered":"https:\/\/profanum.com.br\/?p=1188"},"modified":"2023-09-19T05:57:52","modified_gmt":"2023-09-19T08:57:52","slug":"uma-joelhada-no-saco-e-o-gozo-em-rosa-duas-estorias-por-jorge-pinheiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/2023\/09\/19\/uma-joelhada-no-saco-e-o-gozo-em-rosa-duas-estorias-por-jorge-pinheiro\/","title":{"rendered":"&#8220;Uma joelhada no saco e O gozo em rosa \u2014 duas est\u00f3rias&#8221;, por Jorge Pinheiro"},"content":{"rendered":"\n<!--more-->\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">As vis\u00f5es de mundo do campon\u00eas hebreu e mesmo do judeu do in\u00edcio da era comum eram diferentes das cosmovis\u00f5es crist\u00e3s modernas. Talvez, o que de maior temos a aprender com hebreus e judeus \u00e9 que a profundidade do texto \u00e9 a sua humanidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Ao mergulhar nessa humanidade temos, ent\u00e3o, a possibilidade de encontrar sua transcendentalidade. E isso pode ser alcan\u00e7ado de tr\u00eas maneiras: a acad\u00eamica, o senso comum e aquela da pr\u00f3pria vida, quando chegamos l\u00e1 atrav\u00e9s da macera\u00e7\u00e3o de nossa pessoalidade, da crise, da dor e do risco.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Quando o intelectual judeu Samuel Cahen fez a primeira tradu\u00e7\u00e3o das Escrituras judaicas para o franc\u00eas, entre 1831 e 1851, em dezoito volumes \u2013&nbsp;<em>A B\u00edblia, novas tradu\u00e7\u00f5es <\/em>\u2013 procurou ir al\u00e9m das tradu\u00e7\u00f5es anteriores, crist\u00e3s. Sua tradu\u00e7\u00e3o, em edi\u00e7\u00e3o bil\u00edngue, trouxe para o leitor n\u00e3o judeu a estrutura hebraica, as constru\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias e os hebra\u00edsmos. No s\u00e9culo passado, seguindo a tradi\u00e7\u00e3o de Cahen, Andr\u00e9 Chouraqui construiu uma tradu\u00e7\u00e3o enciclop\u00e9dica (1974-1977): a partir de exegetas como Rashi e Ibn Ezra fez a leitura oriental dos textos do testamento judaico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><br>Ao compreender com os antigos exegetas judeus que a humanidade do texto \u00e9 o caminho para o encontro poss\u00edvel com o transcendente, vamos, como exerc\u00edcio exeg\u00e9tico, analisar dois versos de est\u00f3rias e momentos diferentes das Escrituras judaicas. N\u00e3o podemos esquecer, por\u00e9m, que a escol\u00e1stica teorizou modos de ler o <em>quadrivium<\/em>, conceito derivado da jun\u00e7\u00e3o de duas palavras latinas: <em>quattuor<\/em>, que significa quatro, e via, que quer dizer caminho. Temos assim na leitura de um texto quatro vias: liter\u00e1ria, pedag\u00f3gica, teol\u00f3gica e escatol\u00f3gica. <em>Quadrivium <\/em>\u00e9 encruzilhada e foi utilizado como hermen\u00eautica por Hugo S\u00e3o Vitor e Tom\u00e1s de Aquino. Mas, hoje, nas nossas leituras estamos interessados no sentido liter\u00e1rio dos textos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma joelhada no saco<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><br><em>\u201cNa luta, o homem, ao ver que n\u00e3o podia vencer, bateu no vazio da coxa e enforcou a for\u00e7a de criar de Jac\u00f3\u201d<\/em>. (G\u00eanesis 32.25).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><br>O primeiro verso escolhido, que se situa no primeiro livro, o das origens, fala da luta do patriarca Jac\u00f3 com um homem \u2013 a palavra hebraica no texto \u00e9 <em>\u00eexe<\/em>, homem, macho, e n\u00e3o anjo. A tradu\u00e7\u00e3o SEV (vers\u00e3o de 1569) diz: \u201cY cuando <em>el var\u00f3n <\/em>vio que no pod\u00eda con \u00e9l, toc\u00f3 la palma de su muslo, la palma del muslo de Jacob se descoyunt\u00f3 luchando con \u00e9l\u201d. \u00c9 uma boa tradu\u00e7\u00e3o, porque a express\u00e3o palma <em>\u201ckaph\u201d <\/em>se refere \u00e0 cavidade ou parte do corpo que \u00e9 dobr\u00e1vel ou curva, e <em>\u201cyarek\u201d <\/em>que foi traduzido por <em>\u201cmuslo\u201d<\/em>, se refere a lombo, ou lugar do poder de procria\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Na luta com esse que poderia ser seu pr\u00f3prio irm\u00e3o Esa\u00fa ou um dos capangas dele, o homem n\u00e3o conseguiu vencer Jac\u00f3. Ent\u00e3o, j\u00e1 cansado, o homem recorre ao golpe mais antigo, que acaba com qualquer luta, d\u00e1 uma joelhada no vazio da coxa de Jac\u00f3 e estrangula sua for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><br>Termina\u00e7\u00f5es nervosas, sensibilidades. Escroto, test\u00edculos. O chute produz sangramento interno, incha\u00e7o, dor. O m\u00fasculo se retrai, nervos e art\u00e9rias se enroscam e impedem o fluxo de sangue. O coice foi bravo, a c\u00e1psula se rompe e vaza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><br>Visto assim, na sua humanidade, o texto fala de dois homens que lutam madrugada adentro, e que um deles, o trapaceiro, \u00e9 golpeado na for\u00e7a de sua virilidade, sendo derrubado por um golpe em baixo e por baixo. Ca\u00eddo, resfolegando, entre gemidos, pede ao seu oponente um favor: liberdade para seguir adiante. E o homem \u2013 Esa\u00fa ou um capanga \u2013 diz para ele: segue seu caminho, hoje voc\u00ea n\u00e3o trapaceou, voc\u00ea venceu. Arrastando-se, aquele que se agarrou ao tornozelo do irm\u00e3o, se levanta: foi alforriado, est\u00e1 livre para seguir em frente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O gozo em rosa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><br>As escrituras judaicas cont\u00eam uma joia da literatura oriental: o <em>C\u00e2ntico dos c\u00e2nticos<\/em>. O superlativo n\u00e3o existia no hebraico, da\u00ed a ideia do mais bonito dos c\u00e2nticos. O poema conta uma hist\u00f3ria de amor entre uma mo\u00e7a negra, a Sulamita, e um pastor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><br>Para os crist\u00e3os, n\u00e3o estamos diante do erotismo oriental, mas de uma alegoria sobre o amor transcendente do eterno. Agora, por\u00e9m, nos interessa o caminho que o poema faz na materialidade do er\u00f3tico humano. Por isso, vamos trabalhar apenas um verso do <em>C\u00e2ntico dos c\u00e2nticos<\/em>, procurando manter viva a express\u00e3o e seu conte\u00fado aparentemente n\u00e3o religioso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><br><em>\u201cEntra na casa do vinho, o seu estandarte \u00e9 desejo\u201d. <\/em>(<em>C\u00e2ntico dos c\u00e2nticos <\/em>2.4).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Temos no verso em hebraico o verbo <em>\u201cbow\u201d <\/em>ir para dentro, entrar, que est\u00e1 no grau hifil, causativo, no modo perfeito; a express\u00e3o metaf\u00f3rica <em>\u201cbayith yayin\u201d<\/em>, casa do vinho; <em>\u201cdegel\u201d, <\/em>bandeira, estandarte; e <em>\u201cahabah\u201d <\/em>que expressa prazer, desejo sexual. A Vulgata de S\u00e3o Jer\u00f4nimo traduz assim: <em>\u201cintroduxit me in cellam vinariam ordinavit in me caritatem\u201d<\/em>. A tradu\u00e7\u00e3o italiana de Diodati (vers\u00e3o de 1649) diz: <em>\u201cEgli mi ha condotta nella casa del convito, E l\u2019insegna ch\u2019egli mi alza \u00e8: Amor\u00e9\u201d<\/em>. E a tradu\u00e7\u00e3o SEV de 1569, diz: <em>\u201cMe llev\u00f3 a la c\u00e1mara del vino, y puso su estandarte de amor sobre m\u00ed\u201d<\/em>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Estamos diante de um poema oriental. A express\u00e3o \u201ccasa do vinho\u201d, em seu sentido liter\u00e1rio, n\u00e3o deve ser tomada literalmente, mas seguindo tradi\u00e7\u00f5es orientais antigas \u2013 e tamb\u00e9m portuguesas \u2013 \u00e9 uma met\u00e1fora, ao modo de \u201cadega do vinho\u201d ou \u201ccasa rosada\u201d, entre outras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><br>At\u00e9 o final do s\u00e9culo XIX, a moral estabelecia que arte e literatura eram ofensivas aos costumes quando recorressem \u00e0 sexualidade ou a linguagem inclu\u00edsse termos licenciosos. Em tais casos, arte e literatura eram consideradas er\u00f3ticas ou pornogr\u00e1ficas, j\u00e1 que n\u00e3o se discerniam os termos. Hoje, entendemos er\u00f3tico como relativo ao desejo sexual ou que aborda o amor sexual, e pornogr\u00e1fico como aquilo que descreve ou evoca lux\u00faria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><br>Como muito desses sentimentos dos oitocentos ainda t\u00eam ra\u00edzes profundas na cultura, o verso acima \u00e9 canto que choca a mentalidade ocidental, pois a Sulamita, a jovem do <em>C\u00e2ntico dos c\u00e2nticos<\/em>, diz que seu amante a penetra quando ela est\u00e1 menstruada. \u00c9 o tempo do durante, da casa do vinho, do gozo em rosa. E, assim, a regra da menstrua\u00e7\u00e3o enquanto tempo de impureza, presente no livro de Lev\u00edtico (15.19), \u00e9 derrubada pela rela\u00e7\u00e3o do casal. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma cr\u00edtica ao ato, que ela apresenta como uma op\u00e7\u00e3o que nasce do desejo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><br>E falar de desejo nos remete a um pequeno trecho de outro texto cl\u00e1ssico da literatura oriental, as <em>Mil e uma noites \u2013 Alf Lailah Oua Lailah <\/em>\u2013 uma colet\u00e2nea de textos \u00e1rabes, persas, hindus, sir\u00edacos e judaicos. Os contos mais antigos remontam ao s\u00e9culo XII no Egito. Mas agora nos interessa a rela\u00e7\u00e3o do filho do mercador Gh\u00e2nim e a favorita do sult\u00e3o, Q\u00fbt al-Qul\u00fbb.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:17px\"><blockquote><p><br><\/p><cite><em>Quando o gracioso filho do mercador Gh\u00e2nim e a bela favorita do sult\u00e3o foram para o leito, ele queria, mas ela n\u00e3o. Sobre a cintura da amante se podia ler: dif\u00edcil. A resist\u00eancia da mulher aumentava o desejo do homem. Os meses passaram e as coisas se inverteram. Quando mais tarde ela lhe dava beijos de incentivo, ele recuava e cada um ia dormir na sua esteira.<\/em><\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><br>O filho do mercador e a favorita do sult\u00e3o enfrentam a intermit\u00eancia do desejo, mas no verso 2.4 do <em>C\u00e2ntico dos c\u00e2nticos <\/em>a Sulamita e seu amante est\u00e3o em modula\u00e7\u00e3o unissonante: \u00e9 pra ser, prazer, par\u00f4nimo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><br>Entendemos melhor a presen\u00e7a do er\u00f3tico nos textos orientais antigos quando lemos Michel Foucault na <em>Hist\u00f3ria da Sexualidade, A Vontade de Saber<\/em>. Para ele, no Ocidente, existem dois procedimentos diante do bem e do mal do sexo. Um procedimento desconfiado diante das culturas romana antiga, chinesa, hindu, japonesa e \u00e1rabe, que desenvolveram uma <em>ars erotica<\/em>. Tal arte tira sua verdade do pr\u00f3prio prazer, entendido como experi\u00eancia onde n\u00e3o h\u00e1 lugar para proibi\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m do prazer que pode ser medido pela tesura do corpo e do esp\u00edrito. Essa arte er\u00f3tica \u00e9 experi\u00eancia e seu conhecimento n\u00e3o tem como ser transmitido pelo discurso. Sua for\u00e7a est\u00e1 no s\u00edmbolo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><br>A cultura ocidental n\u00e3o construiu uma <em>ars erotica<\/em>, por isso o outro procedimento nasceu de uma s<em>cientia sexualis<\/em>, que gera regras para definir o bem e o mal do sexo. Assim, a sexualidade ocidental \u00e9, predominantemente, resultante de um discurso constitu\u00eddo em <em>scientia sexualis<\/em>, que a religi\u00e3o sacralizou para produzir a verdade sobre o sexo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><br>O erotismo est\u00e1 presente nos textos antigos, no <em>C\u00e2ntico dos c\u00e2nticos <\/em>e nas <em>Mil e umas noites<\/em>, porque \u00e9 dimens\u00e3o da sexualidade lida atrav\u00e9s da <em>ars erotica<\/em>. Mas \u00e9 olhado com desconfian\u00e7a pela moral que repousa sobre a <em>scientia sexualis<\/em>. Eros \u00e9 express\u00e3o humana e assim deveria ser visto pelos exegetas que se debru\u00e7am sobre textos orientais da <em>ars erotica<\/em>.<br><br>Ou seja: o verso 2.4, analisado na profundidade do humano, nos fala de desejo, atributo da esp\u00e9cie, que nasce da capacidade de pensar o prazer. A jovem do <em>C\u00e2ntico dos c\u00e2nticos <\/em>n\u00e3o nos diz que durante a menstrua\u00e7\u00e3o tem mais vontade de transar, mas tamb\u00e9m n\u00e3o nos diz o contr\u00e1rio. Se \u00e9 regra, se n\u00e3o \u00e9 regra, n\u00e3o sabemos. Somos informados, por\u00e9m, que o desejo \u00e9 um estandarte. E assim o amante entra na casa do vinho.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[21,35,47],"tags":[140,197,253,286,295],"class_list":["post-2461","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cultura","category-jorge-pinheiro","category-teologia","tag-evangelicos","tag-literatura","tag-religiao","tag-teologia","tag-valores-cristaos"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2461"}],"collection":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2461"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2461\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2461"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2461"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2461"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}