{"id":444,"date":"2022-11-30T09:01:02","date_gmt":"2022-11-30T12:01:02","guid":{"rendered":"https:\/\/profanum.com.br\/?p=444"},"modified":"2022-11-30T09:01:02","modified_gmt":"2022-11-30T12:01:02","slug":"e-possivel-cruzar-as-fronteiras-de-mundos-desiguais-por-claudio-de-oliveira-ribeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/2022\/11\/30\/e-possivel-cruzar-as-fronteiras-de-mundos-desiguais-por-claudio-de-oliveira-ribeiro\/","title":{"rendered":"&#8220;\u00c9 poss\u00edvel cruzar as fronteiras de mundos desiguais?&#8221;,                                              por Claudio de Oliveira Ribeiro"},"content":{"rendered":"\n<!--more-->\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-medium-font-size\"><strong>(Parasita)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\" style=\"font-size:16px\"><blockquote><p><\/p><cite><em>\u00c9 PAU, \u00c9 PEDRA, \u00c9 O FIM DO CAMINHO<\/em><br><em>\u00c9 UM RESTO DE TOCO, \u00c9 UM POUCO SOZINHO<\/em><br><em>\u00c9 UM CACO DE VIDRO, \u00c9 A VIDA, \u00c9 O SOL.<\/em><br>(\u201c\u00c1GUAS DE MAR\u00c7O\u201d, DE TOM JOBIM)<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Foi impactante assistir \u201cParasita\u201d, o filme sul-coreano, dirigido por Bong Joon-ho e ganhador do Oscar 2020. Sa\u00ed do cinema com a cabe\u00e7a girando, o corpo bambeando e com muitos outros \u201cfilmes\u201d, reais e cinematogr\u00e1ficos, em mente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">A est\u00f3ria mostra uma fam\u00edlia pobre da Coreia do Sul que entra, n\u00e3o necessariamente da forma mais adequada ou eticamente correta, nos espa\u00e7os de uma fam\u00edlia rica. Mundos distintos e desiguais! Ki-woo, muito bem interpretado por Choi Woo-sik, \u00e9 um jovem sem forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria, mas que domina bem a l\u00edngua inglesa. Ele recebe de um amigo o convite\/miss\u00e3o de dar aulas particulares de ingl\u00eas para Da-hye, a filha mais velha&nbsp;do empres\u00e1rio Park (Lee Sun-kyun) e de Yeon-kyo (Cho Yeo Jeong), uma angustiada dona de casa, leg\u00edtima representante das futilidades do \u201coutro mundo\u201d. O trabalho foi a porta de entrada de toda a fam\u00edlia Kitaek, desempregados que viviam em uma prec\u00e1ria casa num por\u00e3o em Seul: Ki-Jung (Park So-dam), a filha, como suposta professora de artes e arteterapeuta, Kim Ki-taek (Song Kang-ho), o pai, e Choong-sook (Chang Hyae-jin), a m\u00e3e, todos com excelentes interpreta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Os dois mundos estavam ali, se cruzando. Os \u201centre-lugares\u201d, para lembrar o pensador Homi Bhabha, se tornavam efervescentes, atraentes, sedutores e disputados no denso e cativante jogo simb\u00f3lico que o filme oferece. Ricos e pobres no jogo da vida. Sim! Os pobres, os mesmos que a B\u00edblia crist\u00e3 recomenda que estejam sempre conosco (Evangelho de Jo\u00e3o 12.8). A suntuosidade e a artificialidade dos espa\u00e7os dom\u00e9sticos da fam\u00edlia rica contrastam com a crueldade da vida da que \u00e9 pobre. Para quem acha que o capitalismo \u00e9 uma beleza e que a Coreia do Sul est\u00e1 se enriquecendo porque \u00e9 aben\u00e7oada por Deus, como dizem as ideologias religiosas, vai ver que n\u00e3o \u00e9. Desigualdades, desemprego, desesperan\u00e7a. O filme revela a realidade. E o faz de forma similar ao livro b\u00edblico do Apocalipse, que a l\u00edngua inglesa criativamente traduziu por \u201cRevelation\u201d. Isto! Mostrar como \u00e9. Revelar o que est\u00e1 escondido. \u00c9 como os antigos filmes das m\u00e1quinas fotogr\u00e1ficas que guardavam no escuro de suas pel\u00edculas a claridade das imagens. A ambiguidade da vida e dos sistemas de poder pode ser revelada. E o filme faz isso com maestria, em linha similar \u00e0 dos premiados Coringa e o brasileiro Bacurau, que encantaram plateias com a subvers\u00e3o dos caminhos de justi\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">A can\u00e7\u00e3o \u201cMet\u00e1fora\u201d, de Gilberto Gil, me veio \u00e0 mente logo no in\u00edcio do filme: \u201cUma meta serve para ser um alvo. Mas, quando o poeta diz \u2018meta\u2019 pode estar querendo dizer o inating\u00edvel\u201d, especialmente pelas repetidas vezes em que o jovem Ki-woo ao se referia \u00e0s coisas ao seu redor, excitado, dizia \u201cisso \u00e9 metaf\u00f3rico\u201d. O filme, portanto, vai \u201cpara al\u00e9m de\u201d. Assim como a vida e os nossos espa\u00e7os, que tamb\u00e9m v\u00e3o para \u201cal\u00e9m de\u201d. Marcados por subjetividades e conting\u00eancias nossos passos v\u00e3o criando situa\u00e7\u00f5es, inspirando sonhos de atravessar fronteiras e desejos de \u201coutro mundo poss\u00edvel\u201d. Mas, o filme (e a vida n\u00e3o \u00e9 diferente!) revela a crueldade e a viol\u00eancia internalizada em n\u00f3s. N\u00e3o romantiza os pobres, nem idealiza os ricos. Mostra mundos intranspon\u00edveis e inalcan\u00e7\u00e1veis \u201cpor\u00f5es\u201d (e essa \u00e9 uma palavra-chave do filme).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Foi nesse momento que eu pensei: Ah! Eu tamb\u00e9m tenho os meus \u2018por\u00f5es\u2019 e abrigos secretos; todo mundo tem. E todos desejamos a claridade. Todos queremos uma \u201cpedra da sorte\u201d, como a mostrada no filme, marcada por m\u00edstica (que gera a riqueza) e concretude (que produz a morte). Todos cambaleamos por in\u00fameros fasc\u00ednios. Na hora, me veio a lembran\u00e7a do outro verso da mesma can\u00e7\u00e3o: \u201cUma lata pode conter algo, mas quando o poeta diz \u2018lata\u2019 pode estar querendo dizer o incont\u00edvel\u201d. E, da mesma forma, os versos de Murilo Mendes, seu \u201cPoema Espiritual\u201d:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<div class=\"wp-block-group is-vertical is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-1 wp-block-group-is-layout-flex\">\n<p><em>Eu me sinto um fragmento de Deus<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Como sou um resto de raiz<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Um pouco de \u00e1gua dos mares<\/em> <\/p>\n\n\n\n<p><em>O bra\u00e7o desgarrado de uma constela\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O filme n\u00e3o nos deixa despregar os olhos da tela. Cada cena, uma expectativa, uma conex\u00e3o com o que passa em nosso mundo \u201cde verdade\u201d, pontes com os nossos planos e valores. Kim Ki-taek, o pai pobre e espertalh\u00e3o, que alterna sensibilidade humana e puls\u00f5es de viol\u00eancia, sabe que na vida os planos n\u00e3o s\u00e3o qualquer garantia, que n\u00e3o adianta faz\u00ea-los, e que as ondas v\u00eam e os levam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Parasita revela dois mundos divididos (\u00e9 fato que sabemos que na vida existem muito mais do que \u201cdois mundos\u201d). Tudo \u00e9 desigual e se interconecta. A chuva que \u00e9 vista como \u201cb\u00ean\u00e7\u00e3o\u201d para a m\u00e3e burguesa \u00e9 a mesma que destr\u00f3i a moradia dos pobres. O fantasma que o inquieto Da-song, o filhinho rico, v\u00ea \u00e9 deste mundo cruel mesmo. Tudo de alguma forma se encontra. At\u00e9 mesmo as fantasias sexuais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O filme me fez pensar em diversas dire\u00e7\u00f5es. Em v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es da vida, tanto as que eu enfrentei quanto as que pude testemunhar ou acompanhar, quando o limite se faz presente, n\u00f3s podemos entender com maior nitidez o que o te\u00f3logo Paul Tillich, chamava de \u201ctransitoriedade da vida\u201d. \u00c9 bem verdade que ele se referia ao choque de transitoriedade da vida em geral, ligando-o \u00e0s experi\u00eancias cotidianas, mas que, uma vez vividas com intensidade, nos mostrariam o sentido mais profundo do viver. O choque de transitoriedade \u00e9 sentido a partir de situa\u00e7\u00f5es-limites da vida. Nesse sentido, n\u00e3o somente o encontro com a morte f\u00edsica da vida, como j\u00e1 vivi, \u00e9 situa\u00e7\u00e3o-limite, mas tamb\u00e9m a possibilidade de rever, em algum instante de experi\u00eancia significativa, todos os fundamentos da vida. Refiro-me ao que ele chamou de <em>the shaking of the foundations<\/em> ou o abalar das estruturas. Ali\u00e1s, este \u00e9 o t\u00edtulo de um bel\u00edssimo livro de seus serm\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Em muitos serm\u00f5es que Tillich escreveu, ele procurou mostrar que se estivermos na estabilidade e na tranquilidade do dia a dia n\u00e3o nos depararemos, de fato, com as nossas estruturas vitais. N\u00f3s somente as perceberemos quando formos sacudidos por experi\u00eancias-limites, como ele mesmo denomina. N\u00e3o se trata da morte, mas sim do limiar da vida, quando diante das situa\u00e7\u00f5es-limites vivenciamos profundamente cada uma delas, nos damos conta de nossa finitude, de nossa limita\u00e7\u00e3o humana e dos recursos da terra, e tamb\u00e9m das possibilidades do abrir-se para o novo, para algo que realmente nos mova em dire\u00e7\u00e3o ao futuro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">E no enredo do filme, para l\u00e1 de real, existe o \u201ccheiro dos pobres\u201d. Esse \u00e9 arrebatador! \u00c9 o divisor de \u00e1guas. \u00c9 o incontrol\u00e1vel, o que \u201crevela\u201d, o que n\u00e3o permite falseamento do sistema. O cheiro do pobre enquadra e desestabiliza o rico. No filme e na vida. Destr\u00f3i a sua arrog\u00e2ncia, a l\u00f3gica do \u201ceu estou pagando\u201d, desnuda sua pretensa \u201cfinesse\u201d e humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">E o empres\u00e1rio at\u00e9 parece gostar daqueles pobres, especialmente porque ele tem a ilus\u00e3o de que eles n\u00e3o ultrapassam a linha que divide os seus mundos. Essa frase \u00e9 marcante no filme: \u201cn\u00e3o ultrapassar a linha\u201d. Entretanto, quando ultrapassam, tudo desmorona para os dois mundos. Ser\u00e1 este o nosso fim?<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi impactante assistir \u201cParasita\u201d, o filme sul-coreano, dirigido por Bong Joon-ho e ganhador do Oscar 2020. 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