{"id":2462,"date":"2023-10-01T10:39:31","date_gmt":"2023-10-01T13:39:31","guid":{"rendered":"https:\/\/profanum.com.br\/?p=1192"},"modified":"2023-10-01T10:39:31","modified_gmt":"2023-10-01T13:39:31","slug":"por-ser-exato-o-amor-nao-cabe-em-si-por-claudio-de-oliveira-ribeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/2023\/10\/01\/por-ser-exato-o-amor-nao-cabe-em-si-por-claudio-de-oliveira-ribeiro\/","title":{"rendered":"\u201cPor ser exato, o amor n\u00e3o cabe em si&#8230;\u201d, por Claudio de Oliveira Ribeiro"},"content":{"rendered":"\n<!--more-->\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:17px\"><blockquote><p><\/p><cite>O seu amor<br>Reluz que nem riqueza,&nbsp;<br>asa do meu destino<br>Clareza do tino, p\u00e9tala<br>De estrela caindo bem devagar.<br>(\u201cP\u00e9tala\u201d, Djavan)<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Certa vez, um grupo de estudantes de teologia da faculdade em que eu lecionava me convidou para \u201cfalar teologicamente sobre o amor\u201d. Sim, esse foi o tema que me solicitaram naquela ocasi\u00e3o para uma de suas reuni\u00f5es. E l\u00e1 se v\u00e3o quase vinte anos! Essa lembran\u00e7a veio \u00e0 tona recentemente quando uma das pessoas, muit\u00edssimo querida, que l\u00e1 estava encontrou nos guardados dela a folha de papel com o texto que eu havia preparado para apresentar naquele dia e me enviou, pela internet, a foto da p\u00e1gina\/sacramento. Fiquei emocionado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O t\u00edtulo \u201cP\u00e9talas de teologia\u201d, usei para parafrasear a can\u00e7\u00e3o \u201cP\u00e9tala\u201d, interpretada magistralmente por Djavan, que eu usava sempre como ilustra\u00e7\u00e3o nas minhas aulas com a express\u00e3o an\u00e1loga: \u201cDeus n\u00e3o cabe em si\u201d. Decidi, ent\u00e3o, reapresentar aquela reflex\u00e3o, adaptando alguns trechos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Naquela ocasi\u00e3o, eu comecei as palavras da seguinte forma:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O que seria falar <em>teologicamente<\/em> de algo? Seria o dizer de outra coisa que n\u00e3o fosse ela mesma? Em v\u00e1rios momentos, pessoas s\u00e3o chamadas a falar teologicamente a respeito de temas como viol\u00eancia, mulher, crian\u00e7a, cidade, pol\u00edtica e tantos outros assuntos. O que tarefas como essas significam?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Falar teologicamente sobre algo \u00e9 ponderar sobre o mesmo algo. N\u00e3o de outra coisa, n\u00e3o de outra realidade, quem sabe mais pura, a sua \u201cess\u00eancia\u201d. Portanto, eu n\u00e3o quero falar da \u201cess\u00eancia\u201d do amor, ou de um amor et\u00e9reo, metaf\u00edsico, que est\u00e1 nas nuvens&#8230; Para falar teologicamente do amor, temos que falar dele mesmo; e, mais do que falar, fazer amor. Como diz a B\u00edblia:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:17px\"><blockquote><p><\/p><cite>&#8220;Vem, embriaguemo-nos com as del\u00edcias do amor, at\u00e9 pela manh\u00e3; gozemos amores\u201d. (Prov\u00e9rbios 7.18)<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Lembremos que o amor tem muitas facetas. Estou falando do amor real, concreto, mesmo que ele exista somente nos sonhos, pois isso tamb\u00e9m \u00e9 real. Ele est\u00e1 ligado ao prazer, mas tamb\u00e9m \u00e0 dor. \u201cSustentai-me com passas, confortai-me com ma\u00e7\u00e3s, pois desfale\u00e7o [ou adoe\u00e7o] de amor\u201d (Cantares 2.5). Ele est\u00e1 associado \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m \u00e0 ren\u00fancia. Ele tem a ver com o fogo e \u00e0 \u00e1gua. \u201cAs muitas \u00e1guas n\u00e3o poderiam apagar o amor, nem os rios, afog\u00e1-lo; ainda que algu\u00e9m desse todos os bens da sua casa pelo amor, seria de todo desprezado\u201d (Cantares 8.7). Outra can\u00e7\u00e3o, cujo t\u00edtulo \u00e9 \u201cFaltando um peda\u00e7o\u201d, tamb\u00e9m interpretada por Djavan, revela essa faceta dilacerante:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:17px\"><blockquote><p><\/p><cite>O amor e a agonia<br>Cerraram fogo no espa\u00e7o<br>Brigando horas a fio<br>O cio vence o cansa\u00e7o<br><br><div>E o cora\u00e7\u00e3o de quem ama<br>Fica faltando um peda\u00e7o<br>Que nem a lua minguando<br>Que nem o meu nos seus bra\u00e7os<\/div><\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">E seguimos refletindo&#8230; O amor facilita a nossa vida, mas tamb\u00e9m atrapalha. N\u00e3o nos deixa, por exemplo, estudar para as provas ou fazer adequadamente os trabalhos acad\u00eamicos, mas nos faz rir como crian\u00e7as.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O pr\u00f3prio amor n\u00e3o nos deixa escolher a pessoa amada \u2013 \u00e9 ele quem escolhe por n\u00f3s \u2013, e isso nos faz sofrer quando, por exemplo, n\u00e3o se pode andar de m\u00e3os dadas com ela ou beij\u00e1-la em p\u00fablico. A mesma can\u00e7\u00e3o nos mostra que<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:17px\"><blockquote><p><\/p><cite>O amor \u00e9 um grande la\u00e7o<br>Um passo pra uma armadilha<br>Um lobo correndo em c\u00edrculos<br>Pra alimentar a matilha.<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Portanto, para falar teologicamente do amor \u00e9 preciso&#8230; amar. \u201cE n\u00f3s conhecemos e cremos no amor que Deus tem por n\u00f3s. Deus \u00e9 amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus, nele\u201d (I Jo\u00e3o 4.16).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O conhecido te\u00f3logo Paul Tillich, em um de seus serm\u00f5es denominado \u201cO poder do amor\u201d, disse que \u201cDeus e o amor n\u00e3o s\u00e3o duas realidades; eles s\u00e3o um. O ser de Deus \u00e9 o ser do amor, e o poder infinito de Deus \u00e9 o poder infinito do amor\u201d (<em>The New Being<\/em>, p. 26). A B\u00edblia diz que \u201cningu\u00e9m jamais viu a Deus; e, se amarmos uns aos outros, Deus permanece em n\u00f3s, e o seu amor \u00e9, em n\u00f3s, aperfei\u00e7oado\u201d (I Jo\u00e3o 4.12). E mais: \u201caquele que n\u00e3o ama n\u00e3o conhece a Deus, pois Deus \u00e9 amor\u201d (I Jo\u00e3o 4.8). E, se quisermos falar de miss\u00e3o ou algo similar, \u00e9 preciso lembrar que \u201cnisto conhecer\u00e3o todos que sois meus disc\u00edpulos: se tiverdes amor uns aos outros\u201d (Jo\u00e3o 13.35).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Outra faceta do amor \u00e9 a transgress\u00e3o. Lembremos de pessoas da B\u00edblia que foram intensamente amadas: o filho pr\u00f3digo, a mulher samaritana e tantas outras. Elas n\u00e3o estariam arroladas ou participando em nossas igrejas! No entanto, est\u00e1 escrito em Prov\u00e9rbios 17.9: \u201cO que encobre a transgress\u00e3o adquire amor, mas o que traz o assunto \u00e0 baila separa os maiores amigos\u201d. Um pouco antes, a sabedoria j\u00e1 exalava nos alertando que \u201co \u00f3dio excita contendas, mas o amor cobre todas as transgress\u00f5es\u201d (Prov\u00e9rbios 10.12). E, l\u00e1 na frente, outra vez, nos vem de novo a mesma voz afirmando que \u201cacima de tudo, por\u00e9m, tende amor intenso uns para com os outros, porque o amor cobre multid\u00e3o de pecados\u201d (I Pedro 4.8).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Ah&#8230; O amor traz certa inseguran\u00e7a. Primeiramente, porque ele \u00e9 arrebatador. Na can\u00e7\u00e3o \u201cP\u00e9tala\u201d, o poeta se esvai em dizer:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:17px\"><blockquote><p><\/p><cite>\u00d3, meu amor<br>Viver \u00e9 todo sacrif\u00edcio feito em seu nome<br>Quanto mais desejo um beijo, um beijo seu<br>Muito mais eu vejo gosto em viver, viver&#8230;<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Segundo, porque podemos amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo ou quem, por alguma raz\u00e3o, n\u00e3o dever\u00edamos. A\u00ed v\u00eam as culpas, os arroubos, as palpita\u00e7\u00f5es, as incertezas&#8230; Terceiro, porque as pessoas que amamos podem ser meninos de rua ou jovens nas pris\u00f5es, e isso d\u00e1 medo. N\u00e3o sabemos agir, embora saibamos o que dever\u00edamos fazer: \u201cOra, aquele que possuir recursos deste mundo, e vir seu irm\u00e3o padecer necessidade, e fechar-lhe o seu cora\u00e7\u00e3o, como pode permanecer nele o amor de Deus?\u201d (I Jo\u00e3o 3.17). Ent\u00e3o, seja pelo Eros, seja pelo \u00c1gape, estamos todos em maus [ou bons!] len\u00e7\u00f3is. Mas isso n\u00e3o tem jeito!&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:17px\"><blockquote><p><\/p><cite>O amor \u00e9 como um raio<br>Galopando em desafio<br>Abre fendas, cobre vales<br>Revolta as \u00e1guas dos rios<br>Quem tentar seguir seu rastro<br>Se perder\u00e1 no caminho<br>Na pureza de um lim\u00e3o<br>Ou na solid\u00e3o do espinho.<br>(\u201cFaltando um peda\u00e7o\u201d)<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O fato \u00e9 que a inseguran\u00e7a humana n\u00e3o pode ser superada nem por ativismos, ritualismos, idealismos, legalismos, sacramentalismos ou outras formas humanas de a\u00e7\u00e3o. \u00c9 nas \u201csitua\u00e7\u00f5es-limite\u201d vivenciadas pelo ser humano que se pode experimentar o amor gracioso de Deus. A felicidade, portanto, est\u00e1 unida ao risco e \u00e0 incerteza pr\u00f3prias da viv\u00eancia humana, assim como ocorreu com Jesus em suas tenta\u00e7\u00f5es (Lucas 4. 1-13). N\u00e3o diz a Palavra de Deus que \u201cno amor n\u00e3o existe medo; antes, o perfeito amor lan\u00e7a fora o medo. Ora, o medo produz tormento; logo, aquele que teme n\u00e3o \u00e9 aperfei\u00e7oado no amor\u201d (I Jo\u00e3o 4.18)? \u201cSem medo de ser feliz\u201d, como j\u00e1 cantamos todos n\u00f3s que amamos radicalmente os que sofrem.<\/p>\n\n\n\n<p>E ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:17px\"><blockquote><p><\/p><cite>Por ser exato, o amor n\u00e3o cabe em si.&nbsp;<br>Por ser encantado, o amor revela-se.&nbsp;<br>Por ser amor, invade e fim.<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[19,48,21,26,39,1,47],"tags":[59,69,99,152,213,286],"class_list":["post-2462","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-claudio-de-oliveira-ribeiro","category-cultura-cultura","category-cultura","category-moralidade","category-linguagem","category-sem-categoria","category-teologia","tag-amor","tag-biblia","tag-cultura","tag-fe","tag-musica","tag-teologia"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2462"}],"collection":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2462"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2462\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2462"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2462"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2462"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}