{"id":943,"date":"2023-01-04T08:07:39","date_gmt":"2023-01-04T11:07:39","guid":{"rendered":"https:\/\/profanum.com.br\/?p=943"},"modified":"2023-01-04T08:07:39","modified_gmt":"2023-01-04T11:07:39","slug":"a-roupa-de-janja-na-posse-presidencial-um-comentario-estilistico-ecologico-por-geraldo-varjabedian","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/2023\/01\/04\/a-roupa-de-janja-na-posse-presidencial-um-comentario-estilistico-ecologico-por-geraldo-varjabedian\/","title":{"rendered":"&#8220;A roupa de Janja na posse presidencial: Um coment\u00e1rio estil\u00edstico-ecol\u00f3gico&#8221;, por Geraldo Varjabedian"},"content":{"rendered":"\n<!--more-->\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Mil anos-luz longe do mercado. Quando quebrei, l\u00e1 por 2006, a ind\u00fastria de seda, no Brasil, passava maus bocados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Trabalhei um bom tempo com reciclagem e reaproveitamento de sedas, numa \u00e9poca em que tecidos planos de fios org\u00e2nicos como linho, algod\u00f5es n\u00e3o comerciais e sedas agonizavam, caiam de uso, dando lugar \u00e0s microfibras e tecidos tecnol\u00f3gicos &#8211; todos f\u00f3sseis &#8211; que engoliram o mercado vorazmente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Seda mancha, sofre com a a\u00e7\u00e3o do tempo e, n\u00e3o raro, mal acondicionada, pode apresentar pontos de bolor, ficar pu\u00edda, com pequenos furos por tra\u00e7as e outros danos. D\u00e1 um trampo, mas d\u00e1 pra ressuscitar, tingir, estampar. Pelo que a seda custava, e ainda deve custar, pelo impacto ambiental da produ\u00e7\u00e3o, pelo manuseio trabalhoso, pelo tempo que toma; recuperar valor reaproveitando e reciclando era uma op\u00e7\u00e3o para estilistas, ateli\u00eas e confec\u00e7\u00f5es daqueles anos. At\u00e9 onde sei, poucas oficinas brasileiras de estamparia e tinturaria artesanais em seda sobreviveram. E n\u00e3o voltei a frequentar esse mundinho pra saber, inclusive, porque os tempos a seguir foram de in\u00fameros mortais carpados em sequ\u00eancia at\u00e9 aqui e uma mudan\u00e7a irrevers\u00edvel de rumos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Por conhecer um pouquinho do assunto, at\u00e9 pelo gosto que tomei pelo trabalho, tomei um tranco com o traje da Janja, na posse. Nem tanto pelo tra\u00e7o, porque moda n\u00e3o \u00e9 minha \u00e1rea, mas pela seda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Claro que fui pesquisar. E entendi a constru\u00e7\u00e3o feita pela estilista Hel\u00f4 Rocha e a import\u00e2ncia do trampo. Muita ecologia e pol\u00edtica envolvidas no processo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Inevitavelmente, ca\u00ed no mesmo mal-estar que sempre tive na rela\u00e7\u00e3o com o universo da moda e da apropria\u00e7\u00e3o mal compreendida que muitos fazem, focados no modelo, na t\u00e9cnica de costura, na cr\u00edtica, na m\u00eddia e na pirotecnia consumista que envolve o setor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">N\u00e3o, Janja n\u00e3o estava apenas podre de chique. Estava vestida polticamente, intencionalmente, desafiadoramente, no que sintonizou perfeitamente com a subida da rampa e o compartilhamento popular da faixa presidencial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Quem questiona, rastreia, estuda, tenta alertar e educar sobre modos de produ\u00e7\u00e3o, sabe quanto valem propostas como este trabalho estupendo de tingimento da seda com caj\u00fa e ruibarbo, a arte dos bordados em palha das bordadeiras de Timba\u00faba. Que cuidado! Que terninho estudado e conceitualmente preciso! Trabalho especializad\u00edssimo, que escancara um Brasil que negligenciou seus pr\u00f3prios modos de produ\u00e7\u00e3o, conhecimentos, soberania, para dar espa\u00e7o \u00e0s psicopatias industriais. Que homenagem ao Brasil!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Nosso povo j\u00e1 dominou tanto conhecimento, desenvolveu materiais, acabamentos, processos de fia\u00e7\u00e3o e tecelagem, t\u00e9cnicas de tingimento a partir de pigmentos vegetais e muitas outras artes e of\u00edcios artesanais que vale pesquisar. \u00c9 um universo desconhecido do pr\u00f3prio pa\u00eds. E voc\u00ea pode abstrair a mesma &#8220;l\u00f3gica&#8221; para outros processos produtivos deste pa\u00eds de saberes e soberania sabotados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O que h\u00e1 de ecologia nesse terninho da Janja \u00e9 um magn\u00edfico esc\u00e2ndalo. Ainda mais, no momento delicado que vivemos no planeta, que busca desesperadamente outros modos de vida, outras refer\u00eancias de produ\u00e7\u00e3o, consumo e descarte, outro padr\u00e3o de bem-estar. E isso s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel por modos de produ\u00e7\u00e3o mais ecol\u00f3gicos, rela\u00e7\u00f5es de trabalho mais valorizadas, inclusivas; preocupa\u00e7\u00e3o concreta com os ciclos de vida do que \u00e9 produzido e consumido; resgate de saberes populares e olhos abertos para um infinito campo de trabalho que nossa biodiversidade pode inaugurar &#8211; se deixarmos de ser vira latas, tapados, bab\u00f5es colonizados e entendermos que o mundo dos direitos e do trabalho t\u00eam que participar da escolha soberana dos modos de produ\u00e7\u00e3o. Isto \u00e9 anticapEtalismo! Esta provoca\u00e7\u00e3o aos modos de produ\u00e7\u00e3o est\u00e1 todinha posta no figurino da Janja!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Estou entalado com o desfile de posse naquela carruagem f\u00f3ssil, presenteada ao Get\u00falio Vargas que, n\u00e3o por acaso, foi figura fundamental no estabelecimento do modelo de desenvolvimento que hoje precisamos superar. F\u00f3ssil, insustent\u00e1vel, machista, autorit\u00e1rio, protocolar, decadente, populista\u2026 Paro por aqui, porque Get\u00falio, s\u00e9culo XX, importa menos que Janja, s\u00e9culo XXI. Mas a rendi\u00e7\u00e3o ao calhambeque emissor de gases, ao alheamento diante do \u00f3bvio de que toda a luta clim\u00e1tica pode ser condensada num s\u00edmbolo &#8211; o autom\u00f3vel-, precisa ser grifada em vermelho!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">J\u00e1 que h\u00e1 tanta simbologia, e nossa esquerda \u00e9 toda mandrake em simbologias, deve saber muito bem das origens, da hist\u00f3ria e do significado da marca RR e do tamanho equ\u00edvoco no uso protocolar daquela chaleira a explos\u00e3o que, em minha opini\u00e3o, j\u00e1 deveria estar num museu, sobre cavaletes e com uma plaquinha explicando seu lugar no passado do pais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O terninho de Janja, mais a subida da rampa e o compartilhamento da faixa entre brasileiros de carne e osso mostraram muito, conceitual e simbolicamente, sobre um, talvez, novo paradigma, focado no enfrentamento \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, na preserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade, no acolhimento dos saberes populares brasileiros, no desenvolvimento de outra economia, no entendimento do que podemos aprender com o bem-viver ind\u00edgena, com os modos de produ\u00e7\u00e3o populares, com os saberes dos povos origin\u00e1rios, com os conhecimentos ancestrais do pa\u00eds, apontando um caminho soberano para formas de trabalho que n\u00e3o promovam a degrada\u00e7\u00e3o planet\u00e1ria!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Ainda estou azedo com o desconforto de certos militantes diante de meu questionamento ao uso da carruagem f\u00f3ssil. N\u00e3o sei como, ainda fico impressionado com os chiliques desenvolvimentistas, com o antiambientalismo caduco, com os deslumbramentos consumistas, ainda t\u00e3o enraizados em nossa esquerda. N\u00e3o sei como daremos conta de boa parte de nossos quadros, que n\u00e3o conseguiu entender o recado do conjunto de seda da Janja e se importou tanto com a cr\u00edtica ao uso daquele autom\u00f3vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Janja deu aula de ativismo. De ecologia. De bioeconomia. De S\u00e9culo XXI. Fez valer todo nosso empenho para enxotar a caretice do poder.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Vale lembrar que os homens que habitam os poderes todos de nosso pa\u00eds n\u00e3o s\u00e3o muito diferentes do governo rec\u00e9m-deposto. A imensa maioria dos homens brasileiros ainda est\u00e1 cimentada aos valores do s\u00e9culo XX, aos modos de pensar, ser e fazer dos que cultuam o tal autom\u00f3vel ingl\u00eas como des\u00edgnio de import\u00e2ncia &#8211; em plena era da emerg\u00eancia clim\u00e1tica!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Este \u00e9 um mundo em que gente muito poderosa e s\u00e1bia est\u00e1 dando adeus ao autom\u00f3vel, questionando o transporte individual motorizado, ponderando investimentos, a partir do amplo repert\u00f3rio da ci\u00eancia do clima e exercitando s\u00edmbolos e ativismos pela t\u00e3o implorada mudan\u00e7a nos modos de vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Se a ideia \u00e9 trabalharmos com s\u00edmbolos, vale a pondera\u00e7\u00e3o de que, em 2050, quando cair a ficha de que n\u00e3o conseguiremos segurar o aquecimento global dentro do aceit\u00e1vel, aquela lata velha conservadora ser\u00e1 centen\u00e1ria, mas far\u00e1 parte do museu dos s\u00edmbolo de decad\u00eancia!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Tem que ser dito!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">A luta que o Brasil assumiu mundialmente ao eleger Lula \u00e9 para virar a p\u00e1gina do pa\u00eds. Deixar para tr\u00e1s o s\u00e9culo XX e os anteriores ou, pelo menos, deixar clara a inten\u00e7\u00e3o de enfrentar os conservadores, os tiranos, os produtores de mis\u00e9ria, a decad\u00eancia patriarcal, os coron\u00e9is, a engenharia antinatureza, os capit\u00e3es de ind\u00fastria, os fazendeiros tapados, os entusiastas do consumismo, da exclus\u00e3o, enfim, enfrentar o insustent\u00e1vel com o qual lucram as mentes f\u00f3sseis que ainda intoxicam este pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Encantado com o papel da Janja em toda essa luta!<\/p>\n\n\n\n<p>*Texto publicado com autoriza\u00e7\u00e3o, para mais informa\u00e7\u00f5es e textos do autor, conferir seu perfil no <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/geraldo.varjabedian\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Facebook<\/a>.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2370,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[18,26,28],"tags":[136,186,242,258,268],"class_list":["post-943","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cidadania-e-direitos-humanos","category-moralidade","category-filosofia","tag-estilista","tag-janja","tag-posse","tag-roupa","tag-seda"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/krisis.univasf.edu.br\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/583686725-janja-jose-cruz-scaled-1-e1672830420488.webp?fit=392%2C432&ssl=1","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/943"}],"collection":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=943"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/943\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2370"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=943"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=943"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=943"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}