{"id":270,"date":"2022-09-28T01:04:43","date_gmt":"2022-09-28T04:04:43","guid":{"rendered":"https:\/\/profanum.com.br\/?p=270"},"modified":"2022-09-28T01:04:43","modified_gmt":"2022-09-28T04:04:43","slug":"as-diferencas-sao-desconcertantes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/2022\/09\/28\/as-diferencas-sao-desconcertantes\/","title":{"rendered":"&#8220;As diferen\u00e7as s\u00e3o desconcertantes&#8221;,                                                                                                            por  Claudio de Oliveira Ribeiro"},"content":{"rendered":"\n<!--more-->\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-medium-font-size\"><strong>(Green Book \u2013 O Guia)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group\"><div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow\">\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:16px\"><blockquote><p><\/p><cite><em>Foi para diferenciar<br>Que Deus criou a diferen\u00e7a<br>Quer ir\u00e1 nos aproximar<br>Intuir o que ele pensa<br>Se cada ser \u00e9 s\u00f3 um<br>E cada um com sua cren\u00e7a<br>Tudo \u00e9 raro, nada \u00e9 comum<\/em><br>(\u201cDiversidade\u201d, Lenine)<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Para quem tem real\u00e7ado a import\u00e2ncia da alteridade e do valor das intera\u00e7\u00f5es culturais e das viv\u00eancias fronteiri\u00e7as como elementos de amadurecimento e de empoderamento na vida, assistir ao filme \u201cGreen Book \u2013 O Guia\u201d (2019) foi algo excepcional. Sa\u00ed do cinema emocionado ao ver as fronteiras e as experi\u00eancias de vida de pessoas e grupos t\u00e3o distintos e conflitantes sendo magicamente cruzadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Ganhador do Oscar de melhor filme, \u201cGreen Book\u201d, baseado em fatos reais ocorridos nos Estados Unidos em 1962, conta a hist\u00f3ria de um inusitado encontro. Trata-se da rela\u00e7\u00e3o entre um migrante grosseir\u00e3o de fam\u00edlia pobre italiana, Tony Lip, interpretado magistralmente por Viggo Mortensen, que presta servi\u00e7o de seguran\u00e7a em eventos, e, Don Shirley, um rico e refinado pianista negro, vivido por Mahershala Ali. O m\u00fasico deseja contratar Tony Lip como motorista e seguran\u00e7a para uma turn\u00ea de oito semanas no sul do Pa\u00eds, naquela \u00e9poca marcadamente racista e conflitivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Na linha do igualmente premiado \u201cConduzindo Miss Dayse\u201d, o filme, dirigido por Peter Farrelly, mostra a crueza da vida nos Estados Unidos, com as express\u00f5es cotidianas de preconceitos e a explora\u00e7\u00e3o de base racista nos \u00e2mbitos do trabalho, da cultura, da legisla\u00e7\u00e3o e dos costumes da \u00e9poca. Profundo e, ao mesmo tempo, divertido, \u201cGreen Book\u201d n\u00e3o permite que saiamos dele ilesos. Foi assim comigo&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Para quem n\u00e3o acredita na bondade humana, na gratuidade da vida, na supera\u00e7\u00e3o de preconceitos e nas formas graciosas e rom\u00e2nticas de amar poder\u00e1 ver nas cenas do filme uma luz. \u00c9 claro que o ser humano n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o bom assim&#8230; Interesses escusos, mentiras, revanchismos e viol\u00eancia n\u00e3o faltam. N\u00e3o faltam no filme. N\u00e3o faltam em nossa vida ordin\u00e1ria. Ou n\u00e3o? Um bom balan\u00e7o de nossos \u00faltimos atos e pensamentos seria revelador. A alteridade, que \u00e9 a possibilidade humana de nos relacionarmos com as realidades, grupos e pessoas diferentes de n\u00f3s mesmos, n\u00e3o \u00e9 algo t\u00e3o simples assim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Mas, como sabemos, a alteridade \u00e9 elemento fundamental da f\u00e9 crist\u00e3. N\u00e3o \u00e9 mera op\u00e7\u00e3o. Ela passa pela dimens\u00e3o decisiva e vocacional da f\u00e9. Ela \u00e9 permeada de vis\u00f5es b\u00edblicas, mas tamb\u00e9m est\u00e1 presente, como valor, no campo da antropologia e da filosofia. Alter, da origem grega, \u00e9 o diferente. Portanto, a capacidade de alteridade \u00e9 reconhecer um \u201coutro\u201d que est\u00e1 al\u00e9m da subjetividade pr\u00f3pria de cada pessoa, grupo ou institui\u00e7\u00e3o. E o filme nos leva para esses caminhos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Alteridade \u00e9 uma postura, um m\u00e9todo ou mesmo um sistema de ferramentas cient\u00edficas que permitem redimensionar, em perspectiva, a realidade. Assim, a plausibilidade de um dado sistema religioso ou cultural se evidenciaria no conv\u00edvio com o \u201coutro\u201d e n\u00e3o na confronta\u00e7\u00e3o apolog\u00e9tica, tentando desqualific\u00e1-lo, diminu\u00ed-lo ou segreg\u00e1-lo em preconceitos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Desta forma, abre-se a cortina da vida para possibilidades criativas de aproxima\u00e7\u00e3o e de conv\u00edvio das quais decorrer\u00e1 em melhor compreens\u00e3o do \u201coutro\u201d, que n\u00e3o mais ser\u00e1 visto como ex\u00f3tico, como inimigo, como inferior ou como qualquer outra forma de desqualifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">E no filme n\u00e3o faltaram diferen\u00e7as&#8230; brancos e negros, migrantes de v\u00e1rios cantos, homens machistas, mulheres desejosas do amor, vidas lascadas e opul\u00eancia, afetos e viol\u00eancias, policiais corruptos e policiais \u00edntegros, rea\u00e7\u00f5es agressivas e contundentes diante da opress\u00e3o e desrespeito humano e posturas de a\u00e7\u00e3o e afirma\u00e7\u00e3o n\u00e3o-violentas. Minha cabe\u00e7a foi \u201c\u00e0 mil\u201d. Vi cada pedacinho do Brasil, cada trecho de nossas vidas, cada esquina. Vi governantes com armas na m\u00e3o. [Quando assiste ao filme] vi o \u00f3dio correndo nas veias dos que ocupavam o poder.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Mas, tamb\u00e9m me lembrei dos esfor\u00e7os de tanta gente querida em superar concep\u00e7\u00f5es e identidades (religiosas e culturais) que, a partir de prerrogativas exclusivistas de superioridade, inibem o acesso ao reconhecimento de &#8216;um outro&#8217; que seja diferente do &#8216;mesmo&#8217;, que seja ele ou ela mesma. Mesmo com toda a sorte de viol\u00eancia e absolutismos, algo vibrante e criativo pulsa dentro de n\u00f3s. A alteridade \u00e9 uma dimens\u00e3o e realidade constitutiva do ser, compreendido sempre como inter-ser. Ou seja, que o eu s\u00f3 \u00e9 eu por conta de sua inter-a\u00e7\u00e3o com o outro. A busca do di\u00e1logo, o reconhecimento dos nossos pr\u00f3prios limites e preconceitos e as atitudes de compreens\u00e3o e coopera\u00e7\u00e3o com o outro podem em muito contribuir para a supera\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia, de todos os tipos, e para uma cultura ecum\u00eanica da solidariedade, da justi\u00e7a e da paz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Mas, como o filme revela, a vida \u00e9 tecida por muitas ambiguidades e contradi\u00e7\u00f5es. H\u00e1 lutas interiores tremendas em cada um de n\u00f3s! O te\u00f3logo Faustino Teixeira nos chamara a aten\u00e7\u00e3o que \u201cde um lado, [est\u00e1] a demarca\u00e7\u00e3o de identidade particulares, ou seja, o ref\u00fagio em universos simb\u00f3licos que favore\u00e7am a impress\u00e3o de uma unidade coerente e compacta da realidade social. De outro, a abertura \u00e0 \u2018mesti\u00e7agem cultural\u2019, a negocia\u00e7\u00e3o ou o interc\u00e2mbio cognitivo com o horizonte da alteridade (2008, p.70).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Sa\u00ed do cinema re-vigorado, re-batizado, re-esperan\u00e7ado. Mas, as divis\u00f5es s\u00e3o profundas e os preconceitos s\u00e3o muito enraizados e estruturados socialmente. A te\u00f3loga Ivone Gebara nos alerta que a \u201cnossa percep\u00e7\u00e3o do mundo e de n\u00f3s mesmas se condicionou a uma forma de cren\u00e7a na sobreviv\u00eancia a partir da concorr\u00eancia contra os outros. O princ\u00edpio da coopera\u00e7\u00e3o, princ\u00edpio presente nas formas mais primitivas da vida desde as mais origin\u00e1rias express\u00f5es, parece ter sido esquecido. E sabemos que devemos a este princ\u00edpio inerente \u00e0 vida todas as conquistas em amor, solidariedade e cuidado que desenvolvemos\u201d (2010, p. 95).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">E h\u00e1 um aspecto que est\u00e1 assentado na dimens\u00e3o existencial. Ele pressup\u00f5e certa inclina\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica de demarca\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o, de diferen\u00e7a e de identidade. Isto pode se dar de forma positiva, como valoriza\u00e7\u00e3o da alteridade, assim como pode ser dar de maneira desintegradora, excludente e at\u00e9 mesmo agressiva. O filme mostra muito bem isso. Sempre nos lembramos do relato b\u00edblico do fariseu e do publicano, em Lucas 18, 10-13. O fariseu, que cumpre a lei \u00e0 risca e compreende que por isso \u00e9 aceito e legitimado por Deus, se alegra com tal identidade. Para a mesma autora, \u201ccomo muitos de n\u00f3s, ele [o fariseu] sai feliz do templo, talvez at\u00e9 impondo a todos os outros a sua convic\u00e7\u00e3o de ser justo diante de Deus e diante de sua pr\u00f3pria consci\u00eancia. Fecha-se numa vis\u00e3o, numa ideologia, numa maneira de compreender sua humanidade e sua religi\u00e3o, quase convencido que \u00e9 poss\u00edvel reduzir toda a diversidade do mundo a si mesmo. E, o mais grave, arma uma guerra contra os outros que s\u00e3o diferentes, n\u00e3o apenas nas cren\u00e7as, mas na cor da pele, na orienta\u00e7\u00e3o sexual, na nacionalidade, na idade. Corre at\u00e9 o risco de torn\u00e1-los seus inimigos, aqueles que devem ser combatidos e exterminados da face da terra. \u00c9 dif\u00edcil ser o publicano, aquele que reconhece o limite se sua exist\u00eancia e de seus atos\u201d (2010, p. 254).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Superar preconceitos e vis\u00f5es limitadas que temos daquele que \u00e9 diferente de n\u00f3s \u00e9 um enorme desafio. \u00c9 um fio cortante no peito. \u00c9 a nossa possibilidade de viver, de ter um futuro, de se realizar como gente, como humanos, como pessoas felizes. Cruzar as fronteiras das identidades r\u00edgidas, fixas e pr\u00e9-concebidas. Ir al\u00e9m do \u201cGreen Book\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">A\u00ed est\u00e1, um convite! \u00c9 para uma viagem ao \u201csul\u201d de nossas vidas.  <\/p>\n\n\n\n<p>Textos citados:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Faustino Teixeira. &#8220;O Fundamentalismo em tempos de pluralismo religioso&#8221;. In: MOREIRA, Alberto da Silva &amp; DIAS DE OLIVEIRA, Irene (orgs.). <em>O Futuro da Religi\u00e3o na Sociedade Global<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulinas\/UCG, 2008.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Ivone Gebara. <em>Vulnerabilidade, justi\u00e7a e feminismos<\/em>. S\u00e3o Bernardo do Campo: Nhanduti, 2010.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para quem tem real\u00e7ado a import\u00e2ncia da alteridade e do valor das intera\u00e7\u00f5es culturais e das viv\u00eancias fronteiri\u00e7as como elementos de amadurecimento e de empoderamento na vida, assistir ao filme \u201cGreen Book \u2013 O Guia\u201d (2019) foi algo excepcional. 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