{"id":972,"date":"2023-01-21T10:47:37","date_gmt":"2023-01-21T13:47:37","guid":{"rendered":"https:\/\/profanum.com.br\/?p=972"},"modified":"2023-01-21T10:47:37","modified_gmt":"2023-01-21T13:47:37","slug":"a-vida-e-profunda-por-claudio-de-oliveira-ribeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/2023\/01\/21\/a-vida-e-profunda-por-claudio-de-oliveira-ribeiro\/","title":{"rendered":"&#8220;A vida \u00e9 profunda&#8221;, por Cl\u00e1udio de Oliveira Ribeiro"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\">(&#8220;A menina que roubava livros&#8221;)<\/h4>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-small-font-size\"><blockquote><p><\/p><cite>N\u00e3o \u00e9 sobre ter<br>Todas as pessoas do mundo pra si.<br>\u00c9 sobre saber que em algum lugar<br>Algu\u00e9m zela por ti.<br>\u00c9 sobre cantar e poder escutar<br>Mais do que a pr\u00f3pria voz.<br>\u00c9 sobre dan\u00e7ar na chuva de vida<br>Que cai sobre n\u00f3s.<br>(\u201cTrem bala\u201d, de Ana Vilela)<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Compreender o amor de Deus no mundo, a f\u00e9 e as demais dimens\u00f5es do bel\u00edssimo e profundo encontro entre o divino e o humano \u00e9 uma aventura que se faz no di\u00e1logo e em interpela\u00e7\u00e3o constante da realidade da vida. As palavras, sinais e atitudes que destaquem a dimens\u00e3o da gratuidade e da sensibilidade humana ser\u00e3o sempre canais de esperan\u00e7a; e a esperan\u00e7a alivia o sofrimento e redimensiona o futuro. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Essa vis\u00e3o me faz lembrar um momento em que eu e minha esposa, Magali, fomos comemorar o anivers\u00e1rio de treze anos do Guilherme, nosso filho, assistindo ao filme escolhido por ele, \u201cA menina que roubava livros\u201d (2014). Momento sublime de emo\u00e7\u00e3o, li\u00e7\u00e3o de vida e de esperan\u00e7a, ambientados nas sombras e nos escombros da guerra. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">A trama, dirigida por Brian Percival, conta a hist\u00f3ria da jovem Liesel Meminger (Sophie N\u00e9lisse), uma garota que, depois de perder o irm\u00e3o e a companhia da m\u00e3e que enfrenta problemas pol\u00edticos com o regime nazista, passa a viver com pais adotivos na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. Com a ajuda do pai, Hans Hubermann (Geoffrey Rush), muito acolhedor e afetivo, ela aprende a ler e partilhar livros com seus amigos. Liesel segue o seu cotidiano, marcado pelas leituras, estudos e tarefas dom\u00e9sticas que realiza para Rosa (Emily Watson), sua m\u00e3e, quase sempre muito dura com ela e mal-humorada, e ainda encontra algum tempo para brincadeiras com o amigo Rudy Steiner (Nico Liersch).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Apaixonada pela leitura, Liesel acaba desenvolvendo o h\u00e1bito de \u201croubar\u201d obras a fim de l\u00ea-las para Max Vanderburg (Ben Schnetzer), um judeu que mora clandestinamente em sua casa e por quem a jovem expressa amizade e solidariedade. Os desfechos de uma hist\u00f3ria assim podem ser imaginados&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O enredo faz uma boa abordagem da sociedade alem\u00e3 do final dos anos de 1930 ao mostrar a insanidade do nazismo, com a nefasta doutrina\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as e da juventude. Com o contexto da guerra, o filme mostra, com realismo hist\u00f3rico, os racionamentos de comida, os bombardeios e o desespero de Hitler com a derrocada. Retrata um regime que oprimiu n\u00e3o apenas judeus, ciganos, comunistas, pessoas homoafetivas, como \u00e9 comum ser enfatizado em outras produ\u00e7\u00f5es cinematogr\u00e1ficas, mas revela, sobretudo, a opress\u00e3o do seu pr\u00f3prio povo, especialmente os alem\u00e3es mais pobres.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">A sensibilidade revelada no filme me alcan\u00e7ou em sonhos. Ele me lan\u00e7ou em uma busca, uma jornada&#8230; Temos visto que a viv\u00eancia de uma espiritualidade profunda e arquitetada na vida \u00e9 muito pouco real\u00e7ada e valorizada. As vis\u00f5es acerca da espiritualidade e da f\u00e9 t\u00eam sido, em geral, marcadas nas igrejas crist\u00e3s e em outros grupos religiosos por forte concep\u00e7\u00e3o individualista, especialmente pela rela\u00e7\u00e3o que t\u00eam mantido com a cultura econ\u00f4mica. Isso se d\u00e1 ao lado de um desprezo pelo cuidado com a natureza e uma desconsidera\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o como um todo, das rela\u00e7\u00f5es sociais e comunit\u00e1rias e do compromisso ecum\u00eanico com a vida, com a justi\u00e7a e com os destinos da hist\u00f3ria e da terra. Para reverter esse cen\u00e1rio, \u00e9 necess\u00e1ria a elucida\u00e7\u00e3o de uma perspectiva salv\u00edfica mais substancialmente b\u00edblica, que realce a dimens\u00e3o ampla e integral que a salva\u00e7\u00e3o possui. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O movimento generoso e corajoso da menina do filme nos leva a uma vis\u00e3o, imprescind\u00edvel para o futuro da humanidade, de uma espiritualidade que seja valorizadora da vida, sens\u00edvel ao cuidado com a natureza e com os pobres, que diga respeito ao todo, aberta aos mist\u00e9rios do universo e compromissada com desafios sociais e pol\u00edticos que hoje se apresentam ao mundo. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Trata-se, conforme eu aprendi com a te\u00f3loga Ivone Gebara, de uma espiritualidade centrada na realidade que \u00e9 corporificada no cotidiano, tanto nas dimens\u00f5es de prazer como nas de dor, incluindo as mudan\u00e7as e os processos do corpo, da vida pessoal, da autoafirma\u00e7\u00e3o e, ao mesmo tempo, conectada ao compromisso social, \u00e0 generosidade e \u00e0 atividade pol\u00edtica. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Vislumbramos, portanto, uma espiritualidade que valorize a vida, seja sens\u00edvel ao cuidado com as pessoas e com a natureza e perceba nela tamb\u00e9m o lugar de salva\u00e7\u00e3o da mesma forma que olhamos para o humano. Esse caminho nos conduz a uma espiritualidade ecum\u00eanica em seu sentido mais amplo, que defende os que sofrem e s\u00e3o perseguidos, e aprende com eles, e que se coloca aberta aos mist\u00e9rios do universo e do mundo, relacionando-os com os desafios sociais e pol\u00edticos que a vida nos apresenta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">No livro, que \u00e9 base para o filme, o percurso da narrativa \u00e9 feito pela Morte. Ela \u00e9 uma narradora-personagem que, embora ciente de tudo sobre si mesma, n\u00e3o tem total conhecimento e dom\u00ednio do mundo \u00e0 sua volta. No enredo, a Morte tenta nos convencer de que, apesar de tudo, a vida vale a pena. No entanto, h\u00e1 um caminho de certa singularidade expresso em uma de suas frases marcantes: \u201c\u00e0s vezes, quando a vida te rouba, voc\u00ea tem que roub\u00e1-la de volta\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O filme nos revela as sombras, as ambiguidades e os percal\u00e7os da exist\u00eancia humana. Dilemas profundos da alma. Imagens e desejos da morte. Melancolia e depress\u00e3o permanentemente presentes, n\u00e3o obstante \u201cchoques de transitoriedade\u201d e possibilidades de recome\u00e7os, de generosidade e de esperan\u00e7a. O interior de cada ser e a realidade circundante, perigosa e repressiva, ambos prenhes de passagens secretas reveladoras da fragilidade humana e da pot\u00eancia, est\u00e3o interligados ora am\u00e1vel ora dolorosamente. S\u00e3o abundantes as met\u00e1foras que surgem das atitudes da graciosa Liesel, dos di\u00e1logos marcantes que travou, das atitudes inspiradoras pela vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">As cenas desse filme nos fazem pensar que a nossa espiritualidade, uma vez recebida sob os influxos divinos de uma decis\u00e3o existencial que valoriza o amor, a justi\u00e7a e a alteridade, pode produzir diferentes frutos. Compreendemos que, pela gra\u00e7a de Deus, \u201cuma for\u00e7a estranha no ar\u201d move e remove percep\u00e7\u00f5es a ponto de vermos o que n\u00e3o est\u00e1 mostrado: que \u201cum outro mundo \u00e9 poss\u00edvel\u201d, conforme nos indicaram os F\u00f3runs Sociais Mundiais, que as pessoas t\u00eam valor independentemente de suas condi\u00e7\u00f5es sociais e econ\u00f4micas, que o amor de Deus \u00e9 preferencialmente direcionado aos mais pobres, que a paz e a justi\u00e7a andam juntas, que o amor e o respeito devem prevalecer nas rela\u00e7\u00f5es humanas, que a salva\u00e7\u00e3o vem de Deus e \u00e9 universal, n\u00e3o se limitando a uma igreja ou religi\u00e3o espec\u00edficas, que Deus \u00e9 maior do que todas as coisas. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Esse tipo de espiritualidade n\u00e3o se aprende em conceitos teol\u00f3gicos, filos\u00f3ficos ou pol\u00edticos. Ele vem com \u201ca mania de ter f\u00e9 na vida\u201d, presente de Deus para tantas Liesels.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p> <a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/2023\/01\/21\/a-vida-e-profunda-por-claudio-de-oliveira-ribeiro\/\">Leia mais&#8230; &raquo;<\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[19,48,21,26],"tags":[58,134,167,194,198,217,298],"class_list":["post-972","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-claudio-de-oliveira-ribeiro","category-cultura-cultura","category-cultura","category-moralidade","tag-amizade","tag-espiritualidade","tag-guerra","tag-leitura","tag-livros","tag-nazismo","tag-vida"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/972"}],"collection":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=972"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/972\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=972"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=972"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=972"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}