{"id":513,"date":"2022-10-10T08:00:00","date_gmt":"2022-10-10T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/profanum.com.br\/?p=513"},"modified":"2022-10-10T08:00:00","modified_gmt":"2022-10-10T11:00:00","slug":"a-dor-e-o-protesto-das-lagrimas-por-delcides-marques","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/2022\/10\/10\/a-dor-e-o-protesto-das-lagrimas-por-delcides-marques\/","title":{"rendered":"&#8220;A dor e o protesto das l\u00e1grimas: Sobre empatia e pandemia&#8221;, por Delcides Marques"},"content":{"rendered":"\n<!--more-->\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Quantos de n\u00f3s perdemos pessoas queridas pelo v\u00edrus pand\u00eamico? Quantos de n\u00f3s lamentamos diariamente a falta que essas pessoas fazem? Quantos de n\u00f3s sentimos ainda as l\u00e1grimas correrem pelo rosto diante da mais singela lembran\u00e7a de suas companhias? A dor da aus\u00eancia produz um incessante aperto no peito, acompanhado de uma profunda indigna\u00e7\u00e3o, pois esper\u00e1vamos que essas pessoas  estivessem continuando suas vidas conosco.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">N\u00e3o tivemos ao menos as condi\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias para nos despedirmos de nossos amados que partiram. Foram mortes absolutamente solit\u00e1rias e nos vimos impotentes diante dessa trag\u00e9dia biol\u00f3gica. Quase 700 mil brasileiros tiveram suas vidas interrompidas: muitos sonhos ficaram pelo caminho, muitos planos foram descontinuados, muitos sorrisos se desvaneceram. E n\u00f3s que ficamos, continuamos a vida com um desmedido vazio e inconsol\u00e1vel tristeza em nossos peitos. Foram ceifados amigos, pais, tios, filhos, cunhados, sobrinhos, netos, primos, c\u00f4njuges etc. e n\u00e3o pudemos v\u00ea-los pela \u00faltima vez.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O que proponho aqui, nasce desse pranto, filho da saudade, mas nasce tamb\u00e9m da incomensur\u00e1vel repulsa a toda forma de insensibilidade com a dor que sent\u00edamos e ainda sentimos. Em honra \u00e0 mem\u00f3ria de nossos mortos, n\u00e3o podemos esquecer ou atenuar o que aconteceu. O Brasil ainda chora tantas perdas, e s\u00e3o l\u00e1grimas de saudade, mas tamb\u00e9m de protesto ante o descaso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s suas vidas . O v\u00edrus n\u00e3o fez o servi\u00e7o sozinho, teve parcerias necropol\u00edticas importantes, \u00e9 o que quero destacar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">\u00c9 \u00f3bvio que o presidente n\u00e3o foi respons\u00e1vel pela origem e propaga\u00e7\u00e3o da Covid-19 no mundo, mas como ele tem a incumb\u00eancia de cuidar da popula\u00e7\u00e3o brasileira acima de tudo e de todos, era de se esperar que viesse dele o inc\u00f4modo inicial e mais incisivo com o que estava ocorrendo. E ainda que tenha sido uma trag\u00e9dia mundial, \u00e9 not\u00f3rio que a pandemia no Brasil foi mal gerida desde o come\u00e7o, tanto em sua nega\u00e7\u00e3o quanto na gest\u00e3o epidemiol\u00f3gica. Cada ministro da sa\u00fade que discordava do presidente em rela\u00e7\u00e3o ao cuidado com a popula\u00e7\u00e3o era imediatamente trocado (foram quatro ministros em dois anos). Qualquer um que n\u00e3o compartilhasse as diretrizes negacionistas seria irremediavelmente substitu\u00eddo. A opini\u00e3o do presidente era tratada por ele mesmo como mais relevante que as pesquisas cient\u00edficas ou as posi\u00e7\u00f5es de especialistas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Sabemos muito bem que n\u00e3o foi apenas uma fatalidade tantas vidas perdidas. Parte significativa do que aconteceu n\u00e3o era inevit\u00e1vel e n\u00e3o \u00e9 mera casualidade o quantitativo de mortes. J\u00e1 est\u00e1 indiscutivelmente comprovado que houve um deliberado, malvado e perverso descaso sanit\u00e1rio. O desprezo do presidente, ao imitar (com gargalhadas) pessoas sem ar, foi ind\u00edcio de absoluta insanidade e sinalizou o lugar da pandemia nas concep\u00e7\u00f5es do presidente. Ele zombou de seu povo (chamou os lamentos pelas mortes de \u201cmimimi\u201d e disse ainda que era apenas \u201cuma gripezinha\u201d), se esquivou de suas responsabilidades (\u201cn\u00e3o sou coveiro\u201d) e indicou medica\u00e7\u00e3o para a preven\u00e7\u00e3o e tratamento que ainda n\u00e3o havia sido devidamente testada, induzindo a popula\u00e7\u00e3o ao equ\u00edvoco de pensar que seu uso tornaria poss\u00edvel passar inc\u00f3lume pelo v\u00edrus.&nbsp;A compra da primeira remessa das vacinas foi ignorada durante tr\u00eas meses e depois de noventa mensagens (quantas vidas teriam sido salvas?). N\u00e3o podemos jamais esquecer ou menosprezar isso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">E soma-se a toda essa neglig\u00eancia o fato de que o presidente nunca demonstrou efetiva empatia pelas perdas e por todo o sofrimento implicado. Bolsonaro chorou poucas vezes em p\u00fablico: uma dessas ocasi\u00f5es se deu ao rememorar a facada que ele levou em 2018. Em outro momento de choro, ele estava sendo elogiado por sua esposa, durante um ato de campanha. Enfim, ele s\u00f3 chora quando se refere a ele mesmo. \u00c9 um choro ego\u00edsta, um choro de si para si mesmo. Um choro em benef\u00edcio pr\u00f3prio. Ele n\u00e3o conseguiu chorar pelo povo brasileiro, e nem tentou simular, mesmo que desastrosamente, como fez nos exerc\u00edcios de flex\u00f5es, na assinatura com caneta esferogr\u00e1fica comum ou no uso das m\u00e3os ao comer farofa em p\u00fablico. Ele n\u00e3o fez a menor quest\u00e3o de mostrar empatia, porque \u201cNarciso acha feio o que n\u00e3o \u00e9 espelho\u201d. E at\u00e9 mesmo o aux\u00edlio que ele ofereceu \u00e0 popula\u00e7\u00e3o ocorreu sob press\u00e3o e contra a sua vontade. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Na contram\u00e3o disso, a tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 diz que Jesus chorou em tr\u00eas ocasi\u00f5es. E em todas elas percebe-se a sua humanidade pulsando e identificada com o sofrimento humano. Ele chorou no t\u00famulo de L\u00e1zaro, porque o amava (Jo\u00e3o 11.35). Ele tamb\u00e9m chorou em protesto pela cidade de Jerusal\u00e9m que havia atra\u00eddo destrui\u00e7\u00e3o sobre si mesma (Lucas 19.41), ou como diriam os Racionais: \u201cHumanidade \u00e9 m\u00e1 e at\u00e9 Jesus chorou\u201d. E o seu terceiro choro est\u00e1 relacionado \u00e0 descomunal dor de sua morte (Hebreus 5.7-9).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Num breve destaque ao trecho joanino, a morte de L\u00e1zaro tocou a profundamente a sensibilidade de Jesus que chorou a perda de seu amigo. Mas o seu choro tamb\u00e9m abarcou a inconsol\u00e1vel afli\u00e7\u00e3o das irm\u00e3s de L\u00e1zaro. Jesus n\u00e3o ficou alheio \u00e0quele momento, pois ele \u00e9 o divino que se humaniza e partilha das dores humanas: quando algu\u00e9m sofre, ele sofre junto. Se o presidente \u00e9 incapaz de chorar pelo seu povo, Jesus chorou. E ele \u00e9 o exemplo maior dos crist\u00e3os, ou deveria ser. Uma das marcas do aut\u00eantico povo de Cristo n\u00e3o \u00e9 mesmo a compaix\u00e3o? Onde h\u00e1 o amor e a compaix\u00e3o, Deus a\u00ed est\u00e1.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":589,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[24,26],"tags":[71,82,90,93,120,189,192,209,227,267,279,294],"class_list":["post-513","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-delcides-marques","category-moralidade","tag-bolsonaro","tag-ciencia","tag-coronavirus","tag-covid-19","tag-dor","tag-jesus","tag-lagrimas","tag-morte","tag-pandemia","tag-saude","tag-sofrimento","tag-vacina"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/513"}],"collection":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=513"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/513\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=513"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=513"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=513"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}