{"id":987,"date":"2023-02-05T23:09:17","date_gmt":"2023-02-06T02:09:17","guid":{"rendered":"https:\/\/profanum.com.br\/?p=987"},"modified":"2023-02-05T23:09:17","modified_gmt":"2023-02-06T02:09:17","slug":"sobre-gratuidade-confianca-e-solidariedade-por-claudio-de-oliveira-ribeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/2023\/02\/05\/sobre-gratuidade-confianca-e-solidariedade-por-claudio-de-oliveira-ribeiro\/","title":{"rendered":"&#8220;Sobre gratuidade, confian\u00e7a e solidariedade&#8221;, por Cl\u00e1udio de Oliveira Ribeiro"},"content":{"rendered":"\n<!--more-->\n\n\n\n<h3 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\"><br>(\u201cA lista de Schindler\u201d)<\/h3>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-small-font-size\"><blockquote><p><\/p><cite>Eu sou maior do que era antes<br>Estou melhor do que era ontem<br>Eu sou filho do mist\u00e9rio e do sil\u00eancio<br>Somente o tempo vai me revelar quem sou <br>(\u201cMaior\u201d, de Dani Black)<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Um momento de grande emo\u00e7\u00e3o para mim foi assistir A lista de Schindler, ganhador do Oscar de melhor filme de 1994. Tempos atr\u00e1s, eu pude v\u00ea-lo novamente pela TV e revivi cada cena, cada suspense, cada l\u00e1grima. O filme, dirigido e produzido por Steven Spielberg, apresenta a hist\u00f3ria real e comovente de Oskar Schindler, um empres\u00e1rio alem\u00e3o, brilhantemente interpretado por Liam Neeson. N\u00e3o obstante suas contradi\u00e7\u00f5es, gan\u00e2ncia e oportunismos, e sendo compelido a super\u00e1-las, ele fez o movimento de estar ao lado de v\u00edtimas do nazismo, a ponto de perder sua fortuna no intuito de agir para salvar mais de mil judeus dos campos de concentra\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma hist\u00f3ria sobre genoc\u00eddio e desespero, mas tamb\u00e9m de amor, solidariedade e esperan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O filme mostra, com tintas extremamente realistas, a persegui\u00e7\u00e3o aos judeus na Pol\u00f4nia e a recoloca\u00e7\u00e3o deles no Gueto de Crac\u00f3via, em 1941. As cenas revelam fam\u00edlias inteiras amontoadas em pequenos quartos at\u00e9 a transfer\u00eancia para o campo de concentra\u00e7\u00e3o comandado pelo cruel e corrupto Amon Goeth (Ralph Fiennes).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Patrocinado pelos militares, Schindler adquire uma f\u00e1brica para produzir panelas para o ex\u00e9rcito. Ao precisar de ajuda na administra\u00e7\u00e3o, ele recorre \u00e0 colabora\u00e7\u00e3o de Itzhak Stern, interpretado por Ben Kingsley, um oficial do Conselho Judeu de Crac\u00f3via, que possu\u00eda contatos com a comunidade empres\u00e1ria de judeus. Stern, com sabedoria, ast\u00facia e sensibilidade humana, promove uma s\u00e9rie de esfor\u00e7os e estrat\u00e9gias que salva um contingente expressivo de judeus de ser transportado para campos de concentra\u00e7\u00e3o ou morto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Repleto de simbologias, o filme mostra, por exemplo, uma sequ\u00eancia chocante e interpeladora com o recurso de duas cenas-chave extasiantes: a menina judia correndo perdida no meio do terror dos nazistas, cujo vestido ganha a cor vermelha em meio ao preto e branco do filme, e depois, j\u00e1 morta, sendo levada para a pilha de cad\u00e1veres queimados. Como tais contrastes de cor e de sentido podem nos despertar para a vida e para a sensibilidade humana?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Lembrei-me das palavras de Rubem Alves. Em Creio da ressurrei\u00e7\u00e3o do corpo (1984, p. 55), obra que tanto marcou a minha trajet\u00f3ria de vida, ele nos alertara que:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-text-align-center has-small-font-size\"><blockquote><p><\/p><cite>O medo \u00e9 o canto da morte.                                                                                                                                      E o corpo, belo, se contorce&#8230; Livre, se agacha&#8230;Franco, se fecha numa m\u00e1scara&#8230; Instaura-se a tenta\u00e7\u00e3o no mesmo lugar em que mora o medo.<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">No desenrolar da hist\u00f3ria, Schindler, ao ver o sofrimento de seus empregados, passa por profundas crises e transforma\u00e7\u00f5es e se coloca, gradativamente, em uma posi\u00e7\u00e3o nova e solid\u00e1ria, participando firme e ativamente dos processos que visavam \u00e0 salva\u00e7\u00e3o daquelas vidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Ao final da guerra, com a derrocada alem\u00e3, Schindler, pelos v\u00ednculos que possu\u00eda com o Partido Nazista e como algu\u00e9m que lucrou com a guerra, precisou fugir das For\u00e7as Aliadas. Ao se despedir de seus empregados, recebe destes uma carta que testifica n\u00e3o ser ele um criminoso, e, junto dela, um anel com uma cita\u00e7\u00e3o do Talmude, que havia sido dita \u00e0 Schindler por Stern: \u201cAquele que salva uma vida salva o mundo inteiro\u201d. Schindler fica fortemente tocado com a mensagem, mas, ao mesmo tempo, profundamente envergonhado por considerar que poderia ter feito mais para salvar mais vidas. \u00c9 impactante a fala do protagonista, em meio ao choro, dizendo que deveria ter vendido os seus pertences, como o carro ou o broche, para salvar outras pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Depois de algumas cenas mostrando eventos do p\u00f3s-guerra, o \u201cpreto e branco\u201d do filme d\u00e1 lugar ao colorido do final com as homenagens dos sobreviventes no t\u00famulo de Oskar Schindler. A emocionante caminhada dos judeus que trabalharam na f\u00e1brica do empres\u00e1rio, cada qual colocando uma pedra em sua l\u00e1pide, como no costume judaico de expressar gratid\u00e3o a pessoas falecidas, tocou profundamente nosso cora\u00e7\u00e3o. At\u00e9 mesmo os atores e atrizes que interpretaram as personagens principais caminharam de m\u00e3os dadas com elas, colocando suas pedras e rosas na l\u00e1pide enquanto passavam. Reconhecimento e gra\u00e7a!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O filme me marcara profundamente no in\u00edcio dos anos de 1990, e n\u00e3o somente a mim, mas a um n\u00famero enorme de pessoas que, vidradas, se mobilizaram num longa preto e branco com mais de tr\u00eas horas de dura\u00e7\u00e3o. \u00c0 \u00e9poca, comecei a crer que algo misterioso estava no ar, sensibilizando pessoas, movendo-as\u2026 No mesmo per\u00edodo, Herbert de Souza, o inesquec\u00edvel Betinho, l\u00edder de significativos movimentos sociais, tamb\u00e9m chamava a aten\u00e7\u00e3o de tantos para a campanha \u201cA\u00e7\u00e3o da cidadania contra a fome e a mis\u00e9ria, pela vida\u201d. Um despertar de utopias se dava.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O filme, em todos os instantes, me fazia lembrar dos dramas vividos pelo pastor e te\u00f3logo Dietrich Bonhoeffer, martirizado pelas for\u00e7as sombrias do nazismo, cujo testemunho tanto marcou meu pensamento teol\u00f3gico e pastoral. Em cada cena, a mem\u00f3ria de Bonhoeffer ia e vinha em minha mente. Em Resist\u00eancia e submiss\u00e3o (1980, p. 196), ele nos diz:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-small-font-size\"><blockquote><p><\/p><cite>Ainda o passado nos tortura,De dias maus nos pesa a amargura;<br>Senhor, concede \u00e0s almas espantadas<br>A salva\u00e7\u00e3o, para qual s\u00e3o preparadas.<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">As mudan\u00e7as na vida de Schindler, engendradas pela confronta\u00e7\u00e3o com a dor e o sofrimento de tantas vidas, me levam a recordar a linda can\u00e7\u00e3o j\u00e1 citada, de Dani Black, \u201cMaior\u201d, que eu ouvi com a participa\u00e7\u00e3o de Milton Nascimento, e me fez pensar. Ela ficou em minha mente por muitas noites, e, vez ou outra, volta para me alumiar. Ela diz que:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-small-font-size\"><blockquote><p><\/p><cite>As cores mudamAs mudas crescem<br>Quando se desnudam<br>Quando n\u00e3o se esquecem<br>Daquelas dores que deixamos para tr\u00e1s<br>Sem saber que aquele choro valia ouro<br>Estamos existindo entre mist\u00e9rios e sil\u00eancios<br>Evoluindo a cada lua a cada sol<br>Se era certo ou se errei<br>Se sou s\u00fadito se sou rei<br>Somente atento \u00e0 voz do tempo saberei.<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Ah, se todos n\u00f3s reconhec\u00eassemos que poder\u00edamos e podemos fazer muito mais! O carro vendido para salvar mais dez vidas ou o broche para salvar uma ou duas que seja. E ele, Schindler, que salvou mais de mil, se sentiu como \u201cservo in\u00fatil e sofredor\u201d, como na profecia b\u00edblica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">E o Reino de Deus vai sendo fermentado por a\u00ed, graciosamente\u2026 Com certo custo, \u00e9 verdade! De tantos trabalhadores e trabalhadoras, de gente que busca a justi\u00e7a e a paz, que cultiva a dignidade da vida, dos \u201cJ\u00falios Lancelottis\u201d e an\u00f4nimos, dos grupos que abra\u00e7am as a\u00e7\u00f5es sociais das igrejas e tantos outros generosos e solid\u00e1rios movimentos, dos que protestam contra a viol\u00eancia e contras as armas. Tudo sob a maravilha da \u201cgra\u00e7a custosa\u201d, como se referia Bonhoeffer, assassinado pelos milicianos de sua \u00e9poca.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[18,19,48,21,26],"tags":[83,150,171,177,191,217,280],"class_list":["post-987","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cidadania-e-direitos-humanos","category-claudio-de-oliveira-ribeiro","category-cultura-cultura","category-cultura","category-moralidade","tag-cinema","tag-fascismo","tag-historia","tag-humanismo","tag-judeus","tag-nazismo","tag-solidariedade"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/987"}],"collection":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=987"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/987\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=987"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=987"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/krisis.univasf.edu.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=987"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}