{"id":2464,"date":"2023-10-11T09:14:06","date_gmt":"2023-10-11T12:14:06","guid":{"rendered":"https:\/\/profanum.com.br\/?p=1199"},"modified":"2023-10-11T09:14:06","modified_gmt":"2023-10-11T12:14:06","slug":"se-eu-quiser-falar-com-deus-por-claudio-de-oliveira-ribeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/2023\/10\/11\/se-eu-quiser-falar-com-deus-por-claudio-de-oliveira-ribeiro\/","title":{"rendered":"\u201cSe eu quiser falar com Deus&#8230;\u201d, por Claudio de Oliveira Ribeiro"},"content":{"rendered":"\n<!--more-->\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:17px\"><blockquote><p><\/p><cite>Tenho que dizer adeus<br>Dar as costas, caminhar<br>Decidido, pela estrada<br>Que, ao findar, vai dar em nada [\u2026]<br>Do que eu pensava encontrar.<br>(Gilberto Gil)<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">H\u00e1 imagens que marcam nossa vida. Duas delas, por motivos distintos e n\u00e3o facilmente explic\u00e1veis, vieram nestes dias como onda impetuosa em minha mente e cora\u00e7\u00e3o. Ambas me reportam ao mar, com a sua imensid\u00e3o, mist\u00e9rio e profundidade. A primeira foi de anos atr\u00e1s, quando eu me recuperava de uma delicada cirurgia card\u00edaca, situa\u00e7\u00e3o-limite \u00e0 qual muitas vezes me refiro nas reflex\u00f5es que fa\u00e7o. Naqueles dias, pude desfrutar de momentos pr\u00e1 l\u00e1 de significativos diante dele, com os p\u00e9s ro\u00e7ando na areia, sentindo o vento no rosto e ouvindo o sussurrar das ondas. Foi um m\u00eas inteiro gozando de um tipo de banho de existencialidade e contempla\u00e7\u00e3o, com oportunidades di\u00e1rias de olhar todo aquele vasto c\u00e9u azul, que, no encontro das \u00e1guas, l\u00e1 naquele bel\u00edssimo horizonte, me possibilitava esvaziamento, integra\u00e7\u00e3o c\u00f3smica e um sentimento de \u00eaxtase e de profunda revis\u00e3o e valoriza\u00e7\u00e3o da vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Ali, na beleza da Cria\u00e7\u00e3o, no \u201cazul da cor do mar\u201d \u2013 para n\u00e3o esquecer o meu querid\u00edssimo Tim Maia \u2013, eu me esvaziava, me exauria e me reconstru\u00eda. Certamente, tantas outras pessoas tiveram experi\u00eancias similares, e \u00e9 t\u00e3o bom relembr\u00e1-las! Ao tentar me traduzir, comecei a ouvir vozes, como as da bela can\u00e7\u00e3o de Gilberto Gil:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:17px\"><blockquote><p><\/p><cite>Tenho que encontrar a paz<br>Tenho que folgar os n\u00f3s<br>Dos sapatos, da gravata<br>Dos desejos, dos receios <br><br>Tenho que esquecer a data<br>Tenho que perder a conta<br>Tenho que ter m\u00e3os vazias<br>Ter a alma e o corpo nus<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Como frequentemente fa\u00e7o, rememoro as palavras do te\u00f3logo Paul Tillich \u2013 t\u00e3o fortes e inebriantes para mim \u2013 que, em sua autobiografia, real\u00e7ou o impacto que as primeiras vistas das ondas do oceano causaram em sua vida. Ele narra que, quando estava diante do mar, sentia os mist\u00e9rios e a profundidade do cosmo vindo inteiramente no vagar das ondas e percebia que penetravam na dimens\u00e3o mais \u00edntima e visceral dele.&nbsp;Assim, as ondas da fundura da vida se misturam com as da interioridade humana. L\u00e1, no mais \u00edntimo de cada ser, tudo \u00e9 recriado, revisto, redimensionado. E o movimento \u00e9 cont\u00ednuo e processual. Para Tillich, as ondas j\u00e1 existentes dentro de n\u00f3s, uma vez sacudidas pela for\u00e7a das outras que nos invadem, saem robustas de volta para o mar e se reencontram com a profundeza do universo e dos destinos. Ser\u00e1 isso verdade?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O fil\u00f3sofo Andr\u00e9 Comte-Sponville nos lembrara que \u201cestamos no Todo e ele, finito ou n\u00e3o, nos ultrapassa (vai al\u00e9m de n\u00f3s) em toda dire\u00e7\u00e3o: seus limites, se ele tem algum, est\u00e3o permanentemente fora do nosso alcance. Ele nos envolve, nos cont\u00e9m, e nos excede\u201d. \u00c9 uma transcend\u00eancia inexaur\u00edvel, indefinida e ambiguamente imanente, com fronteiras sinuosas e limites incertos e inacess\u00edveis.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">A outra imagem me ocorreu anos depois naquela mesma praia. Foi quando acordei com uma forte lembran\u00e7a de minha m\u00e3e, dona Cleusa, que, naquele dia, se estivesse entre n\u00f3s, completaria 81 anos de vida. Ao sair para caminhar no mar, dentro das mesmas \u00e1guas tranquilas e cristalinas da Lagoa de Araruama, avistei, como de costume, um grupo de hidrogin\u00e1stica. Minha m\u00e3e participava dele com muito entusiasmo, e todas as vezes que o vejo n\u00e3o tenho como n\u00e3o me lembrar dela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Naquela oportunidade, ao passar por aquelas pessoas, fui cumprimentado pelo professor, que falou emocionado sobre ela e sobre o meu pai, Sr. Manoel, que tamb\u00e9m havia partido. Ali, \u00e0 vista dos participantes, cerca de vinte ao todo, trocamos impress\u00f5es muito legais dos meus \u201cvelhos\u201d. Ele disse, por exemplo, que o pai era seu companheiro de nata\u00e7\u00e3o (mal sabe que fic\u00e1vamos at\u00f4nitos de medo ao v\u00ea-los bem longe no mar). Falamos tamb\u00e9m de minha m\u00e3e, que criou a mim e a minha irm\u00e3 Eliana com muito cuidado, nos ensinou a ler e a escrever. Al\u00e9m disso, ambos nos ensinaram a buscar a justi\u00e7a e a sermos solid\u00e1rios diante da fragilidade e do sofrimento das pessoas. Sempre eu os encontro em sonhos e lembran\u00e7as.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Foi como um ato celebrativo e redentor! Mem\u00f3ria comunit\u00e1ria, coletiva, costurada por singulares lembran\u00e7as, tendo como companhia as \u00e1guas na cintura moldando nossos corpos. Foi tamb\u00e9m revis\u00e3o da vida, redimensionamento de valores, tentativa de equacionamento de ambiguidades, contradi\u00e7\u00f5es, fal\u00e1cias. Pois&#8230;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:17px\"><blockquote><p><\/p><cite>Se eu quiser falar com Deus<br>Tenho que aceitar a dor<br>Tenho que comer o p\u00e3o<br>Que o diabo amassou<br><br>Tenho que me ver tristonho<br>Tenho que me achar medonho<br>E apesar de um mal tamanho<br>Alegrar meu cora\u00e7\u00e3o<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">E segui andando dentro d\u2019\u00e1gua. Feliz! \u00c9 como ouvisse: \u201cCora\u00e7\u00f5es ao alto\u201d. E repetisse: \u201cO meu cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 em Deus\u201d. Continuei caminhando no mar, e as imagens vinham e voltavam aceleradamente. Cercado pela bel\u00edssima vista que nos emoldurava, e com o cora\u00e7\u00e3o inundado de lembran\u00e7as, comecei a chorar. Um sentimento misturado: saudade, tristeza, alegria, gratid\u00e3o, desejo de estar com eles&#8230; Choro intenso. De crian\u00e7a. Ao meu lado, Magali, minha esposa, com a ternura de sempre, soube silenciar e, ao mesmo tempo, dizer palavras s\u00e1bias. Ela soube se distanciar e ficar bem junto. Amorosamente sugeriu que, depois do choro, eu mergulhasse naquelas purificadoras \u00e1guas, e assim o fiz. Emergi ressurreto. Feliz, consolado, restaurado e grato pelo dom da vida. Um \u00eaxtase espiritual, livre. Lembrei-me das palavras de Jesus que revelava serem \u201cfelizes os que choram porque ser\u00e3o consolados\u201d (Evangelho de Mateus, 5.4). Mais uma vez, ecoou a can\u00e7\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:17px\"><blockquote><p><\/p><cite>Se eu quiser falar com Deus<br>Tenho que ficar a s\u00f3s<br>Tenho que apagar a luz<br>Tenho que calar a voz<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Durante boa parte do dia, fiquei com aquele gosto na boca. Saudade esperan\u00e7osa, que me levava a me esvaziar, a me despojar, como experi\u00eancia quen\u00f3tica integradora e libertadora.&nbsp; Comte-Sponville tamb\u00e9m dissera:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:17px\"><blockquote><p><\/p><cite>Que al\u00edvio quando o ego sai do caminho! Nada resta, exceto o Todo, com o corpo maravilhosamente dentro dele, como se restitu\u00eddo ao mundo e a si mesmo. N\u00e3o resta nada, exceto aquele lugar enorme para estar, a natureza e o universo, sem restar ningu\u00e9m dentro de n\u00f3s para ser aterrorizado ou tranquilizado.\u00a0<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Da\u00ed fiquei pensando em tanta gente que n\u00e3o vive e nem deseja as espiritualidades religiosas, na maioria das vezes cheias de racionalismos, formalidades e moralismos. Pessoas que buscam mergulhos mais profundos, que reavivem a alma, que abalem as exist\u00eancias, que deem sentido mais amplo a tudo o que est\u00e1 ao redor. Sonhar em outras dire\u00e7\u00f5es. Livres, libertos, aut\u00f4nomos, sem as amarras do dinheiro e do poder que povoam a nossa mente, sem as autoconfian\u00e7as exageradas ou egocentrismos m\u00f3rbidos. Talvez, por isso e por tantas armadilhas falaciosas que inventei&#8230;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:17px\"><blockquote><p><\/p><cite>Tenho que virar um c\u00e3o<br>Tenho que lamber o ch\u00e3o<br>Dos pal\u00e1cios, dos castelos<br>Suntuosos do meu sonho<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Provocados pela mesma can\u00e7\u00e3o, seria oportuno indagar se \u00e9 poss\u00edvel mergulhar nessas \u00e1guas para que corpos novos e surpreendentes imagens possam emergir:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:17px\"><blockquote><p><\/p><cite>Se eu quiser falar com Deus<br>Tenho que me aventurar<br>Tenho que subir aos c\u00e9us<br>Sem cordas pr\u00e1 segurar<br>Sem cordas pr\u00e1 segurar<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[19,48,21,39,47],"tags":[69,152,163,223,286,295],"class_list":["post-2464","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-claudio-de-oliveira-ribeiro","category-cultura-cultura","category-cultura","category-linguagem","category-teologia","tag-biblia","tag-fe","tag-gilberto-gil","tag-oracao","tag-teologia","tag-valores-cristaos"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2464"}],"collection":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2464"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2464\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2464"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2464"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2464"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}