Nada do que foi será
De novo do jeito que já foi um dia
Tudo passa, tudo sempre passará
A vida vem em ondas como um mar
Num indo e vindo infinito
(“Como uma onda”,
Lulu Santos e Nelson Motta)
Eu recitei os versos dessa canção dias atrás quando tive a oportunidade de celebrar o casamento de pessoas queridas. Ao compartilharem aspectos do conjunto de suas vidas, elas ofereceram um rico e denso buquê de experiências de construção e reconstrução de suas trajetórias pessoais. Por essa razão, me lembrei dessa poesia, sempre mágica, comovente e inquietante. E ela, que me acompanha desde os tempos de juventude, emoldurou as preces, os textos bíblicos e os ritos sagrados, a inefável troca das alianças e as palavras amorosas compartilhadas em compromissos mútuos de comunhão e afeto. Afinal, “ainda que eu fale a língua dos homens e dos anjos, se não tiver amor […], nada serei” (I Coríntios 13.1-2).
Nós, como expressão majestática de uma belíssima comunidade de amigos, amigas e familiares, estávamos em frente ao mar. Ali, celebramos livremente, intercruzando fés, afirmando a beleza e a sacralidade da vida, ao mesmo tempo que sentíamos o sabor do vento em nossas faces, o calor do sol em nossos ombros, e a areia da praia sob nossos pés.
O “indo e vindo infinito” expresso na canção me fez recordar das palavras do teólogo alemão Paul Tillich, que, em sua autobiografia, realçou o impacto que as primeiras vistas do mar, e das ondas que o envolvem, causaram em sua vida. É como se os mistérios e a profundidade da existência e do cosmo viessem inteira e corajosamente nas ondas do mar e fossem penetrando ardorosamente o nosso lado mais íntimo e visceral.
E lá dentro, “no interior do meu interior”, como diz outra canção – a de Vander Lee –, as ondas da profundidade da vida se misturam com as de minha interioridade. Lá, no mais íntimo de cada ser, tudo é recriado, revisto, redimensionado. E as ondas que existem dentro de nós, e que ora nos causam enjoo e tontura, ora nos jogam para a frente, saem robustas para o mar e se reencontram com a fundura do universo e dos destinos. Foi assim que eu me senti. Em um movimento inebriante. Que alumia, recria, refaz, traduz.
Pois…
Tudo que se vê não é
Igual ao que a gente
Viu há um segundo
Tudo muda o tempo todo
No mundo
Não adianta fugir
Nem mentir
Pra si mesmo agora
Há tanta vida lá fora
Aqui dentro sempre
Como uma onda no mar
E esse vai-e-vem da vida nos revela tantas possibilidades… Com ele, é possível perceber o mundo natural, material e humano como fontes vivas de energia e caminhar em direção da comunhão entre eles. E também abranger os horizontes, as utopias, a transcendência, “a justiça, a paz e a integridade da Criação”, que o movimento ecumênico nos ensinou, e o “outro mundo possível”, como os Fóruns Sociais Mundiais nos ajudaram a vislumbrar.
A areia daquela praia é como o chão de nossas vidas. Ela demarca as inquietações, baliza o compasso do que sai do peito, do que grita a alma, do que faz revirar os desejos. Nela, como espaço simbólico interpelador de nossas vidas, traçamo ses os caminhos. Tomamos decisões. Optamos, não sem contradições e ambiguidades, pelas rotas do bem, da verdade, do amor despojado e gratuito. Buscamos esses rumos, na crença de que “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”, como na conhecida canção da Legião Urbana. No chão da vida, vivemos potencialidades e limites, frustrações e realizações, desprendimentos e despeitos, passos de liberdade e controles, embora a mesma palavra bíblica nos dê a inspiração de que o “amor não arde em ciúmes” (v. 4). É nesse solo que tentamos decifrar os desígnios que nos incomodam ou nos prendem.
É preciso lembrar as palavras de Rubem Alves:
A teologia fala sobre o sentido da vida.
Afirmação que pode ser invertida: sempre que os homens estiverem falando sobre o sentido da vida, ainda que para isso não usem aquelas contas de vidro que trazem as cores tradicionais do sagrado, estarão construindo teologias: mundos de amor, em que faz sentido viver e morrer.
E quem não será então que, de vez em quando, provavelmente no silêncio das insônias ou naqueles momentos em que a vida de um ente querido se dependura sobre o abismo, que não será, que não terá sido, meio teólogo, invocador de coisas divinas, mágico?… (Variações sobre a vida e a morte, 1982, p. 194).
E tudo isso nos faz também lembrar a magia de “Imagine”, de John Lennon – uma das mais marcantes canções que também ressoa lá dentro do peito…
Imagine all the people
Living life in Peace
É… “Você pode dizer que eu sou um sonhador. Mas, não sou o único”.
E na aliança de gente cheia de ideais, de pessoas que mantêm o compromisso com a verdade e a justiça – ainda que a cultura do ódio e da violência continue rangendo os dentes em nosso país –, e na companhia sempre terna de amigos e amigas que prezam a solidariedade, a compaixão, a inclusão e o respeito, vamos construindo pontes… reunindo afetos… criando laços.
O céu, o mar e a terra naquela tarde, na interação mágica e sublime com os que ali estavam, testemunharam a inspiração da Palavra que nos leva ao “bem-viver”, à cumplicidade do amor, à doação sem medida. Não se trata de indicações meramente éticas, mesmo porque ninguém se alimenta de regras morais, mas, sim, de uma luz, uma inspiração, uma placa luminosa: “O amor, paciente e benigno, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus próprios interesses, não se exaspera, não se ressente do mal, não se alegra com a injustiça” (v. 4-6).
Tais caminhos são misteriosos e altivos. São traçados com a mente borbulhando e as pernas bambeando, e certa secura na garganta, típicas dos rompantes de paixão. Neles aparece a voz que vem ao peito com a belíssima canção “Ânima”, de Milton Nascimento:
Recriar cada momento belo já vivido
e ir mais atravessar fronteiras do amanhecer
e ao entardecer olhar com calma, então
Alma, vai além de tudo
o que o nosso mundo ousa perceber
casa cheia de coragem, vida
tira a mancha que há no meu ser
te quero ver, te quero ser, alma.
Tais canções, imagens e memórias nos fazem vislumbrar muitas ondas e passagens. Elas nos revelam uma espiritualidade que valorize a vida e as pessoas deste mundo sofrido, que seja sensível ao cuidado com a natureza e perceba nela também o lugar de salvação da mesma forma que olhamos para o humano. Esse caminho nos leva a uma aventura ecumênica que, por ser libertadora, defende os pobres e desvalidos e aprende com eles; que, por ser amorosa, inclui todo mundo; que, por ser aberta aos mistérios do universo e dos amores concretamente vividos entre nós, abre os olhos para o tempo, com o mar de desafios sociais e políticos que a vida nos apresenta, com os caminhos de amor a serem trilhados e com as ondas do mar que nos levam a eles.