{"id":543,"date":"2022-10-07T00:02:59","date_gmt":"2022-10-07T03:02:59","guid":{"rendered":"https:\/\/profanum.com.br\/?p=543"},"modified":"2022-10-07T00:02:59","modified_gmt":"2022-10-07T03:02:59","slug":"o-que-dizem-vossas-maos-irmaos-breve-nota-sobre-a-pulsao-do-sacrificio-por-jose-edilson-teles","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/2022\/10\/07\/o-que-dizem-vossas-maos-irmaos-breve-nota-sobre-a-pulsao-do-sacrificio-por-jose-edilson-teles\/","title":{"rendered":"\u201cO que dizem vossas m\u00e3os, irm\u00e3os? Breve nota sobre a puls\u00e3o do sacrif\u00edcio\u201d, por Jos\u00e9 Edilson Teles"},"content":{"rendered":"\n<!--more-->\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-text-align-center\" style=\"font-size:16px;font-style:normal;font-weight:300\"><blockquote><p><\/p><cite>Tal como mostra hoje, uma vez mais, o uso desenfreado dessa heran\u00e7a b\u00edblica, n\u00f3s ainda n\u00e3o dispomos de um conceito apropriado para a diferen\u00e7a sem\u00e2ntica entre o moralmente incorreto e o profundamente mal. N\u00e3o existe o dem\u00f4nio, mas o anjo ca\u00eddo segue seu curso calamitoso \u2013 seja nos bens invertidos da a\u00e7\u00e3o monstruosa, seja tamb\u00e9m no incontrol\u00e1vel \u00edmpeto de vingan\u00e7a que o segue de perto.<br>(HABERMAS, J\u00fcrgen. F\u00e9 e saber, 2013 [2001], p. 18).<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">A metaf\u00edsica do pensamento ocidental deve-se, em grande medida, a uma heran\u00e7a da linguagem b\u00edblica sedimentada pela tradi\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3. O leitor atento a uma das faces de Janus para o passado, sem perder de vista a que se dirige ao presente-futuro, notar\u00e1 que n\u00e3o se trata de uma acusa\u00e7\u00e3o, mas de uma constata\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. De modo geral, \u00e9 poss\u00edvel dizer que n\u00e3o h\u00e1 quem escape desse processo violento de longa dura\u00e7\u00e3o agravado pela m\u00e1quina de guerra mobilizada pelo projeto colonizador, motivo pelo qual se justifica os esfor\u00e7os do pensamento decolonial. H\u00e1, pois, uma raz\u00e3o para come\u00e7armos pelas ideias basilares do pensamento ocidental a fim de compreendermos nossa ang\u00fastia existencial: trata-se da constitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas da moldura do pensamento, mas consequentemente de uma disciplina dos corpos, especialmente os tidos como \u201cdesviantes\u201d. Como se n\u00e3o bastasse, a arrog\u00e2ncia dessa metaf\u00edsica conseguiu a proeza de universalizar essa forma de pensar e existir no mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Estou ciente de que o par\u00e1grafo acima \u00e9 abrangente, pois condensa um processo de longa dura\u00e7\u00e3o. Contudo, para fazer-me entendido, delimito-me a um dos aspectos da heran\u00e7a da linguagem b\u00edblica no pensamento ocidental como projeto de poder: <em>a puls\u00e3o do sacrif\u00edcio<\/em>. Como exerc\u00edcio de desnaturaliza\u00e7\u00e3o da gram\u00e1tica religiosa, comecemos pela metaf\u00edsica da <em>caridade<\/em> \u2013 sim, nem mesmo esse valor superestimado escapa da puls\u00e3o do sacrif\u00edcio! Seguindo uma interpreta\u00e7\u00e3o de Ren\u00e9 Girard (1990 [1972]; 2018), dir\u00edamos que o elemento central da teologia da p\u00e1scoa pressup\u00f5e um sacrif\u00edcio expiat\u00f3rio \u2013 chamado \u201cpaix\u00e3o\u201d \u2013 para atenuar a culpa crist\u00e3, tal como sugere a gram\u00e1tica sacrificial: \u201ccruz\u201d, \u201cmorte\u201d, \u201csangue\u201d, \u201cmorreu por n\u00f3s\u201d, \u201cexpia\u00e7\u00e3o\u201d etc. Note, por exemplo, as express\u00f5es atribu\u00eddas ao ap\u00f3stolo Paulo: \u201cCristo, no tempo marcado, morreu pelos \u00edmpios\u201d (Romanos 5:6); \u201cDeus demonstra seu amor pelo fato de Cristo ter morrido por n\u00f3s\u201d (Romanos 5:8); \u201cCristo morreu por nossos pecados\u201d (1 Cor\u00edntios 15:3); \u201cEle morreu por todos\u201d (2 Cor\u00edntios 5:15); \u201cCristo se entregou como oferta e sacrif\u00edcio\u201d (Ef\u00e9sios 5:2). Pobres te\u00f3logos, pois sabem que a \u201cviol\u00eancia\u201d atribu\u00edda ao \u201cdemon\u00edaco\u201d habita no ser da <em>caritas<\/em>. Portanto, seu fundamento \u00e9 a culpa e um sacrif\u00edcio para expi\u00e1-lo \u2013 e isso \u201cexplica\u201d a puls\u00e3o pelo chocolate pascoal: \u00e9 preciso ado\u00e7ar a morte de um bode expiat\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Mas, como disse, o exemplo acima \u00e9 apenas um recurso para desnaturalizarmos uma gram\u00e1tica religiosa superestimada. Vejamos agora alguns exemplos dessa heran\u00e7a b\u00edblica na produ\u00e7\u00e3o de v\u00edtimas preferenciais da puls\u00e3o do sacrif\u00edcio. A divindade \u2013 geralmente irada \u2013 evocada pelos sacerdotes da moralidade exige sacrif\u00edcio (leia-se elimina\u00e7\u00e3o) dos corpos considerados culpados pela eros\u00e3o dos valores tradicionais. Consideremos, por exemplo, a no\u00e7\u00e3o de \u201creligi\u00e3o\u201d. Em contraposi\u00e7\u00e3o a ideia de que \u201creligi\u00e3o\u201d significa \u201creligar\u201d, do verbo latim <em>religare<\/em>, Giorgio Agamben (2007) aponta que seu sentido indica justamente o contr\u00e1rio, \u201cseparar\u201d. Agamben nota que o sentido de <em>sagrado<\/em> implicava numa \u201csepara\u00e7\u00e3o\u201d do <em>profano<\/em>, lembrando que essa separa\u00e7\u00e3o nos ritos antigos era operada por meio dos sacrif\u00edcios. Nesse sentido, a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de \u201csacrif\u00edcio\u201d aponta para a ideia de <em>corte<\/em>, <em>fissura<\/em>, <em>separa\u00e7\u00e3o<\/em> da v\u00edtima sacrificial, sobre quem recai a ira coletiva.&nbsp;&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Sobre quem recai a ira de uma cegueira coletiva? Quais s\u00e3o os corpos sacrific\u00e1veis em \u201cnome de Deus\u201d, dos valores tradicionais de \u201cfam\u00edlia\u201d e da \u201cp\u00e1tria\u201d? Esses lemas n\u00e3o s\u00e3o novos, diga-se. Em <em>O bode expiat\u00f3rio<\/em> (2018), Ren\u00e9 Girard prop\u00f5e uma tipologia dos estere\u00f3tipos persecut\u00f3rios que perpassam as modalidades de viol\u00eancia coletiva: a) uma <em>crise social<\/em> e <em>cultural<\/em> que provoca a derrocada das institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas ao produzir a culpabilidade de v\u00edtimas expiat\u00f3rias \u2013 em outros tempos, as ca\u00e7as \u00e0s \u201cbruxas\u201d e, em nossos tempos, o fantasma do \u201ccomunismo\u201d, entre outros; b) a produ\u00e7\u00e3o moral dos <em>crimes indiferenciados<\/em> \u2013 em outros tempos, as acusa\u00e7\u00f5es de \u201cinfantic\u00eddio ritual\u201d e \u201cincesto\u201d e, em nossos dias, as acusa\u00e7\u00f5es de viola\u00e7\u00e3o das virtudes da <em>fam\u00edlia<\/em> tradicional; c) a produ\u00e7\u00e3o das <em>marcas de sele\u00e7\u00e3o<\/em> das v\u00edtimas \u2013 minorias \u00e9tnicas, misoginia, xenofobia etc. Esses estere\u00f3tipos nos permitem visualizar o que chamei de \u201cpuls\u00e3o do sacrif\u00edcio\u201d, pois os dispositivos b\u00e9licos da gram\u00e1tica religiosa sup\u00f5em um <em>inimigo<\/em> real ou imaginado a ser combatido, eliminado ou <em>sacrificado<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Os lemas do bolsonarismo s\u00e3o exemplos n\u00e3o apenas de uma puls\u00e3o por morte, mas tamb\u00e9m de uma puls\u00e3o por sacrif\u00edcio \u2013 visto que precisam alimentar a m\u00e1quina de \u00f3dio na culpabilidade do <em>outro<\/em>. Por isso a velha estrat\u00e9gia fascista de coisificar o <em>outro<\/em> para justificar sua elimina\u00e7\u00e3o: vide os exemplos recentes de viol\u00eancia pol\u00edtica contra quem pensa diferente. O lema fascista \u201cDeus acima de todos\u201d, a ideia de um <em>inimigo<\/em> a ser combatido e eliminado (\u201ccomunismo\u201d) e o medo da alteridade (fasc\u00ednio pela sexualidade alheia, por exemplo) apontam para o imagin\u00e1rio de um ato <em>sacrificial<\/em>. Nessa gram\u00e1tica, a divindade evocada exige uma v\u00edtima sacrificial a fim de cumprir o papel de apaziguamento da <em>crise<\/em> estabelecida. A linguagem operada por religiosos intolerantes sup\u00f5e operar um <em>religare<\/em> da \u201cfam\u00edlia\u201d e da \u201cna\u00e7\u00e3o\u201d brasileira por meio de seus valores c\u00edvicos e sagrados, mas na verdade operaram o cuidado em manter a separa\u00e7\u00e3o (<em>relegere<\/em>) ao evocar os elementos sacrificiais. Esse \u201cinimigo\u201d \u00e9 materializado nos corpos coisificados: tem classe, tem cor e tem g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Foi-se o tempo em que pessoas fervorosas juntavam as palmas das m\u00e3os num gesto de prece piedosa. Esse gesto t\u00e3o conhecido na iconografia crist\u00e3 representava o sentimento de nulidade. Dirigia-se a uma divindade benevolente pronta a retribuir o sacrif\u00edcio do corpo cansado e mortificado. O gesto traduzia a s\u00faplica: \u201cpor favor, n\u00e3o mere\u00e7o, mas preciso\u201d. Agora, somos surpreendidos com m\u00e3os que mimetizam armas pedindo a elimina\u00e7\u00e3o do outro; m\u00e3os que tapam os olhos e disferem discursos racistas, homof\u00f3bicos e xen\u00f3fobos; m\u00e3os que n\u00e3o juntam peda\u00e7os, mas promovem a separa\u00e7\u00e3o. Preces orgulhosas, m\u00e3os cumplices de assassinatos. M\u00e3os que pulsam o que o cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 cheio: o \u00f3dio e o desprezo pelo outro. O que dizem vossas m\u00e3os, irm\u00e3os? Termino parafraseando a ep\u00edgrafe de Harbermas acerca da heran\u00e7a b\u00edblica nas sociedades p\u00f3s-seculares: \u201co dem\u00f4nio existe e suas m\u00e3os s\u00e3o vis\u00edveis por meio das m\u00e3os dos insensatos\u201d. Finalmente, \u201cse a tua m\u00e3o te escandaliza, corta-a a atira-a para longe de ti\u201d (Mateus 18.8). Eu e minhas m\u00e3os celebraremos a vida, a diversidade e o direito \u00e0 diferen\u00e7a. Olhem para vossas m\u00e3os agora e vejam se h\u00e1 sangue; ou\u00e7am os gritos das palmas de suas m\u00e3os: o que elas dizem&#8230; irm\u00e3os? &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>A B\u00cdBLIA DE JERUSAL\u00c9M<\/em>. Edi\u00e7\u00f5es Paulinas, 1973.<\/p>\n\n\n\n<p>AGAMBEN, Giorgio. <em>Profana\u00e7\u00f5es<\/em>. S\u00e3o Paulo. Boitempo, 2007.<\/p>\n\n\n\n<p>GIRARD, Ren\u00e9. <em>A viol\u00eancia e o sagrado. <\/em>S\u00e3o Paulo. Paz e Terra, 1990 [1972].<\/p>\n\n\n\n<p>GIRARD, Ren\u00e9. <em>O bode expiat\u00f3rio<\/em>. S\u00e3o Paulo. Paulus, 2018.<\/p>\n\n\n\n<p>HABERMAS, J\u00fcrgen. <em>F\u00e9 e saber<\/em>. Editora Unesp, 2013 [2001].<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":600,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[26,36,39,47],"tags":[69,113,140,185,220,7,248,263,295],"class_list":["post-543","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-moralidade","category-jose-edilson-teles","category-linguagem","category-teologia","tag-biblia","tag-diferenca","tag-evangelicos","tag-intolerancia","tag-ocidente","tag-politica","tag-pulsao","tag-sacrificio","tag-valores-cristaos"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/543"}],"collection":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=543"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/543\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=543"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=543"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=543"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}