{"id":472,"date":"2022-10-01T00:02:14","date_gmt":"2022-10-01T03:02:14","guid":{"rendered":"https:\/\/profanum.com.br\/?p=472"},"modified":"2022-10-01T00:02:14","modified_gmt":"2022-10-01T03:02:14","slug":"quem-sao-os-nossos-inimigos-por-mizael-pinto-de-souza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/2022\/10\/01\/quem-sao-os-nossos-inimigos-por-mizael-pinto-de-souza\/","title":{"rendered":"&#8220;Quem s\u00e3o os nossos inimigos?&#8221;, por Mizael Pinto de Souza"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Inspirado num texto anterior, publicado no<em> Profanum Boletim<\/em>, \u201c<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/profanum.com.br\/?p=457\" target=\"_blank\">O medo das elei\u00e7\u00f5es, ou: Com que roupa voc\u00ea vai?<\/a>\u201d, comecei a refletir sobre esse momento t\u00e3o triste que se abate sobre nossa na\u00e7\u00e3o, momento em que parece terem sido formados dois grandes grupos que se veem como inimigos, o que rapidamente me levou a pensar: \u201cser\u00e1 que realmente somos inimigos?\u201d.<\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">\u00c0 primeira vista parece que cada grupo de eleitores possui ideias muito distintas, o que faz o \u00f3dio crescer ainda mais: s\u00e3o fam\u00edlias divididas, amigos perdidos, relacionamentos balan\u00e7ados, ideais que parecem inconcili\u00e1veis. O mais curioso \u00e9 que muitas vezes essas pessoas que pensam de modo t\u00e3o diferente nos parecem t\u00e3o am\u00e1veis e acolhedoras que \u00e9 dif\u00edcil acreditar que estamos em lados t\u00e3o opostos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Que pesem as diferen\u00e7as ideol\u00f3gicas, que certamente possuem consequ\u00eancias no dia a dia, principalmente em rela\u00e7\u00e3o ao racismo, uso da viol\u00eancia, homofobia, etc., existe um substrato, uma base comum, que muitas vezes passa despercebida diante de tudo aquilo que nos parece t\u00e3o \u00f3bvio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Para ilustrar isso, lembro de um filme da d\u00e9cada de 80 intitulado \u201cThey live\u201d, em pt, \u201cEles vivem\u201d. Na pel\u00edcula, existe um personagem curioso que, nos cr\u00e9ditos do filme, aparece como \u201cJohn Nada\u201d. Trata-se de um desempregado, sem nome, buscando algo para fazer. Mas \u201cJohn Nada\u201d acaba por descobrir alguns \u00f3culos que lhe permitem ver para al\u00e9m das apar\u00eancias; ao coloc\u00e1-los ele come\u00e7a a perceber o que realmente est\u00e1 por detr\u00e1s das propagandas, dos meios de comunica\u00e7\u00e3o: o imperativo do consumismo. Al\u00e9m disso, na verdade, um grupo de alien\u00edgenas \u00e9 quem est\u00e1 levando as pessoas a consumir, gastar dinheiro, aceitar o status quo, sem realmente se dar conta do que est\u00e1 acontecendo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Esse filme serve como uma poderosa par\u00e1bola dos nossos tempos. Pode ser que, politicamente, estejamos em lados diferentes, tenhamos ideologias distintas. Para muitos \u00e9 a religi\u00e3o, \u00e9 a cor, \u00e9 a ra\u00e7a que faz a separa\u00e7\u00e3o, mas, na verdade existe algo que nos coloca todos no mesmo patamar: o imperativo do consumo que nos aprisiona.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">A posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica pode ser distinta, um \u00e9 de esquerda, outro de direta, outro de centro; na religi\u00e3o um \u00e9 cat\u00f3lico, outro protestante, um candomblecista outro kardecista ou mesmo budista; um \u00e9 branco, outro negro ou amarelo; ra\u00e7as diferentes, gostos diferentes, diferen\u00e7as e mais diferen\u00e7as, mas l\u00e1 no fundo, na raiz de tudo, o desejo de consumir, de ter, de comprar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Estamos todos dominados pelo desejo de consumir, nos tornamos irm\u00e3os de consumo: uns consomem mais, outros menos, mas todos consomem. Para n\u00f3s, isso parece natural, mas ignoramos que nem sempre as coisas foram assim. Nem sempre a sociedade vivia em fun\u00e7\u00e3o de consumir. Muitas sociedades, inclusive bem s\u00e1bias como, por exemplo, as ind\u00edgenas, ainda subsistem com o necess\u00e1rio para a sobreviv\u00eancia, sem destruir a natureza e respeitando o seu ciclo &#8211; e, sem consumir, s\u00e3o felizes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Por outro lado, a vida na sociedade capitalista tende cada vez mais \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de bens, de desejos, tudo inventado para que possamos consumir e, ainda assim, estamos cada vez mais tristes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Para satisfazer esses desejos, criados pelas propagandas e pelo marketing, cada vez mais os recursos naturais e as pessoas s\u00e3o exploradas. E, enquanto isso, alguns poucos est\u00e3o ficando cada vez mais ricos. S\u00f3 para citar o caso do Brasil, recentemente foi constatado que o n\u00famero de bilion\u00e1rios cresceu, enquanto o de pobres e miser\u00e1veis aumentou, tudo isso em prol do lucro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Na sociedade capitalista \u00e9 necess\u00e1rio consumir infinitamente. Os bens n\u00e3o s\u00e3o produzidos para satisfazer as reais necessidades, mas apenas para que, por meio deles, se tenha lucro. Como explicar a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria? Como explicar casas e apartamentos a pre\u00e7os t\u00e3o altos enquanto existem v\u00e1rias pessoas precisando de moradia? Como explicar a exist\u00eancia de tanta comida e tanta gente sem comer, morrendo de fome? Acima de tudo, como explicar a exist\u00eancia, no mesmo mundo, de bilion\u00e1rios e de pessoas que comem barro?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Vejamos a situa\u00e7\u00e3o em dados, somente para o caso brasileiro. O homem mais rico do Brasil, Eduardo Saverini, possui um patrim\u00f4nio de aproximadamente R$ 97,5 bilh\u00f5es; depois dele temos outros chamados, super ricos como Paulo Lemann com R$ 96,5 bilh\u00f5es, Marcel Herrmann Telles R$ 64,5 bilh\u00f5es e Carlos Alberto da Veiga, R$ 49,5 bilh\u00f5es; apenas esses tr\u00eas j\u00e1 det\u00eam mais da metade da renda total do pa\u00eds. Na verdade, mais de 97% da popula\u00e7\u00e3o possui 3% de toda a riqueza do pa\u00eds, entre estes est\u00e3o aqueles que possuem patrim\u00f4nio de ao menos R$ 500 mil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">S\u00e3o dados aterradores. Como acreditar que tal situa\u00e7\u00e3o \u00e9 normal? O que poderia justificar tamanha desigualdade? Se pensarmos bem, mesmo aqueles que s\u00e3o classificados ou se veem como \u201cclasse m\u00e9dia alta\u201d est\u00e3o muito mais pr\u00f3ximos de uma pessoa em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade social do que de um super rico. Poder\u00edamos dizer que, na verdade, os super ricos que est\u00e3o nesse topo da pir\u00e2mide s\u00e3o quase alien\u00edgenas, n\u00e3o? Quem v\u00ea Eduardo Saverini, Paulo Lemann ou Marcel Herrmann no seu dia a dia? No entanto, eles existem e eles det\u00e9m mais da metade da riqueza do Brasil, sendo que, outros bilion\u00e1rios e milion\u00e1rios ficam com o restante do dinheiro, at\u00e9 que sobre apenas 3% da riqueza com os outros 97% nos quais est\u00e3o inclu\u00eddos eu e voc\u00ea, seja eleitor de Lula, seja eleitor de Bolsonaro, seja eleitor de qualquer outro candidato.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Poder\u00edamos dizer que, na sociedade capitalista do ac\u00famulo e do lucro, onde o que mede o valor de algu\u00e9m \u00e9 o dinheiro, quem ser\u00edamos n\u00f3s que temos apenas 3% de toda a riqueza do pa\u00eds? Seria extraordin\u00e1rio dizer que somos \u201cnada\u201d?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Quero voltar ao nosso filme \u201cEles vivem\u201d, lembrando principalmente do John Nada. Esse nome pode ser mais bem traduzido em portugu\u00eas como \u201cJo\u00e3o Ningu\u00e9m\u201d, concordam? N\u00e3o ser\u00edamos n\u00f3s, em vista dos grandes ricos, uns Jo\u00e3os Ningu\u00e9ns? Contudo, apesar de sermos Jo\u00e3o Ningu\u00e9m, n\u00f3s, como o p\u00e1ria social do filme, podemos ver a realidade na qual estamos escravizados. Com os \u00f3culos da an\u00e1lise social da realidade, conseguimos perceber o que est\u00e1 por detr\u00e1s da propaganda infinita, conseguimos ver que somos compelidos a gerar cada vez mais riqueza e consumir essa riqueza para esse dinheiro ir para a m\u00e3o dos milion\u00e1rios, dos bilion\u00e1rios, dos mais ricos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Diante disso, podemos concluir: quem realmente s\u00e3o os nossos inimigos? Somos t\u00e3o distintos, n\u00f3s trabalhadores que vivemos na ilus\u00e3o de nos tornar algum Saverini, algum Lemann, algum Herman? Quando seremos milion\u00e1rios, bilion\u00e1rios? Quantos de n\u00f3s seremos ricos? Talvez, no m\u00e1ximo, alguns de n\u00f3s far\u00e1 parte da pequena burguesia ou, como se diz, ser\u00e1 um pobre gourmet, n\u00e3o sem antes, talvez, ganhar algum dinheiro \u00e0s custas da explora\u00e7\u00e3o do nosso semelhante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Por isso, antes de votarmos, talvez seja importante pensar em tudo isso. Existem diferen\u00e7as, \u00e9 claro, que devem ser marcadas: h\u00e1 quem apoie o golpe e o fascismo e h\u00e1 quem apoie a democracia, h\u00e1 quem apoie o preconceito racial e a homofobia e h\u00e1 quem defenda os direitos humanos, a igualdade racial e de g\u00eanero. Mas, em tudo isso existe tamb\u00e9m uma diferen\u00e7a de projeto de poder que afeta a todos os trabalhadores e eleitores que est\u00e3o entre os 97% que det\u00e9m apenas 3% das riquezas do pa\u00eds. Em um desses projetos se apoia declaradamente o capital, no outro se est\u00e1 do lado dos trabalhadores, em um desses projetos existe um lado que est\u00e1 a favor daqueles que ocupam o cume mais alto da pir\u00e2mide social e outro que volta o seu olhar ao interesse dos mais pobres. Se somos trabalhadores resta pensar que continuamos explorados, vivendo o mundo c\u00e3o, vivendo para trabalhar, trabalhando para consumir e consumindo at\u00e9 morrer de trabalhar. Enquanto isso, os alien\u00edgenas, os super ricos, poder\u00e3o viver at\u00e9 a \u201ceternidade\u201d sem trabalhar. Talvez seja hora de pensar: que sociedade queremos para n\u00f3s? E, se temos inimigos, quem realmente s\u00e3o eles?<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p> <a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/2022\/10\/01\/quem-sao-os-nossos-inimigos-por-mizael-pinto-de-souza\/\">Leia mais&#8230; &raquo;<\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[21,26,41],"tags":[76,89,113,238,256],"class_list":["post-472","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cultura","category-moralidade","category-mizael-pinto-de-souza","tag-capitalismo","tag-consumo","tag-diferenca","tag-pobreza","tag-riqueza"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/472"}],"collection":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=472"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/472\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=472"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=472"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=472"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}